Deputado Enéas não tem projeto, pouco fala e só observa
16h06 - 06/06/2003
Por Sarah Rink
BRASILIA (Reuters) - Passados mais de quatro meses desde o início dos trabalhos no Congresso, o deputado federal mais votado da história do país, Enéas Carneiro (Prona-SP), não apresentou nenhum projeto, fez apenas dois discursos na tribuna e não se considera obrigado a fazer nada além de "observar".
"Se me perguntarem o que é que eu faço, eu digo que sou um observador. Onde é que está escrito que eu tenho que apresentar projeto? Eu apresentarei algum quando julgar conveniente", disse o deputado à Reuters em entrevista concedida em seu gabinete no Congresso.
Sempre sentado bem ao fundo do plenário da Câmara, o doutor Enéas, como gosta de ser chamado, diz "acompanhar a maneira como o Legislativo aprova tudo que o Executivo manda". Ele prefere ficar quieto e criticar à distância as reformas do governo, às quais chama de "imundície".
"Meu único projeto é um projeto nacional, a ruptura com o sistema internacional, a declaração de independência econômica", afirma, com a voz exaltada, escancarando os olhos por trás das enormes armações de óculos. Mas admite que, no Congresso, não conseguirá viabilizar suas idéias. "Aqui dentro não dá".
Em outubro do ano passado, logo depois de ter arrebanhado históricos 1,57 milhão de votos no Estado de São Paulo, Enéas disse à Reuters que sua voz ficaria muito mais "tonitruante" do que já era, agora que ele teria um microfone à disposição na Câmara. Suas atividades parlamentares, no entanto, vêm provando que o deputado é antes um ouvinte do que um falante.
"Só me pronunciei quando a indignação chegou ao clímax", desabafou. Em março, Enéas enviou uma mensagem bordada com seu intrincado vocabulário ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na qual defendeu que o período da guerra no Iraque era "ideal" para a ruptura com sistema internacional, "porque os Estados Unidos não poderiam atacar dois países ao mesmo tempo". Dono de um peculiar bom humor, Enéas critica a "falta de coragem" de Lula e ainda defende a construção "pacífica" da bomba atômica no país. A imprensa, que ele considera "suja e vendida", também não escapa das críticas.
Enéas diz não se importar com o que as pessoas falam sobre ele e adora dar autógrafos por onde passa. "Os meus eleitores não querem saber o que está escrito nas páginas dos jornais. Eu me comunico com eles pela televisão", disse. O Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona), no entanto, não exibiu programas políticos desde o início da legislatura e não tem nenhum marcado na agenda.
Quando não está em Brasília, o médico Enéas divide o tempo entre São Paulo e Rio de Janeiro, onde dá aulas de cardiologia a platéias de até 500 alunos. Nos fins de semana, gosta de ler e conversar com a filha caçula que cursa medicina. Aos 64 anos, Enéas confessa estar cansado da maratona.
ARREPENDIMENTO
O paulista Luciano Oliveira Lima, de 21 anos, votou em Enéas para deputado federal e está "decepcionado" com seu parlamentar.
"Votei porque acreditei que ele era diferente, que seus projetos fossem realizáveis. Acho totalmente errado o discurso dele agora, não foi essa a imagem que ele deu para a gente", disse Lima.
Em 1989, o bordão "Meu nome é Enéas", repetido em 17 segundos de propaganda política na televisão, garantiu mais de 360 mil votos ao então candidato à Presidência. Em 1994 com pouco mais de um minuto na TV, o efeito da insistência foi notável: Enéas ficou em terceiro lugar na disputa presidencial, com 4,67 milhões de votos, perdendo apenas para os então candidatos no primeiro turno Fernando Henrique Cardoso e Lula.
"Se tivesse mais tempo, a eleição acabava no primeiro turno", assegura o deputado. "Mas não acabou", relembra sem se incomodar.
Logo após sua votação recorde para deputado federal em 2002, que garantiu vaga no Congresso para outros cinco deputados de seu partido, Enéas foi acusado pela Justiça Eleitoral de São Paulo de promover a venda de legenda a candidatos.
Ele e a deputada estadual do Prona (SP) Havanir Nimtz tiveram os sigilos bancário e fiscal quebrados em maio, mas o processo contra Havanir foi arquivado, enquanto Enéas continua sendo investigado.
No Congresso, Enéas vai continuar observando e garante: "Na hora exata em que um chamado profundo é dado, até a pedra responde."