Fórmula 1 acelera mercado do sexo em São Paulo
19h05 - 04/04/2003
Por Cesar Bianconi e Eduardo Acquarone
SÃO PAULO (Reuters) - Quando carros e pilotos desembarcam em São Paulo, a festa ultrapassa os limites do autódromo de Interlagos. O aumento no mercado de prostituição de alto luxo explicita cada vez mais a relação entre a Fórmula 1 e o sexo na etapa do Brasil.
É difícil estimar quanto esse negócio movimenta, mas a frequência de lugares como o Bahamas e seu principal concorrente, o Café Photo, aumenta de forma significativa durante a semana do Grande Prêmio do Brasil.
No primeiro, que fica no bairro de Moema, zona Sul, a média de visitantes quase dobra na semana da prova, para até 450 homens diariamente. O número de meninas aumenta de forma mais modesta, de 150 para cerca de 180.
O Ministério do Turismo acredita que qualquer tipo de exploração sexual tem que ser combatida, e defende a idéia de que o país não quer lucrar com o turismo sexual.
"Nossa pauta é combater o turismo sexual. Se o turista vem para a corrida e resolve passear com uma mulher de programa, não sei dizer de que forma isso seria combatido, mas o ministério não quer isso de maneira nenhuma", disse Simone Caldas, assessora de imprensa do Ministério do Turismo.
Aberto há 30 anos por Oscar Maroni Filho, o Bahamas espalhou 60 outdoors relacionando sexo e Fórmula 1, com custo de cerca de 50 mil reais. O objetivo é chamar a atenção das 2.000 pessoas ligadas diretamente à prova, fora os turistas que estão em São Paulo para o evento. A boate também levará uma "pick-up truck" ao portão 7 do Autódromo de Interlagos, com garotas distribuindo panfletos.
O Photo, que segundo apuração da Reuters já recebeu a visita de um piloto campeão mundial há dois anos, tem em sua entrada uma alusão à Fórmula 1: uma pintura do escudo da Ferrari, quadro colocado esta semana no local e que está à venda. A agência de notícias tentou entrar em contato com representantes do Photo, mas não obteve retorno dos telefonemas.
FIM DE FESTA
Os dias que antecedem a prova --sexta-feira e sábado-- são os mais disputados. "No domingo não tem quase mais ninguém, vai todo mundo embora depois da corrida", disse Maroni Filho.
A confusão idiomática é comum e algumas garotas admitem que não falar inglês pode causar problemas. "O gringo quer conversar um pouco antes de sair com você. Então prejudica (não falar inglês)", disse uma das moças que trabalha no Photo.
As casas operam com sistemas diferentes. O Bahamas oferece "hospedagem", enquanto no Photo não há essa opção e os visitantes têm que sair da boate para o "programa".
Uma noite em qualquer um dos clubes noturnos não sai normalmente por menos de 500 a 600 reais. O valor inclui entrada, alguns drinques e sexo, o último pago diretamente às garotas.
O preço, no entanto, pode ser negociado, e vai caindo com o passar das horas. No caso de pagamento em moeda estrangeira, pode chegar aos 300 dólares ou 250 euros. Porém, muitas meninas reclamam dos estrangeiros: "Eles muitas vezes não estão dispostos a pagar, por isso acabamos nos voltando aos brasileiros mesmo", disse uma delas.
O horário mais agitado é por volta da 1h da manhã, quando inglês, espanhol e italiano se misturam ao português. Pouco depois, os representantes da Fórmula 1 começam a ir embora, até às 2h, porque precisam acordar cedo para trabalhar. As mais procuradas são as loiras e as mulatas, um sucesso entre os alemães: "Pedem para elas sambarem", disse Maroni Filho.
Além das casas noturnas, o próprio autódromo de Interlagos se transforma em point frequentado por algumas garotas de programa atrás de clientes, muitas delas circulando pelas áreas reservadas --caso dos boxes-- portando credenciais.
TRABALHO EM EQUIPE
Os outdoors do Bahamas despertaram o interesse da imprensa e o dono da boate decidiu até promover uma mini entrevista coletiva de imprensa para falar sobre o tema e fazer um "tour" pela casa com jornalistas na tarde de quinta-feira.
Para evitar confusão no caso da aparição de pilotos, o Bahamas preparou uma entrada especial para os principais protagonistas da Fórmula 1, uma área reservada de onde é possível escolher a garota a distância, que é notificada do interesse pelo garçom.
"Não posso citar nomes, naturalmente, mas pilotos vêm aqui, inclusive dois de escuderias mais fortes", disse o dono do Bahamas.
Os mecânicos, engenheiros e outros integrantes das equipes ficam na área comum. "Assim como na pista, os mecânicos trabalham em equipe aqui, subindo em grupos para as suítes com as meninas", disse o executivo.
Toda a atenção para a indústria automobilística parece funcionar. Um dos quadros que recepciona os convidados no Bahamas é um bilhete escrito por um alto executivo de uma das maiores empresas do setor: "Karl Marx tentou fazer o paraíso na Terra, você conseguiu, Oscar", em um agradecimento ao dono da boate.