UOL Notícias Especial Retrospectiva 2008
 

15/12/2008 - 07h00

Epidemias, trânsito caótico e greves voltam a atormentar o dia-a-dia do brasileiro em 2008

Thiago Varella
Do UOL Notícias
Em São Paulo
Problemas antigos, que há anos atormentam a vida dos brasileiros, voltaram a atrapalhar e assustar a população em 2008. Em um ano de eleições municipais e inúmeras promessas, diversas cidades brasileiras sofreram com epidemias, trânsito caótico e greves.

Janeiro começou com duas terríveis heranças de 2007, os surtos de dengue e febre amarela. Os brasileiros passaram o verão na caça do mosquito Aedes aegypti, transmissor das duas doenças. Valeu de tudo para se proteger do mosquito, desde a preparação de armadilhas, até andar de calças compridas em pleno calor de 40°C, no Rio de Janeiro, para evitar picadas nas pernas.

Dengue mudou rotina de lazer do carioca



Os moradores do Rio de Janeiro foram os que mais sofreram com a dengue. Até o mês de maio, a Secretaria Estadual de Saúde do Estado havia notificado 131.238 casos e confirmado 106 mortes. Os fluminenses chegaram a confirmar mais de um caso da doença por minuto. Foi a pior epidemia registrada desde 1986.

O Rio de Janeiro quase declarou guerra contra o mosquito. Com o esgotamento dos leitos nos hospitais públicos, o exército montou hospitais de campanha para atender os milhares de afetados pela dengue.

O Estado não foi o único refém da dengue. Só no primeiro trimestre do ano, houve aumento no número de casos em Amazonas (992%), Rondônia (484%), Sergipe (617%), Bahia (241%), Rio Grande do Norte (275%) e Pará (147%) em relação a 2007.

Segundo dados da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS/MS), de janeiro a abril, 1.069 casos de febre hemorrágica da dengue, a forma mais severa da doença, foram confirmados em todo país, com 77 mortos.
  • AFP

    Criança é atendida em em tenda da Força Aérea, no Rio de Janeiro



As perspectivas para 2009 não são boas, principalmente para quem vive no Rio de Janeiro. Hans Dohmann, futuro secretário municipal da Saúde do Rio, já disse que uma epidemia na cidade será inevitável.

O Aedes aegypti também causou transtorno com o surto de febre amarela no país. Houve um corre-corre generalizado em busca de vacinação contra a doença, com a formação de filas quilométricas nos postos de saúde. O temor excessivo levou a casos de reações adversas à vacina contra febre amarela por superdosagem.

De acordo com o Ministério da Saúde, até maio 25 pessoas haviam morrido por causa da doença, 14 somente em Goiás.

Retratos do trânsito de SP

  • Folha Imagem

    Na Av. 23 de Maio, em outubro

  • Folha Imagem

    De noite, na Marginal Pinheiros

  • Folha Imagem

    Em ponte da Marginal Tietê



Trânsito
Quem precisou pegar o carro - ou o ônibus - para ir até um posto de saúde se vacinar contra a febre amarela, certamente enfrentou outro problema que se intensificou em 2008: o trânsito. O assunto foi tão marcante e debatido - inclusive entre os candidatos a prefeito na campanha eleitoral - que o UOL publicou uma série de reportagens especiais sobre o caos no trânsito nas grandes cidades brasileiras.

São Paulo, a cidade brasileira que apresenta os maiores índices de trânsito - o recorde de 2008, com o rodízio de caminhões, até novembro foi de 228 km -, ganhou, somente em março, 48.571 novos veículos, uma alta de 64% em relação à média mensal de crescimento de 2007. Segundo a Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos, o trânsito da região metropolitana de São Paulo gera um custo de R$ 4,1 bilhões por ano.

De acordo com um estudo realizado pelo Citigroup, o caos no trânsito reduz produtividade do Brasil em 5%.

Para tentar aliviar o fluxo de veículos, a Prefeitura de São Paulo resolveu ampliar o rodízio municipal de veículos para os caminhões. Os veículos ficaram impedidos de circular por um dia da semana, de acordo com a placa, das 7h às 10h e das 17h às 20h, em vias como as marginais Tietê e Pinheiros e a avenida dos Bandeirantes. Cerca de 20% da frota de 126 mil caminhões deixaram de rodar na cidade.

Se para os paulistanos o problema é antigo, em 2008, para moradores de outras capitais, o trânsito se tornou mais um fator adverso no cotidiano. Em Salvador, onde apenas 20% da população possui carro, o crescimento da frota, a falta de obras, os atrasos no metrô e até mesmo a geografia complicaram o trânsito. Já em Belo Horizonte, o tráfego lento lotou os metrôs e complicou o transporte público na cidade.

Lei Seca
Os atrasos e prejuízos não são os únicos transtornos causados pelo trânsito caótico. Muita gente morre por causa de acidentes principalmente causados pela imprudência de alguns motoristas. Por isso, em 2008, o governo resolveu aumentar a punição de quem dirige embriagado. A chamada lei seca, instituída em junho, prevê multa de R$ 955, apreensão do veículo e da carteira de motorista por um ano e até prisão para quem conduzir veículos com 0,3 mg/l ou mais de álcool no sangue.

Paulistanos se adaptam à lei seca



Inicialmente, a lei desagradou a muita gente. Os donos de bares e restaurantes reclamaram da diminuição do movimento. Muita gente considerou a lei excessiva e argumentou que o governo não deveria punir aqueles que nunca cometeram um crime no trânsito. Um bafômetro chegou a flagrar o consumo de dois bombons de licor.

As estatísticas iniciais mostravam que a lei seca era um sucesso. Em julho, a Polícia Rodoviária Federal divulgou que houve uma redução de 14,5% do número de mortes no trânsito em comparação ao mesmo período do ano anterior. Além disso, a redução de acidentes fatais gerou uma economia de mais de R$ 48 milhões.

Entretanto, em uma análise feita entre 20 de junho e 20 de outubro, a Polícia Rodoviária Federal notou que o número de acidentes foi 10% maior em 2008 do que no mesmo período ano anterior.

Greves
As greves em alguns serviços básicos também incomodaram a vida de muita gente em 2008. Em abril, os Correios fizeram a primeira paralisação do ano. Foram só quatro dias de braços cruzados reivindicando aumento de periculosidade e da participação nos lucros, mas que prejudicaram a entrega de 33 milhões de correspondências.

Manifestação de policiais grevistas em SP



Em junho, no entanto, uma nova greve que durou 21 dias parou os serviços dos correios em 22 Estados e no Distrito Federal. Um acordo firmado entre o Ministério das Comunicações, a diretoria dos Correios e a liderança do movimento grevista atendeu a uma das principais reivindicações da categoria que foi a incorporação de adicional de risco de 30% do salário-base para 43 mil carteiros.

O país ainda enfrentou outra grande greve em 2008. Em outubro, os bancários de grande parte do Brasil cruzaram os braços por 15 dias. Pelo acordo que pôs fim à paralisação, os bancários que recebiam remuneração fixa mensal até R$ 2.500 tiveram reajuste de 10%. Aqueles que ganhavam salários superiores a R$ 2.500 tiveram aumento em 8,15%.

Os paulistas ainda se assustaram com a greve da Polícia Civil, que culminou, também em outubro, com um confronto com a tropa de choque da Polícia Militar. Na ocasião, 25 pessoas ficaram feridas.

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