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Dano à cultura iraquiana é irreparável, dizem especialistas
17h33 - 14/04/2003


Por Niala Boodhoo

WASHINGTON (Reuters) - Especialistas em antigüidades, consternados com o fato de os Estados Unidos não terem cumprido a promessa de proteger as relíquias históricas de Bagdá durante a guerra, disseram na segunda-feira que o tesouro saqueado do principal museu do Iraque talvez nunca seja recuperado.

Organizações de arqueólogos dos EUA e a Unesco (órgão da ONU para a cultura) disseram que entregaram ao governo norte-americano, meses antes da guerra, informações sobre o patrimônio histórico e os sítios arqueológicos do Iraque.

"Alertamos a eles sobre a possibilidade de saques desde o começo", disse o professor McGuire Gibson, da Universidade de Chicago, que participou do grupo que esteve várias vezes no Pentágono apresentando detalhes sobre os tesouros iraquianos, inclusive o Museu Nacional, de Bagdá.

Agora, segundo ele, a perda é incomensurável. "O museu de Bagdá é equivalente ao Museu do Cairo. Seria como ter soldados norte-americanos a 200 metros do Museu do Cairo vendo as pessoas levando embora os tesouros da tumba de Tutancâmon ou embalando múmias", afirmou.

O museu de Bagdá tinha peças importantíssimas da antiga Mesopotâmia, região considerada o berço da civilização -- lá surgiram as primeiras cidades, o primeiro alfabeto e o primeiro código jurídico. O acervo do museu foi destruído ou saqueado nos dias que se seguiram ao colapso do regime de Saddam Hussein, na semana passada.

O vice-diretor da Unesco Mounir Bouchenaki disse na segunda-feira que importantes arqueólogos vão se reunir em Paris para discutir maneiras de preservar o patrimônio cultural iraquiano e preparar a viagem de uma missão de especialistas ao país.

Para Gibson, a destruição do museu é tão grave quanto a da famosa biblioteca de Alexandria, ocorrida há mais de 2.000 anos.

O secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, já se disse preocupado com o saque do museu e prometeu medidas para sua preservação. "Os EUA compreendem suas obrigações e vão assumir um papel importante no que diz respeito às antigüidades em geral, mas a esse museu em particular."

Existe uma convenção internacional, firmada em Haia, em 1954, que regula a preservação do patrimônio cultural durante conflitos. Mas Estados Unidos e Grã-Bretanha nunca ratificaram esse tratado -- o Iraque o fez.

Entre os mais de 170 mil objetos do museu há peças como um vaso de alabastro de Uruk que data de 3.500 a.C., segundo Gibson. O local também abrigava tabletes com escrita cuneiforme, nunca decifrados.

"Sabemos que a maioria das peças foi embora para sempre", disse Patty Gerstenblith, do Instituto Arqueológico da América. Segundo ela, as estátuas grandes demais para serem levadas foram degoladas pelos saqueadores.

Alguns itens roubados já estariam sendo vendidos no mercado de antigüidades de Paris, segundo Gibson. As peças mais valiosas devem ser vendidas por milhões de dólares a colecionadores, mas há outras peças, como as de argila, que atingem valores muito mais baixos.

"Um tipo médio de cerâmica poderia muito bem ser vendido pelo [site de leilões] eBay por algo como 20 ou 50 dólares", disse Gerstenblith, para quem o contrabando de antigüidades iraquianas já acontecia nos anos do embargo imposto pela ONU.

Os especialistas estão tentando montar uma página na Internet com um catálogo de tudo o que havia no museu de Bagdá, além de pedir aos EUA que reforcem a vigilância nos locais mais valiosos.

Segundo Gerstenblith, que leciona na Universidade DePaul, o prejuízo não se limita ao valor cultural dos objetos, pois eles também têm importância religiosa e científica. "Permitimos a destruição não só de nosso próprio patrimônio, mas também do patrimônio das futuras gerações."



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