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Visão de mundo diferente separa soldados dos EUA e iraquianos
10h38 - 08/05/2003


Por Saul Hudson

BAGDÁ (Reuters) - Mulheres da cidade iraquiana de Falluja cobrem-se com xales negros e sentam-se na parte de trás de suas casas escondendo-se do que dizem ser soldados dos Estados Unidos "quase nus" espiando com óculos de visão raio-X.

Na cidade de Kut, no sul do país, moradores jogam pedras contra as tropas dos EUA por acreditarem que roubaram remédios, caixas de bebida e queimaram a bandeira nacional do Iraque.

Em todo o país, faixas dizem que os invasores só querem o petróleo do Iraque, apesar das garantias dos EUA de que a "Operação Iraque Livre" foi realizada para livrar o povo de um ditador cruel.

No Iraque pós-guerra, rumores falsos e percepções de mundo diferentes aprofundam a falta de comunicação entre americanos e iraquianos -- já divididos por barreiras culturais, de idioma e religiosas.

O atual administrador civil dos EUA no Iraque, Jay Garner, reconheceu nesta semana que seu escritório fez um "trabalho extremamente pobre" de comunicação com o povo iraquiano, apesar do sucesso da restabelecimento do fornecimento de energia e da distribuição de alimentos e água.

Quase um mês após a retirada de Saddam por tropas norte-americanas, a administração não conseguiu estabelecer uma canal de televisão acessível para transmitir suas mensagens.

VISÕES OPOSTAS

Em Bagdá -- onde balas e armas são vendidas ao lado de tomates e cebolas -- ladrões roubaram antenas de recepção de sinais de satélite nas ruas e seus disparos acordam os moradores todas as noites. Os militares dos EUA dizem que tornaram as ruas seguras.

"As forças da coalizão forneceram o mesmo ambiente seguro que se espera em uma grande cidade -- Londres, Nova York, ou outras," disse nesta semana o coronel Alan King, que foi o primeiro administrador dos EUA em Bagdá.

Mas Suad Zeki afirma que a capital é tão perigosa que ela não sai há um mês e se recusa e enviar seus dois filhos de volta à escola, onde os professores pediram para os pais vigiarem as aulas com armas.

"Eles podem perder o ano escolar, mas pelo menos sei que não perderei meus filhos," disse Zeki. Ela estudou durante uma ano na Inglaterra e diz não acreditar que os norte-americanos -- que patrulham as ruas com coletes à prova de bala e capacetes -- comparem Bagdá a Londres.

Alguns norte-americanos dizem que as diferenças são inevitáveis, porque os soldados não foram treinados para estar ao lado dos iraquianos.

"Meu problema é que um dia eu fui ordenado a matá-los, e no dia seguinte tenho que ser amigo," disse o cabo Bryan Spears na quinta-feira, enquanto controlava um posto de fiscalização na frente de um dos palácios de Saddam.

"Deixe que pensem que temos óculos de raios-X, assim eles não vão esconder armas nas roupas."

Aida Soreen esperava para passar pelo arame farpado com seu dois filhos, sem preocupar-se com a visão raio-X de Spears.

"Eu não ligo," disse ela. "Ele só pode ver meus ossos."



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