UOL Notícias Especial Retrospectiva 2008
 

16/12/2008 - 07h00

Ataques em Mumbai, conflitos por independência e polêmicas disputas eleitorais marcam 2008

Fabiana Uchinaka e Silvana Salles
Do UOL Notícias
Em São Paulo
A China, palco dos Jogos Olímpicos, e a América, com a eleição de Barack Obama nos Estados Unidos e as mudanças na América Latina (renúncia de Fidel Castro, libertação de Ingrid Bitencourt, fim da hegemonia de 61 anos do Partido Colorado no Paraguai), foram dois grandes focos das atenções do mundo durante 2008, mas certamente não os únicos.

ANÁLISE: LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO

  • "Haverá sempre uma dose de protecionismo na Europa"
Da independência de Kosovo aos conflitos na África (Zimbábue e República Democrática do Congo), passando pela renúncia do presidente do Paquistão e a rejeição do Tratado de Lisboa na União Européia, outras regiões do mundo também tiveram movimentos históricos significativos, em um ano em que poucos assuntos permaneceram tanto tempo em evidência como a crise financeira global.

O acontecimento mais chocante, no entanto, foi o atentado coordenado na capital financeira da Índia, Mumbai.

O ataque terrorista deixou mais de 190 mortos e foi considerado o "11 de Setembro" indiano, sete anos depois da queda das Torres Gêmeas, no centro financeiro dos Estados Unidos.

  • Reuter

Kosovo independente
Em fevereiro, o Parlamento de Kosovo, de maioria albanesa, aprovou por unanimidade a declaração da independênciada província sérvia feita pelo primeiro-ministro Hashim Thaci. Thaci lutou contra a Sérvia entre 1998 e 1999 e, desde que assumiu, afirmou que a independência da província seria uma das primeiras medidas do seu governo.

Após o anúncio, Thaci afirmou que o país irá obedecer aos preceitos da Organização das Nações Unidas (ONU) e das leis internacionais, pediu o reconhecimento da comunidade internacional e defendeu que a nova república terá boas relações com a Sérvia e que os direitos da minoria serão respeitados.

Há cerca de 120 mil sérvios em Kosovo, em meio a dois milhões de habitantes de etnia albanesa. Milhares de kosovares saíram às ruas para comemorar o anúncio da independência, mas entre os sérvios a notícia foi recebida com revolta. Mais de mil manifestantes lançaram pedras contra a embaixada norte-americana na capital sérvia, Belgrado, e, dias depois, atacaram tropas da Otan durante violentos distúrbios.

A declaração foi considerada como um resultado inevitável de guerras e da história pelos Estados Unidos e por vários países europeus, mas vista como "imoral e ilegal" pelo então presidente russo Vladimir Putin, que, junto com a Sérvia, não reconhece a independência do país. Em junho, a nova constituição entrou em vigor em Kosovo, transferindo o poder para a maioria étnica albanesa após nove anos de administração das Nações Unidas.

  • AP

Eleições no Zimbábue
Na África, aconteceram as polêmicas eleições no Zimbábue. O primeiro turno foi realizado em março com o país politicamente polarizado entre o presidente Robert Mugabe, da Zanu-PF (União Nacional Africana do Zimbábue-Frente Patriótica), e o líder de oposição Morgan Tsvangirai, do MDC (Movimento pela Mudança Democrática).

A Zanu-PF perdeu a maioria na Câmara e pediu a recontagem dos votos do pleito presidencial, antes mesmo que os números fossem divulgados. O fato gerou protestos da oposição, que foi reprimida com violência pelo aparelho policial do Estado. Intimidações, agressões e prisões de líderes do MDC fizeram com que Tsvangirai retirasse sua candidatura em junho, a uma semana do segundo turno - soube-se, depois, que ele ficou à frente de Mugabe, com 47,9% dos votos ante 43,2%. A oposição então boicotou o segundo turno, que aconteceu em 27 de junho, e Mugabe venceu com apenas 42,37% de participação dos eleitores.

Uma escalada de violência tomou o país entre abril e junho. No dia 15 de setembro, Mugabe e Tsvangirai assinaram um acordo para a formação de um governo de união. Mesmo assim, o Zanu-PF ficou com os principais ministérios, como a Defesa, e o líder de oposição obteve poderes restritos como primeiro-ministro.

  • Reuters

Iraque ocupado
A ocupação das tropas norte-americanas no Iraque completou cinco anos também em março de 2008. O aniversário não teve comemorações: a guerra já contabilizou de 89 mil a 97 mil mortos até 22 de novembro, segundo o Iraq Body Count, projeto que contabiliza as mortes civis causadas por ataques da coalização ou de insurgentes.

Apesar dos números e de ondas de violência sectária registrados ao longo do ano, houve conquistas importantes no país. Em janeiro, o governo iraquiano aprovou uma lei reconciliatória que derrubava a proibição a membros do partido de Saddam Hussein de ocupar cargos públicos civis ou militares.

