Atraídos pelos bons rendimentos, brasileiros migram cada vez mais para o Centro-Oeste
Ana Sachs Do UOL Notícias Em São Paulo
A região Centro-Oeste do Brasil é um dos principais polos migratórios do país, segundo a última Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) relativa a 2008, divulgada nesta sexta-feira (18) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Nesta região, composta pelos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, além do Distrito Federal, mais da metade da população (54,2%) é não natural do município em que vive e 35,6% é oriunda de outros Estados - o maior percentual do país. Para efeito comparativo, na região Norte, a segunda com mais cidadãos residentes nascidos em outras Unidades da Federação, esse percentual é de 21,9%.
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Enquanto a média nacional de migrantes de outros Estados ficou estacionada em 15,7% entre 2007 e 2008, no Centro-Oeste subiu 0,3 ponto percentual. Somente a região Sudeste, que historicamente recebia o maior contingente de cidadãos de outras localidades do país, apresentou o mesmo crescimento no período. Na migração intermunicipal, o Centro-Oeste também teve um crescimento de 1 ponto percentual - número acima da média nacional, que é de 0,3, e superior ao Sudeste, que teve aumento de 0,9 ponto percentual.
Na avaliação de Frédéric Monie, professor do departamento de geografia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), questões econômicas são o que atraem os migrantes para o Centro-Oeste. "A dinâmica de migrações no Centro-Oeste é basicamente econômica. São as novas fronteiras do agronegócio nas regiões de cerrado. Lá há mais incentivo fiscal e não tem sindicatos", explica.
A empresária Angelita Policarpo Menegheti, de 34 anos, é um exemplo do que vem acontecendo na região. Ela se mudou da cidade de Dois Córregos, no interior de São Paulo, com seu filho de 6 anos para a pequena cidade de Vicentina, no Mato Grosso do Sul, em 2008, após seu marido abrir uma nova unidade da usina de álcool da família no Estado.
Menegheti conta que o incentivo fiscal foi um dos principais atrativos para que a família decidisse abrir a nova unidade em Vicentina. "Com certeza foi o incentivo fiscal. Várias usinas estão sendo instaladas na região", apontou.
O município conta com cerca de 6.000 habitantes - dos quais, boa parte, vêm de outras cidades e Estados, segundo ela. "Tem bastante gente de fora, muita gente de São Paulo e alguns do Paraná", afirmou.
Os números da Pnad confirmam a afirmação da empresária. Dentre os 687 mil migrantes interestaduais do MS - o que corresponde a 29% da população do Estado - uma boa parte veio de São Paulo (246.000) e Paraná (127.000). O Mato Grosso recebeu ainda mais paranaenses (285.000), enquanto os paulistas somam 156.000. No total, 40,4% da população matogrossense é de fora do Estado.
Para Monie, isso tem uma explicação: "Essas regiões recebem muitos gaúchos que já haviam migrado para o oeste do Paraná em busca de melhores oportunidades. Com a concorrência, começaram a migrar para o Centro-Oeste".
Já o grande número de paulistas é explicado pela falta de mão-de-obra qualificada na região. "São Paulo continua sendo o grande provedor brasileiro de recursos humanos. Há muito trabalhador qualificado que vai para lá, são cidades novas e a escassez de profissionais faz os rendimentos subirem", aponta o professor da UFRJ.
De fato, os rendimentos do Centro-Oeste superam a média do país, segundo os dados na Pnad. O rendimento médio mensal real de trabalho (das pessoas de 10 anos ou mais de idade ocupadas), registrou, no Centro-Oeste, o maior valor do país, de R$ 1.261,00 - para uma média nacional de R$ 1.036,00. O aumento dos ganhos em relação a 2007 foi de 3,2%, no Centro-Oeste, contra 1,7% no Brasil como um todo.
O rendimento médio mensal real dos domicílios dessa região também foi superior à média brasileira em 2008, registrando o maior ganho entre as regiões, de 5,5%, em relação ao de 2007, e batendo em R$ 2.352,00, também o maior valor do país. Na média nacional, o rendimento médio mensal real dos domicílios foi de R$ 1.968,00, registrando ganho de 2,8% em relação ao de 2007.
Outro fenômeno que acontece no Centro-Oeste é a migração de nordestinos para o Estado. "Há também muita gente do Norte e Nordeste, que vêm para trabalhar no plantio de cana-de-açúcar. Eles trazem a família e acabam ficando por aqui", conta Angelita.
Para Monie, ao contrário dos paulistas, os nordestinos, em especial os maranhenses, seguem para o Centro-Oeste atraídos por trabalhos de baixa qualificação. "Vão fazer trabalhos como a catação de raízes ou em fábricas de alimentos e abatedouros", aponta. Em Goiás, onde 28,7% da população veio de outros Estados, 165.000 pessoas são oriundas do Maranhão, mas os mineiros são a maioria e somam 371.000.
Os Estados da região Centro-Oeste apresentam ainda mais da metade de suas populações não naturais do município de moradia. Mato Grosso do Sul tem 51,1%, Mato Grosso, 61,0% e Goiás 53,3%.
No Distrito Federal, 1,2 milhão de pessoas, o que equivale a 51,1% dos moradores locais, são de outros municípios. Desses, uma boa parte veio de Minas Gerais (218.000), Goiás (175.000), Bahia (150.000) e Piauí (128.000). "Historicamente há muitas pessoas residentes que não nasceram no Distrito Federal. Tem muitas pessoas de fora que migraram à capital para trabalhar", explicou Adriana Beringuy, analista da Pnad.
Entre os cidadãos oriundos de outros Estados que vivem no Centro-Oeste, 37,5% estão na faixa de 18 a 39 anos e 35,1% na faixa entre 40 e 59 anos. Já entre as pessoas que vivem em cidades do Centro-Oeste onde não nasceram, 38,8% têm 18 a 39 anos e 32,4% entre 40 e 59 anos.