Nova TV iraquiana reclama de censura dos EUA
17h22 - 13/05/2003
Por Saul Hudson
BAGDÁ (Reuters) - O canal de televisão patrocinado pelos Estados Unidos no Iraque entrou no ar na terça-feira, depois de anunciar que está sofrendo censura em algumas atividades, como a transmissão de trechos do Alcorão, por exemplo.
Apresentada como o começo de uma nova era de liberdade de expressão no país, o canal começou suas atividades mostrando a bandeira iraquiana ao som de um hino nacionalista pan-árabe.
Em seguida, a parte da população que tem eletricidade em casa pôde acompanhar alguns enlatados e velhos shows de música -- desde que o regime de Saddam Hussein foi derrubado, no mês passado, não há produção local. O canal deve funcionar durante duas horas diárias, à noite, apenas em Bagdá.
O canal Rede de Mídia Iraquiana pretendia apresentar um telejornal diário de meia hora, mas a estréia foi adiada por causa de disputas sobre o controle de seu conteúdo editorial.
"Como jornalistas, não vamos nos submeter à censura", disse o documentarista canadense Dan North, que assessora os iraquianos na emissora. "A idéia era fazer a gênese de uma imprensa aberta e, portanto, não vamos aceitar que uma fonte exterior escrutine o que produzimos."
As acusações de censura devem confirmar para muitos iraquianos a impressão de que Washington não está colaborando com o surgimento de instituições democráticas.
"Todos os meus vizinhos dizem que a TV é controlada pelos americanos para expressar seus pontos de vista", disse o confeiteiro Abbas Mohammed, assistindo ao canal na sala de casa, com a família. "Mas eu não ligo que não haja noticiário. O noticiário iraquiano sempre é ruim."
As autoridades norte-americanas não comentaram as acusações de censura. "Não se trata de propaganda. Essa é a primeira vez em 25 anos que os iraquianos têm uma TV que não é de propaganda", disse o consultor norte-americano Robert Teasdale, que trabalha no canal.
Mas North assegura que recebeu ordens das autoridades norte-americanas no país para que toda a programação jornalística seja submetida à mulher de Jalal Talabani, um líder curdo que tem grande influência na política iraquiana do pós-guerra.
"Dá para imaginar um líder político podendo checar o conteúdo de qualquer veículo ocidental?", disse North, contratado pelas autoridades norte-americanas. Segundo ele, a disputa deve provocar um atraso de uma semana na estréia do noticiário.
A emissora só pôde emitir versos do Alcorão, como é tradição no Oriente Médio, porque os funcionários ameaçaram abandonar seus postos de trabalho se a decisão dos norte-americanos não fosse revertida.
Na terça-feira, uma mudança de última hora tirou da programação um discurso do general da reserva Jay Garner, uma das principais autoridades norte-americanas no país.
Por "sugestão" dos EUA, a emissora deixou de exibir trechos de um programa em que um paciente de um hospital acusava os soldados norte-americanos de roubarem gasolina, segundo North.
Mas a emissora levou ao ar uma entrevista com uma autoridade local do setor elétrico e cenas de iraquianos reclamando da falta de remédios em frente a um hospital.