Desigualdade por cor no Brasil é maior que por sexo, diz IBGE
10h01 - 12/06/2003
RIO DE JANEIRO (Reuters) - A discriminação da população negra e parda no país, que representa quase a metade dos 170 milhões de brasileiros, é maior do que as acentuadas diferenças existentes entre homens e mulheres, especialmente no mercado de trabalho.
O negro ou pardo ganha aproximadamente 30 por cento menos do que a mulher branca, que por sua vez já se encontra na base da pirâmide no mercado de trabalho, segundo pesquisa divulgada nesta quinta-feira pelo IBGE. Ele passa menos tempo nos bancos escolares e mesmo aqueles que conseguem chegar à universidade não garantem um rendimento semelhante ao dos brancos.
A "Síntese de Indicadores Sociais 2002" do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística buscou traçar um retrato do país no primeiro ano da nova década com dados sobre evolução populacional, concentração de renda, desigualdades raciais, de gênero e de rendimento.
Os resultados, com base nas informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2001, mostram que a discriminação por cor permanece cristalizada na sociedade brasileira.
"O que causa espanto é que não há avanço na redução da desigualdade racial", disse a pesquisadora do IBGE Moema de Poli Teixeira, referindo-se à melhora identificada em condições socioeconômicas, como o aumento na expectativa de vida, queda da mortalidade infantil e do analfabetismo.
Segundo o instituto, homens e mulheres de cor negra e parda ganham apenas metade do rendimento da população branca.
O nível de escolaridade também mostra brutal diferença entre brancos, negros e pardos. Considerando a população de 20 a 24 anos, por exemplo, enquanto o percentual de brancos cursando a universidade atinge 53,6 por cento, apenas 15,8 por cento são pretos e pardos. Isso porque, nessa faixa etária, 44 por cento de negros e pardos ainda nem terminaram o ensino médio, e 34,2 por cento se encontram no ensino fundamental.
As maiores desigualdades raciais são encontradas em Salvador, onde mais de 80 por cento da população é negra ou parda. Na capital da Bahia, os trabalhadores pretos e pardos têm 35,9 por cento do rendimento-hora dos trabalhadores brancos.
Para a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) Iolanda de Oliveira, os dados reforçam a necessidade de implementação de políticas específicas para a população negra no país.
"Percebe-se que as políticas de caráter universalista provocam melhora de todos os grupos raciais em todos os grupos sociais, mas as desigualdades raciais persistem", disse ela, que participa do Programa de Educação sobre o Negro na Sociedade Brasileira da UFF.
MAIS ESTUDO NÃO GARANTE MELHOR SALÁRIO
Entre os negros e pardos com 12 anos ou mais de estudo, a desvantagem salarial em relação à população branca se mantém. Eles recebem pouco mais da metade do rendimento-hora dos trabalhadores brancos. Segundo o IBGE, a situação é mais grave nas regiões metropolitanas de Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba.
Nível de escolaridade, no caso de mulheres brancas ou negras, também não garante igualdade de salário quando o concorrente é um homem branco.
Independentemente dos anos de estudo, as trabalhadoras sempre ganham menos. As mulheres com até três anos de estudo ganham 61,5 por cento do rendimento médio da população masculina com mesmo grau de instrução.
Enquanto aquelas com 11 anos e mais de estudo ganham 57,1 por cento do que recebem os homens com o igual tempo de estudo.
As diferenças entre brancos, negros e pardos também são evidentes quando se avalia a distribuição de renda no país. De acordo com o IBGE, entre o 1 por cento mais rico da população, quase 88 por cento são de cor branca, enquanto entre os 10 por cento mais pobres, aproximadamente 68 por cento se declararam pretos ou pardos.
(Por Fatima Cristina e Maria Pia Palermo)