Em maio, os Estados Unidos divulgaram dados que revelam o menor índice de violência no país em quatro anos. Um porta-voz das operações de segurança de Bagdá informou que a violência na cidade caiu 89% em agosto, na comparação com 2006 e 2007. Em outubro, uma nova lei eleitoral foi adotada, prevendo eleições nas províncias até janeiro de 2009.

Iraque e Estados Unidos assinaram em novembro um novo cronograma para a retirada das tropas americanas em território iraquiano. Segundo o acordo, os militares norte-americanos devem deixar de circular pelas ruas de cidades e vilas iraquianas até meados de 2009, e deixar todo o país até o final de 2011.

  • Reuter

Terror na Áustria
Em abril, a cidade austríaca Amstetten se chocou com a história de Elisabeth Fritzl, hoje com 42 anos, que foi mantida por 24 anos no porão de sua casa pelo próprio pai, Josef Fritzl, de 73 anos. Ela foi constantemente abusada e teve sete filhos com ele.

Três das crianças moravam com Elisabeth no porão, outras três foram "adotadas" pelo pai e viviam na parte superior da casa com o resto da família e uma morreu no parto.

Os crimes foram descobertos depois que a filha mais velha de Elizabeth, Kerstin, de 19 anos, ficou seriamente doente e foi levada ao hospital, onde os médicos requisitaram a presença da mãe. Josef então libertou Elisabeth e as outras duas crianças - que viram a luz do Sol pela primeira vez.

Segundo a investigação, Rosemarie Fritzl, mãe de Elizabeth, e as três crianças que moravam na casa não sabiam do que acontecia no porão. Fritzl foi preso e confessou os crimes. Em novembro, foi indiciado por assassinato, estupro e escravidão.

  • AFP

Tratado de Lisboa rejeitado
Em junho, a Irlanda rejeitou em plebiscito o Tratado de Lisboa, que mudava o funcionamento da União Européia. Entre as reformas propostas estava a criação de um presidente do bloco com mandato longo e a adoção de uma política externa mais robusta.

Haveria ainda a redistribuição dos pesos dos votos entre os países membros e um enxugamento da Comissão Européia, que teria menos comissários.

O documento precisava ser ratificado por todos os 27 países do bloco. A Irlanda foi o único país-membro que realizou referendo sobre o assunto. Nos demais países, o Tratado foi submetido à apreciação dos parlamentos nacionais.

Em dezembro, os líderes europeus aprovaram formalmente, com alterações mínimas, o plano francês com objetivo de realizar um segundo referendo ao Tratado de Lisboa na Irlanda antes de novembro de 2009.

  • EFE

União Européia contra a imigração
Na mesma época, os governos dos 27 países da União Européia aprovaram o Pacto Europeu para a Imigração, um conjunto de medidas, proposto pela França, com o objetivo de reforçar o controle da imigração ilegal no bloco. As novas leis, que entrarão em vigor dois anos após sua publicação oficial, estabelecem, entre outras coisas, o fim das regularizações em massa, a adoção de vôos de repatriação conjuntos e mecanismos para incentivar o retorno voluntário dos estrangeiros, o controle sobre casamentos de conveniência e contratações de imigrantes ilegais, um sistema de vistos com dados biométricos e um registro eletrônico comum de entradas e saídas em todo o bloco até 2012.

O ponto mais polêmico, no entanto, foi a adoção da detenção por até 18 meses antes da deportação para estrangeiros em condição irregular, inclusive para menores de idade. Diversas organizações de defesa dos direitos humanos e movimentos políticos de esquerda consideram a lei "desumana" e condenaram a detenção sem culpa formada e a expulsão de menores não-acompanhados. O pacote gerou protestos em toda a América do Sul e durante a 35ª Cúpula de Chefes de Estado e de Governo do Mercosul foi definida uma declaração conjunta de repúdio à lei, considerada "xenófoba" pelos integrantes do bloco.

Em resposta, os países da União Européia se comprometeram a prover direitos básicos aos detidos, incluindo acesso a assistência jurídica gratuita, e disseram que menores desacompanhados ou famílias com crianças serão detidas apenas em último caso.

  • Reuters

Prisão de Radovan Karadzic
Depois de 13 anos foragido, Radovan Karadzic, ex-líder político dos sérvios durante a guerra da Bósnia e um dos homens mais procurados do mundo, foi preso em julho acusado de genocídio e crimes contra a humanidade.

Karadzic havia sido condenado pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia em 1995 por ter autorizado seus soldados a abrirem fogo contra civis durante a guerra que deixou 200 mil mortos. Agora, pode ser condenado à prisão perpétua.

  • Reuters

Conflito entre Rússia e Geórgia
Em agosto, a Rússia reconheceu formalmente a independência das províncias separatistas de Ossétia do Sul e Abkhásia, que proclamaram independência da Geórgia no início dos anos 1990, depois do fim da União Soviética. Até então, a independência não havia sido reconhecida por nenhum país e a decisão russa provocou reação do governo georgiano e da comunidade internacional. Os Estados Unidos e a França qualificaram a decisão de "lamentável" e o Reino Unido rejeitou "categoricamente" a medida.

