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Varig e TAM planejam fusão para enfrentar crise
18h21 - 06/02/2003


Por Axel Bugge e Denise Luna

BRASÍLIA/RIO DE JANEIRO (Reuters) - As duas maiores empresas aéreas brasileiras, Varig e TAM, pretendem unir operações e criar uma nova companhia nos próximos seis meses, num plano para garantir a sobrevivência em meio à crise do setor. O acordo tem a bênção do governo e abre caminho para uma futura injeção de recursos na nova empresa.

"Essa união poderá ser pela formação de uma holding ou fusão, mas o importante é que vai melhorar nossos resultados e atrair investidores", disse à Reuters o presidente da Varig, Manuel Guedes, em entrevista por telefone concedida após uma coletiva em Brasília.

A nova empresa resultante da união, ainda sem nome definido, teria hoje 218 aviões (116 da Varig e 102 da TAM), 26 mil funcionários e faturamento de 4 bilhões de dólares --porte comparável ao da espanhola Ibéria ou da italiana Alitalia. Transportaria também 29 milhões de passageiros por ano, marca próxima à da Air Canada.

Na avaliação do presidente da TAM, Daniel Mandelli, que não quis comentar se haverá demissões ou mudança no preço das passagens, o principal objetivo do acordo é criar uma empresa com maior racionalidade econômica, para que a operação seja feita a custos menores.

O protocolo de intenções entre as duas companhias foi assinado nesta quinta-fiera no Ministério da Defesa, um dos principais orquestradores do acordo. Participaram da cerimônia os ministros José Viegas (Defesa), Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento), além dos presidentes da Varig e da TAM.

Viegas garantiu que o governo fará um esforço paralelo para mudar a legislação do setor aéreo brasileiro --tema debatido sem sucesso durante anos pelo governo de Fernando Henrique Cardoso.

INJEÇÃO DE CAPITAL

O ministro da Defesa também admitiu ser possível o aporte de recursos por parte do governo para a recuperação do setor de aviação civil, "desde que estejam asseguradas as condições para um funcionamento estável e sustentável".

Segundo o presidente da Varig, o BNDES é um investidor que "vai receber o novo plano de reestruturação da empresa". Ele sustentou que a Varig agora "é um novo pacote" para o investidor, com boas perspectivas no longo prazo. A Varig está em plena negociação com credores, que chegaram a arrestar um dos aviões da companhia em Paris, no fim de janeiro.

Os estudos para a integração das duas companhias estão sendo realizados pelo Banco Fator, que, segundo fontes, tinha contrato com a TAM para estruturar um captação financeira para a companhia.

Segundo uma fonte próxima ao acordo, o banco deve contratar até a próxima semana os advogados e uma auditoria contábil que ficarão responsáveis pelo plano de negócios e pelas diligências que serão feitas nas duas empresas.

CONCENTRAÇÃO DE MERCADO

Pelos dados do Departamento de Aviação Civil (DAC), juntas, as duas companhias fecharam 2002 com 74 por cento do mercado de aviação civil --39,25 por cento da Varig e 34,93 por cento da TAM-- o que configura concentração de mercado. A aprovação da união, no entanto, não corre risco na opinião do consultor independente Alexandre Torrano.

"O acordo foi orquestrado pelo governo, isso não vai ser problema, só vão ter que alterar o marco regulatório", disse, lembrando que a aproximação entre Varig e TAM foi liderada pelo ministro da Casa Civil, José Dirceu, e costurada pelo ministro da Defesa, José Viegas.

Operação parecida ocorreu em 2000 entre as duas maiores cervejarias do país, Brahma e Antarctica, que também uniram operações com aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

ELEFANTE BRANCO

Até setembro, a TAM acumulava perdas de 600 milhões de reais e dívidas de 500 milhões de dólares pela compra de aviões. A Varig teve prejuízo de 1 bilhão de reais até junho e acumulava dívida de 764 milhões de dólares até setembro.

As empresas não têm previsão de quando divulgarão os balanços fechados de 2002, mas, segundo o mercado, os balanços devem revelar a urgência de uma solução para a crise do setor. O próximo passo, segundo analistas, será a injeção de recursos por parte do governo.

"Não vai adiantar apenas juntar as duas, estaria criando um elefante branco. Agora ficou claro que as empresas vão ter apoio governamental", apostou o analista da corretora Pentágono, Marcelo Ribeiro.

Para o consultor independente Alexandre Torrano, crise mesmo agora vai ter a empresa caçula do setor, a Gol, que iniciava planos de expansão com a entrada de um novo sócio, a seguradora americana AIG.

"Para as duas (Varig e TAM) é positivo porque nascem com mais de 60 por cento do mercado, mas quem perde é a Gol, que não tem plano de milhagem nem atinge um mercado tão grande", avaliou.

As ações preferenciais da Varig, que já tinham subido 20 por cento no pregão de quarta-feira, fecharam em alta de 7,27 por cento nesta quinta-feira, cotadas a 1,18 real. As ações da TAM não registraram negócios.



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