Iminência da guerra muda ritmo de Bagdá e desespera iraquianos
12h42 - 17/03/2003
BAGDÁ, Iraque (Reuters) - Até há pouco, muitos iraquianos pareciam querer negar a possibilidade de haver uma guerra no país. Agora não mais. Bagdá, capital do Iraque, vive em um ritmo diferente nas horas que antecedem um aparentemente inevitável ataque dos Estados Unidos.
Depois de o presidente norte-americano, George W. Bush, ter fixado a segunda-feira como último dia para a Organização das Nações Unidas (ONU) desarmar o Iraque diplomaticamente, mesmo os que antes duvidavam, agora se desesperam.
Tomando consciência de que a guerra está muito próxima, os iraquianos correm contra o relógio a fim de adquirir os suprimentos necessários para enfrentar os dias negros que se anunciam.
Moradores da capital mobilizam-se para aumentar seus estoques de produtos essenciais. Longas filas de carros, permanentemente formadas em postos de gasolina, começam a atrapalhar o trânsito na cidade.
E, como se as condições climáticas refletissem o estado de ânimo de Bagdá, a cidade vive esses últimos dias coberta por nuvens cinzas.
"Parece que estamos vivendo a poucas horas da guerra. O clima de guerra está em todos os lugares. Tudo é muito deprimente e triste. Não sabemos o que fazer", declarou Souad Saleh, 42, dona-de-casa.
Mesquitas do país ingressaram na luta contra os EUA e a Grã-Bretanha. Os clérigos muçulmanos disseram que elas seriam centros "de enfrentamento aos malignos inimigos e que receberiam voluntários para a Jihad (guerra santa)".
Durante os últimos 25 anos de conflitos, os iraquianos aprenderam, de uma forma ou de outra, a enfrentar muitas dificuldades. Mas a iminência da guerra agora aparece cravada no rosto das pessoas.
Até recentemente, os jornalistas aproximavam-se dos iraquianos garantindo-lhes que não haveria guerra. Mas agora que os bombardeios e a invasão parecem próximas os moradores do país buscam garantias de que áreas civis não serão bombardeadas e de que a guerra será curta.
"Essa é uma vida miserável. Passamos a vida toda fazendo compras nos preparando para guerras e nos escondendo de bombas", disse o iraquiano Ahmed.
A maior parte das pessoas parece resignada com o que dizem ser a vontade de Alá. "Está tudo nas mãos de Deus. O que foi escrito por Deus acontecerá. O que podemos fazer?", perguntou Iman Kassem, 46.
PRIMEIRA NECESSIDADE
Enquanto joalheiros escondem em casa seus produtos com medo de saques durante os conflitos, mulheres vendem suas jóias para juntar dinheiro a ser usado em uma eventual fuga.
Paradoxalmente, a atividade econômica no país intensificou-se devido à grande procura por artigos de primeira necessidade.
Vendem-se muitas velas, tochas e baterias, lâmpadas de querosene e geradores de eletricidade movidos a diesel.
A expectativa é de que não haja energia elétrica na capital e de que falte água.
Algumas pessoas já compraram grandes reservatórios de água.
Há iraquianos que estão adquirindo armas para se proteger em meio a um eventual clima de anarquia, que pode tomar conta do país depois da queda do governo do presidente Saddam Hussein.
E não são apenas os adultos que sabem da guerra iminente. As crianças não a ignoram.
"Antes de ir para a escola, meu irmão de 10 anos me perguntou se Bush iria atacar", contou Ibrahim Khalaf, 42, gerente de uma loja em Bagdá.
"A guerra se tornou uma obsessão para nossas crianças."