UOL Notícias
 

27/08/2009 - 19h00

Boi é visto como máquina nos rodeios e "aditivos" aos animais causam polêmica

Rodrigo Bertolotto
Enviado especial do UOL Notícias
Em Barretos (SP)
As carretas chegam e desembarcam as "máquinas". Socos e choques ajudam a manobrá-las para os boxes... quer dizer: os currais do lado de fora da arena. Isso acontece quatro horas antes de eles começarem a apresentação de oito segundos de salto e rodopios tentando ejetar seu piloto.

  • Flávio Florido/UOL

    Bois são transportados em carretas, após serem examinados por veterinários comprovando aptidão

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    Os animais são tocados para dentro e para fora
    das carretas com ajuda de bastões que dão choque

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    Os bois ficam em currais até irem para os bretes, que são os corredores estreitos em direção à porteira de partida para iniciar a competição

Antes da performance, é amarrado um sedém em sua virilha. E é essa tira de lã de cordeiro que gera a maior polêmica do rodeio. Os organizadores falam que o utensílio dá apenas cócegas no bovino para que ele salte em círculos. Para os defensores dos animais, o sedém machuca e é o "aditivo" para tantos saltos na arena. Como boi não dá depoimento, a indústria do peão de boiadeiro segue movimentando milhões (o cálculo oficial fica em R$ 200 milhões).

Um dos que mais faturam nesse nicho são os tropeiros, denominação para os donos das manadas. Paulo Emílio é um deles. Tem 200 touros e quatro carretas para transportá-los. Em sua fazenda, os bovinos contam com exercícios de hidroginástica em um açude que devem atravessar para perder barriga, além de uma pista de areia para fortalecerem as patas.

Ele projetou sua empresa junto com a fama de seu touro Bandido, que até virou ator-personagem na novela "América", da TV Globo. Morto no início do ano, Bandido foi enterrado, com direito a cerimônia, na área do parque onde se ergueu uma estátua dele. O mítico boi, que um único homem conseguiu montar, deixou quatro clones, 70 filhos e 3.000 doses de sêmem como herdeiros.

Certa feita, ele derrubou o rival e do chão o lançou seis metros para cima, deixando o peão no estaleiro um ano. Muitos boiadeiros passaram a recusar a montaria em Bandido quando era sorteado como rival, aceitando a derrota por W.O. simplesmente. Estes são alguns feitos contados na biografia lançada na abertura da festa de Barretos: "Bandido, Touro com Alma".

"Como ele não existiu nenhum. Espero que 90% dos 70 filhos dele puxem o pai. Em dois anos, vários estarão competindo", conta Paulo Emílio, cuja companhia monta rodeios completos, com som, luz, telões, bretes e animais, além de comandar a festa de São José do Rio Preto.

Ele "faz bois", misturando a raça Nelore, mais agressiva, com raças europeias, que são mais troncudas. O resultado é o nervosismo indiano com a musculatura europeia. Ele diz que não há doping em seu time, que ele chama de "Real Madrid da boiada".

"Não se pode dar bomba a um touro. Você pode estar estragando uma preparação que define o campeão pela genética, alimentação, treinamento e exames periódicos", argumenta.

O resultado é o touro começar a dar lucros para seu proprietário. O aluguel do touro é de R$ 700 por noite, com o adicional de R$ 1.000 se for o melhor saltador, derrubando o peão ou não. O importante é pular alto, girar rápido e variar os movimentos.

Um boi promissor pode custar R$ 40 mil, como o matogrossense Agressivo, um dos 13 exemplares de Emílio que foram selecionados para a Copa do Mundo de Rodeio, o torneio que começa nesta sexta-feira (28) em Barretos, com participação de vaqueiros de cinco países.

O nome dos touros é um capítulo a parte. "Tem que soar bem. Se for imponente, melhor", diz Paulo Emílio. Assim surgem denominações como Tsunami, UTI, Bombardeio, Mundo Acabado, Biônico, Maldoso, Mutante ou Destroyer. Este último parou de competir por sentir dor nas costas, afinal, ficava quase na vertical em seus pulos - hoje serve de banco de sêmem.

