Brasil fecha acordo de US$ 30 bi com FMI para conter crise
22h02 - 07/08/2002
Por Walter Brandimarte e Daniela Machado
SÃO PAULO (Reuters) - O Brasil fechou nesta quarta-feira um acordo de 30 bilhões de dólares com o FMI até 2003, o terceiro da gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, para tentar conter a crise financeira que se intensificou às vésperas das eleições presidenciais de outubro.
O programa prevê também redução de 10 bilhões de dólares no piso das reservas do país, o que dará ao governo até 40 bilhões de dólares na queda de braço com os mercados.
Dos 30 bilhões de dólares em dinheiro novo, 6 bilhões de dólares chegam ainda neste ano --valor considerado suficiente por analistas para acalmar a turbulência dos mercados financeiros, pelo menos no curto prazo. O restante dos recursos está previsto para 2003, dependendo da aprovação do futuro presidente da República.
O acordo, anunciado quase simultaneamente em Brasília e Washington no início da noite, era amplamente esperado, mas os valores envolvidos chegaram a surpreender os mercados, que previam um pacote mais modesto.
"O acordo superou as expectativas. O buraco que se imagina em transações correntes no ano que vem é de cerca de 20 bilhões de dólares, que você já garantiu (com o acordo)", analisou William Eid Júnior, coordenador do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas. "Não que a gente precisa recorrer (a esses recursos), mas já dá uma garantia."
Os principais candidatos à Presidência preferiram analisar melhor os termos acertados com o Fundo antes de se manifestar. A exceção foi o governista José Serra, que desde o início deu apoio às negociações.
A principal exigência do Fundo é de que o país mantenha durante o próximo ano o atual nível de superávit primário, de 3,75 por cento do Produto Interno Bruto, com revisões trimestrais. Isso já estava previsto na Lei de Diretrizes Orçamentárias para o próximo ano. Esse mesmo percentual deve ser perseguido nas leis orçamentárias brasileiras em 2004 e 2005, segundo o novo acordo.
O programa deverá ser aprovado formalmente pela diretoria-executiva do FMI no início de setembro. A antecipação dos termos do pacote, no entanto, é um sinal claro de que a cúpula do Fundo aprova as negociações.
"Com a redução das vulnerabilidades e das incertezas, um novo programa apoiado pelo FMI traz uma ponte para o novo governo que começa em 2003", afirmou em um comunicado o diretor-geral do Fundo, Horst Koehler.
O presidente Fernando Henrique Cardoso, por sua vez, classificou a ajuda financeira como "oxigênio" para o país e afirmou que o Fundo precisa ampliar sua participação em momentos de crise.
ESPAÇO PARA RESPIRAR
A expectativa é de que o acordo traga alívio após semanas de intenso nervosismo.
A maior folga para atuações no câmbio --com a redução do piso de reservas de 15 bilhões para 5 bilhões de dólares-- é um dos itens do programa que mais causou surpresa aos analistas. A mudança pode ser determinante para abrandar a disparada do dólar frente ao real.
O risco-país ultrapassou a barreira de 2.000 pontos nos últimos dias e só veio abaixo disto nesta quarta-feira, com apostas mais firmes justamente sobre o acordo com o FMI. A bolsa paulista ainda acumula perdas de 27 por cento em 2002.
O dólar está há uma semana acima dos 3 reais. No auge das tensões, chegou a ser vendido a 3,601 reais. Nesta quarta-feira, a moeda norte-americana fechou em queda de quase 3 por cento, a 3,020 reais, também antecipando a notícia do FMI.
"Quem comprou dólares na semana passada vai chorar um pouco. É muito complicado agora alguém bancar uma briga contra o BC no câmbio", avaliou Eid Júnior, da FGV.
A ansiedade pela corrida eleitoral e um corte drástico nas linhas externas de financiamento a empresas brasileiras estiveram entre as principais justificativas para as recentes turbulências nos mercados.
Apesar da avaliação de que a ajuda do Fundo abre espaço para os investidores tomem fôlego, alguns profissionais advertem que o quadro político ainda pode permanecer no foco de atenção.
"A questão para mim como estrategista é quando e a que nível os investidores irão realizar lucros, assim que voltarem o foco novamente para pesquisas", comentou Geoffrey Dennis, estrategista-chefe para América Latina do Salomon Smith Barney.
"Isso não é motivo para se tornar extremamente otimista sobre o Brasil. É um motivo para esperar que o mercado suba um pouco mais e então se torne cauteloso, enquanto você espera para ver o que as pesquisas vão mostrar."
As últimas pesquisas eleitorais mostraram que candidatos de oposição lideram a corrida presidencial, o que deixa os investidores temerosos quanto ao futuro das políticas econômicas do país.
(Colabou Isabel Versiani)