UOL Notícias Especial Retrospectiva 2008
 

16/12/2008 - 07h00

Todos os olhos sobre a China: Olimpíadas, repressão ao Tibete e escândalos comerciais

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo
Em 2008, os holofotes foram virados para a China. Além das Olimpíadas mais caras e uma das mais polêmicas da história, o país dominou as manchetes com o terremoto de Sichuan, que matou mais de 80 mil pessoas e destruiu a região, o escândalo da contaminação do leite, que intoxicou milhares de bebês, e os protestos no Tibete, que evidenciaram o regime linha dura do Partido Comunista Chinês.

ANÁLISE: LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO

  • "China surpreende em 2008, mas é grande esfinge para 2009"
Os Jogos Olímpicos de Pequim foram marcados pela complexa relação entre esporte, política, meio ambiente, economia, meios de comunicação e direitos humanos.

De um lado, um quadro lotado de 51 medalhas chinesas, a eficiência e a qualidade da organização dos Jogos, que custou mais de US$ 40 bilhões, e a força da economia chinesa.

Do outro, um país que exige o máximo de seus atletas, nega o direito à liberdade de expressão, não tolera manifestações a favor da independência do Tibete e prende dissidentes.

Meses antes do início das Olimpíadas, manifestações pregavam boicotes aos Jogos. O movimento pró-Tibete ganhou mais força em 14 de março, quando eclodiram violentos protestos pró-independência na capital Lhasa e monges foram presos.

A passagem da tocha olímpica foi marcada por protestos em diversas cidades, como Atenas, Istambul, Buenos Aires, Paris, Londres e São Francisco.

Em resposta, a China alegou que o "bando do Dalai Lama" orquestrou as manifestações para sabotar os Jogos e despedaçar a unidade nacional do país, mas, em seguida, movida pela pressão da comunidade internacional, se ofereceu para negociar com o líder espiritual a tranqüilidade na província autônoma.

Pelo outro lado, chineses furiosos com as manifestações internacionais se reuniram em várias cidades do país para pedir boicote a produtos franceses e protestar contra a independência tibetana. Estudantes em todo o mundo se mobilizaram contra a campanha anti-China e criaram sites que hostilizam a cobertura dos protestos pela imprensa ocidental. Muitos acusaram o Ocidente de temer a potência chinesa, e a agência estatal Xinhua divulgou que a imprensa ocidental tentou "distorcer" a verdade e agir como "árbitros morais" na cobertura dos confrontos entre tibetanos e chineses.

A imprensa estrangeira não pôde entrar em Lhasa e o fluxo de informações que saía do Tibete era controlado pelo governo chinês. Durante os conflitos, sites e sinais de transmissão de rádio e televisão internacionais foram bloqueados e as linhas telefônicas foram desconectadas, segundo denúncia da ONG Repórteres Sem Fronteira. Mais de 25 jornalistas estrangeiros foram expulsos da província.

Houve também bloqueio chinês a sites gerenciados por dissidentes e ativistas pelos direitos humanos e pró-Tibete, aos sites YouTube, BBC, CNN e Yahoo News. O governo chinês também anunciou regras mais rígidas às estrelas internacionais do rock e do pop que se apresentarem no país, depois que a cantora Björk defendeu a independência do Tibete durante um show em Xangai.

Em agosto, o Comitê Organizador das Olimpíadas de Pequim lançou uma cartilha com 57 perguntas e respostas sobre o que era ou não tolerado durante os Jogos. Um dos pontos indicava a obrigatoriedade de consulta ao governo antes de qualquer tipo de protesto.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) chiou, mas levantou seu próprio estatuto, que proibia qualquer manifestação política, religiosa ou racial em locais de competição. O governo chinês chegou a criar zonas especiais para protestos no entorno do complexo olímpico, mas elas permaneceram vazias durante todo o evento, porque todos os requerimentos de protestos foram negados.

Quando começaram as Olimpíadas, no dia 8 de agosto, a China tentou mostrar mais abertura ao exterior e reduziu as restrições ao trabalho da imprensa internacional no país. Os jornalistas ganharam permissão para fazer entrevistas e viajar sem precisar de prévia autorização oficial, mas, na prática, os profissionais ainda foram alvo de intimidações, o Tibete continuou fechado para jornalistas e blocos de notas chegaram a ser apreendidos. O relaxamento das regras não se aplicou a jornalistas chineses, que permaneceram submetidos à censura e ao controle rigoroso do governo chinês para reportar apenas a versão oficial dos fatos publicada pela agência Xinhua.

Além do debate em torno da liberdade de imprensa e da independência do Tibete, os grandes problemas ambientais também foram escancarados durante os Jogos: a contaminação do ar, da água e da cadeia alimentar. Atletas com máscara antipoluição apontaram para o céu completamente cinza, fruto do crescimento desenfreado do país, cuja economia, mesmo diante da crise financeira global, crescia 9% no terceiro trimestre de 2008.

A China rapidamente tentou se mostrar mais limpa. Anunciou medidas emergenciais para encobrir a economia baseada na queima do carvão, investiu pesado em energia renovável e montou um plano para a redução das emissões dos gases de efeito estufa, coisa que outros países desenvolvidos estão longe de fazer.

Mas, no país de dimensões continentais e superpopulação, qualquer problema de contaminação pode ser desastroso. Foi o que aconteceu quando o leite e seus derivados, produzidos pela indústria chinesa, apareceram adulterados com melamina (substância com a qual são fabricadas resinas sintéticas para revestimentos) em nível nocivo e apontaram para o descontrole do governo chinês sobre a produção. Pelo menos quatro bebês morreram intoxicados e mais de 294 mil crianças tiveram problemas renais, segundo dados oficiais do Ministério da Saúde da China.

As autoridades chinesas informaram que a substância, originalmente usada na fabricação de plástico e usada no leite para forjar a quantidade de proteína, foi produzida em fábricas clandestinas e vendida para fazendas de gado e usinas de leite. Vinte e duas pessoas foram presas. Em seguida, o governo anunciou que unificaria o sistema de controle de qualidade dos laticínios para garantir a boa qualidade, numa tentativa de recuperar a credibilidade dos produtos chineses no mercado internacional.

Mas, ao mesmo tempo em que as autoridades tentam acalmar os consumidores e refazer a sua imagem, novos recalls de produtos eram são anunciados e o problema se alastrava para biscoitos, sorvetes, chocolates e outros derivados. Logo em seguida, a melamina foi detectada em ovos.

A lista de produtos adulterados e retirados das prateleiras incluiu marcas nacionais e internacionais, como Cadbury, M&M, Snickers, Oreo, Lipton, Ritz, Nestlé, Dutch Lady e Mr Brown, e a importação de alimentos chineses foi proibida em diversos países.

RELEMBRE: Polêmica na Abertura das Olimpíadas

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  • A obsessão chinesa por mostrar ao mundo uma imagem perfeita do país virou polêmica quando se revelou que a menina que cantou na abertura dos Jogos (foto 1) dublou a voz de outra menina "pouco fotogênica" (foto 2)

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