A virilha do boi e a legislação
Desde 2002 está regulamentada no Brasil a atividade do rodeio, a partir de um projeto de lei do ex-deputado Jair Meneguelli (PT-SP), aprovado no Congresso e sancionado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso. Mesmo assim, alguns municípios, com menos tradição no evento, como Itu e São José dos Campos, já proibiram rodeios em suas jurisdições.

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    Os animais são tocados para dentro e para fora das carretas com ajuda de bastões que dão choque

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    Boi que salta bem é classificado para melhores competições; alimentação conta muito

O imbróglio jurídico foi retomado quando em 2005 foi publicado um código estadual, de autoria do deputado federal Ricardo Trípoli (PSDB-SP), que determinava que "são vedadas provas de rodeio e espetáculos similares que envolvam o uso de instrumentos que visem induzir o animal à realização de atividade que não se produziria naturalmente sem o emprego de artifícios".

O uso do sedém foi novamente questionado, com direito a pesquisas científicas de ambos os lados. Um estudo de cinco pesquisadores das áreas de veterinária e zoologia da USP (Universidade de São Paulo), Unesp (Universidade Estadual de São Paulo) e UEL (Universidade Estadual de Londrina-PR) apontou por meio dos sinais fisiológicos e do comportamento dos animais em rodeios, que eles sentem dor ao usar a tira amarrada na virilha, mesmo quando tais sensações não vêm acompanhadas por ferimentos visíveis.

A principal evidência é a constatação fotográfica da dilatação das pupilas dos animais de rodeios, mesmo estando eles em um ambiente muito iluminado - o que levaria à constrição dessa parte dos olhos. Outro indício é a forma de o animal corcovear ao ter o instrumento amarrado ao seu corpo. E a tentativa de o animal se livrar do instrumento é que tornaria o show mais interessante.

Capitaneados por Irvênia Luiza de Santis Prada, titular emérita de neuroanatomia animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnica da USP, os pesquisadores apontam a existência, na virilha dos animais, de estruturas nervosas específicas para captação de estímulos que provocam a dor (os algirreceptores). Como a pele nessa área é mais fina, a percepção seria ainda mais intensa. Além disso, assim como no ser humano, a virilha dos bichos é particularmente sensível por se relacionar à presença ou vizinhança dos órgãos genitais, fundamentais para a sobrevivência.

Já outro trabalho universitário vai na direção contrária. As experiências de cinco pesquisadores da Unesp de Jaboticabal (SP), sob coordenação do professor de patologia veterinária Orivaldo Tenório Vasconcelos, defendem que o sedém é inofensivo.

Feito sob encomenda e custeado pelo clube "Os Independentes", organizador da Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, o estudo, que custou R$ 75 mil, chegou à conclusão de que o instrumento não afeta a produção de espermatozóides.

E, para sustentar que os animais não sentem dor, descreve que, mesmo amarrados pelo sedém, os bois comeram normalmente e tentaram copular, o que não deveria ocorrer. A intensidade da amarração é variável. Preso com muita força, pode até imobilizar o bovino. Frouxo, ele não causa mal. Sócio honorário do clube "Os Independentes", Vasconcelos defende uma causa diferente para os pulos e rodopios dos bois: cócegas. O boi pularia por índole daquele animal (o cálculo é que de 200 bois apenas um é saltador).

Já as disputas de laço, entretanto, foram retiradas em 2004 do programa do rodeio por iniciativa dos organizadores de Barretos, depois de anos de questionamentos de entidades como o Ministério Público e o FNPDA (Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal). Nesta prova, um peão deve laçar um bezerro pelo pescoço, manter a corda esticada, pular do cavalo e amarrar três patas de forma que ele fique imobilizado. Depois, o laçador deve montar sobre ele e levantar as mãos - momento em que o seu tempo é marcado. Vários animais saiam feridos e mortos dessa prova.

Dos bastões com choque elétrico para tocar os touros para os currais, o uso de esporas também causa polêmica. Apesar de só ser permitida a espora sem ponta, o instrumento causa evidentemente um desconforto no animal quando o peão as utiliza seja no brete ou na arena para provocar o adversário.

Ele questiona a legalização do uso de esporas, mesmo sem pontas, e das provas de laço, para as quais não tem, ainda, uma defesa.

O confronto de posições incluiu até um luta judicial dentre a Festa de Barretos e a cantora Rita Lee, que empunha o lema "Eu Odeio Rodeio", com pedido de indenização por danos morais por parte dos organizadores interioranos.

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