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A falta de planejamento e de investimento faz com que o transporte público seja um dos mais graves problemas de Salvador, a terceira maior cidade do país. Uma das poucas metrópoles brasileiras ainda sem metrô, a capital baiana conta basicamente com os ônibus para transportar 40 milhões de passageiros todos os meses. Com isso, apesar de apenas 20% da população (2,9 milhões, segundo o IBGE) possuir carro, os engarrafamentos são constantes na capital, até mesmo no trajeto para as praias nos finais de semana e feriados.

Quase dez anos depois do início das obras do metrô, em janeiro de 2000, o projeto ainda não foi concluído. Pior: o trajeto da primeira fase, de 13 km, foi reduzido para menos da metade (6 km), embora os custos da obra tenham aumentado: passaram de cerca de R$ 543,3 milhões para R$ 1 bilhão. A justificativa da prefeitura e do consórcio responsável pelas obras é que houve alteração no projeto e aumento de custos devido ao cronograma não cumprido.

Em junho do ano passado, no auge da campanha política, o prefeito João Henrique Carneiro (PMDB) insinuou que o governador Jaques Wagner (PT) boicotou a chegada dos trens - as composições poderiam servir de propaganda para a candidatura do peemedebista, que disputava a reeleição.

Construídos por uma empresa sul-coreana, os vagões chegaram em novembro do ano passado e, até hoje, estão estocados em um galpão da prefeitura. "Não dá para aceitar que uma obra de apenas seis quilômetros, e de superfície, demore tanto tempo para acabar", afirmou o engenheiro José Rômulo Santana, 43. Além da falta de planejamento, as greves e denúncias de superfaturamento das obras também contribuíram para o atraso das obras.

"Se o metrô estivesse em funcionamento, certamente, o transporte público de Salvador estaria muito melhor", disse a empregada doméstica Antonia Oliveira, 42, que mora no bairro periférico de Castelo Branco. Para chegar à casa onde trabalha, no Corredor da Vitória, região central, a empregada acorda de madrugada. "Eu me levanto às 4h30, tomo o café, dou um beijo em meu filho, e vou para o ponto de ônibus. Tenho de pegar o transporte até 5h30 para dar tempo de chegar à casa de minha patroa até 7h30", afirmou.

Quem depende de ônibus para circular em Salvador precisa ter paciência: as empresas não cumprem os horários estipulados pela prefeitura e, por causa do aumento da criminalidade, os motoristas se recusam a trafegar por algumas ruas. "Tem ruas que não vou mesmo. Minha profissão já é estressante por natureza e não vou colocar mais a minha vida em risco. Fui assaltado oito vezes em três anos e, todos os dias que saio para trabalhar, acho que não vou voltar vivo para casa", disse o motorista José Conceição de Moura, 32. "É muito raro as empresas cumprirem os horários, o sistema de transporte público em Salvador é realmente muito ruim", disse a estudante Milena Camargo, 22.

Ruas e avenidas estranguladas
O Setps (Sindicato das Empresas de Transporte Público de Salvador) informou que a frota que circula na capital baiana, de 2.500 veículos, é suficiente para atender toda a demanda. O sindicato culpa os 26% de passageiros que têm o benefício da gratuidade, como deficientes físicos, carteiros, agentes públicos, entre outros, pela possível ineficiência no serviço. "Este índice é muito alto e compromete o sistema. Com um índice menor, poderíamos comprar mais ônibus e, principalmente, reduzir o valor da tarifa (em Salvador, a passagem convencional custa R$ 2,20)", disse o superintendente do Setps, Horácio Brasil. "Não dá para, a cada quatro ônibus, um rodar inteiramente de graça", acrescentou.

O superintendente, que já foi secretário dos Transportes em Salvador, apontou, ainda, outro problema no transporte público: a falta de pistas e avenidas para os ônibus circularem. "Há, em Salvador, apenas quatro grandes corredores. O resto são ruas e avenidas estranguladas, o tráfego não flui. Em cinco anos, no máximo, teremos os mesmos problemas de São Paulo se obras de infraestrutura não forem executadas."

Para o dentista Ernesto Guimarães Gentil, 35, a cidade de Salvador já está parecida com São Paulo. "O principal motivo que me levou a sair de São Paulo e retornar para Salvador foi o trânsito. Lá (São Paulo), tinha de acordar muito cedo para trabalhar, não tinha mais qualidade de vida. Agora, dois anos depois de voltar à minha terra, já percebo alguma semelhança com o trânsito de Salvador e São Paulo", disse.

Dados do Detran mostram ainda que a frota da capital baiana aumentou 67% na última década. Em 1999, 393.127 veículos circulavam pelas ruas da capital baiana e, dez anos depois, este número tinha subido para 656.611.

"A equação não fecha. A topografia da cidade dificulta a implantação de ciclovias, não há obras de infraestrutura, a prefeitura autoriza a construção de shoppings e outros grandes empreendimentos imobiliários em áreas de grande fluxo, as concessionárias oferecem facilidades para a aquisição de um veículo, o metrô ainda é um sonho. Então, tem de haver engarrafamento mesmo, não há alternativa", constata a engenheira Lycy Almeida, 34.

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