A Ossétia do Sul luta para ser independente desde 1991. A maioria de sua população é de etnia russa, tem outra cultura, fala outra língua e deseja se unir a seus semelhantes étnicos da Ossétia do Norte, uma república autônoma russa. A escalada das tensões entre a Geórgia e os separatistas evoluiu para violentos combates, quando as forças georgianas tentaram retomar o controle da região à força e atacaram por terra e ar a província. Em apoio à Ossétia do Sul, a Rússia enviou tanques e milhares de soldados para a região e bombardeou alvos na Geórgia. Depois, dominou Gori, uma cidade estratégica na principal estrada que liga o leste e o oeste da Geórgia, e expulsou as tropas inimigas.

Muitos civis precisaram abandonar suas casas na Ossétia do Sul, onde as cidades ficaram destruídas, e cruzar a fronteira rumo à Ossétia do Norte. O conflito durou cinco dias e terminou após acordo de cessar-fogo negociado pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy.

  • AFP

Rebelião no Congo
Na República Democrática do Congo, o conflito entre o Exército e os rebeldes do Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP), que provocou pânico na população por meses, começou em agosto, quando o acordo de paz firmado foi rompido. Na época, o líder rebelde Laurent Nkunda disse que lutava para proteger a minoria tútsi, acusou o Congo de ser conivente com hutus responsáveis pelo genocídio em Ruanda (em 1994) e ameaçou tomar o país caso o presidente Joseph Kabila não aceitasse negociar uma divisão de poder com o grupo.

A violência no país deixou cerca de 250 mil refugiados. Apesar da disparidade entre os contingentes militares da CNDP e das Forças Armadas, de 5.000 e 75 mil homens, respectivamente, as tropas de Nkunda ficaram conhecidas por cometer atrocidades contra a população.

A ONU também acusou o exército congolês de crimes contras os civis. Há ainda dois grupos envolvidos no conflito: as milícias governistas Mai-Mai e a FDLR (Forças Democráticas de Liberação de Ruanda), formadas pelos hutus ruandeses.

  • AP

Renúncia no Paquistão
Enquanto isso, no Paquistão, o presidente Pervez Musharraf renunciava ao cargo para evitar o processo de impeachment movido contra ele por partidos do governo de coalizão, que o acusavam de incompetência e de violar a Constituição.

Em 2007, Musharraf já havia sido forçado a deixar o controle das Forças Armadas, quando a oposição, depois de uma vitória esmagadora nas urnas, chegou ao governo de coalizão e enfraqueceu o governo de Musharraf. Ex-comandante do Exército e um aliado-chave dos Estados Unidos na chamada guerra contra o terror, o líder paquistanês assumiu o poder em 1999 por meio de um golpe de Estado sem violência. Ele foi sucedido pelo polêmico Asif Ali Zardari, viúvo de Benazir Bhutto, eleito em setembro pelo Parlamento.


Piratas na Somália
Mesmo com uma ampla força marítima internacional monitorando a costa da Somália, os piratas conseguiram seqüestrar dezenas de barcos estrangeiros ao longo do ano. O principal assalto aconteceu em novembro, quando capturaram o superpetroleiro saudita Sirius Star, no Oceano Índico, que transportava 25 pessoas e US$ 200 milhões em barris de petróleo.

A ONU calcula que os criminosos já conseguiram mais de US$ 30 milhões em resgates. As empresas que dependem do transporte por mar estão mudando suas rotas para evitar ataques e, conseqüentemente, os seqüestros devem ter impacto no comércio marítimo.

  • AP

Terrorismo em Mumbai
No dia 26 de novembro, a cidade indiana de Mumbai foi cenário de uma série de atentados coordenados. Homens fortemente armados atacaram um centro religioso judeu, dois hotéis de luxo (o Taj Mahal e o Oberoi), uma antiga estação de trens, um hospital, bares e restaurantes, além de terem atirado indiscriminadamente contra civis enquanto se deslocavam pela cidade. Funcionários e hóspedes foram feitos reféns por dias. Pelo menos 195 pessoas morreram, entre elas vários policiais e soldados indianos e ao menos 18 estrangeiros, e mais de 320 ficaram feridas.

Os reféns do hotel Taj Mahal foram os primeiros a serem libertados, depois de uma longa madrugada de terror. Três terroristas foram mortos no local. Dois dias depois, forças de segurança indianas tomaram o controle do hotel Oberoi e invadiram o centro judaico, outro ponto dominado pelo grupo, colocando fim às ações terroristas.

O "Mujahedines do Deccan" reivindicou a autoria dos ataques, mas Nova Délhi e Washington atribuem os ataques ao grupo islamita ilegal Lashkar-e-Taiba, cuja base fica no Paquistão.

O Paquistão negou envolvimento e criticou as autoridades indianas por "constantemente acusarem o Paquistão de estar por trás" de ataques do gênero. No dia 8 de dezembro, um dos supostos mentores do ataque, Zaki-ur-Rehman Lakhvi, foi preso pelas forças de segurança paquistanesas.

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