Peru vai armar civis para combater o Sendero Luminoso
19h02 - 23/07/2003
Por Marco Aquino
LIMA (Reuters) - O governo do Peru vai dar armas a milhares de camponeses pobres de uma região andina do país para que enfrentem, junto com os militares, os guerrilheiros do Sendero Luminoso, que reapareceram com novos ataques, disse o ministro da Defesa peruano, Aurelio Loret de Mola.
"A estratégia inclui renovar o armamento dos comitês de autodefesa e provê-los de munições", disse Loret de Mola em uma entrevista à Reuters na noite de terça-feira.
Para Loret de Mola, o governo do presidente Alejandro Toledo já começou o "alistamento" de camponeses que vivem nos vales do rio Ene e Apurimac, no Departamento (Estado) de Ayacucho, a 500 quilômetros a sudeste de Lima.
Ayacucho, berço do grupo maoísta Sendero Luminoso, foi cenário de uma onda de ataques e incursões, e em menos de um mês aconteceram até quatro choques com as forças de segurança, que deixaram dez mortos, entre militares e rebeldes.
"Estamos neste processo de alistamento que deve ser concluído no final de agosto. E devemos estar trabalhando com eles (os camponeses) já na região a partir do mês de setembro", disse Loret de Mola.
Em seu auge, os integrantes dos comitês de autodefesa, ou "patrulheiros", somavam dezenas de milhares, mas agora restam bem poucos, armados com rifles velhos.
Estima-se que o Sendero Luminoso seja responsável por quase a metade dos 30 mil mortos ou desaparecidos, entre civis, militares e rebeldes, durante os 20 anos de violência que açoitou o país até finais da década de 1990. A Comissão da Verdade, integrada por personalidades civis e que investiga a violência política no Peru, afirma que as vítimas podem chegar a 60 mil.
O ministro da Defesa disse que o plano ainda não havia sido comunicado aos camponeses, pois o governo quer evitar que guerrilheiros se infiltrem nas listas dos "patrulheiros", cujo papel foi importante para frear a atividade do Sendero Luminoso na década de 1980 até meados de 1990.
Loret de Mola acrescentou que, com a ajuda da população na luta antiguerrilha, "podemos pensar, em um prazo relativamente curto, em acabar com esta ameaça que nunca desapareceu".
Segundo analistas, os guerrilheiros foram dizimados durante o governo do ex-presidente Alberto Fujimori, que tratou com rigor a subversão entre 1990 e 2000, até ser destituído.
TERRORISMO E NARCOTRÁFICO As novas ações guerrilheiras foram perpetradas por uma facção do Sendero denominada "Prosseguir", que não renunciou à luta armada, embora não alcance a mesma intensidade da violência em quase duas décadas do grupo, que buscava implantar um Estado comunista no Peru, disse Loret de Mola.
As ações do Sendero Luminoso começaram a diminuir drasticamente após a captura, em 1992, de seu principal líder, Abimael Guzmán, que dirige da prisão outra facção guerrilheira, que busca a anistia de seus líderes através de uma ação política e legal, segundo fontes militares.
Segundo o ministro da Defesa, os "remanescentes" do Sendero chegam a uns 135 combatentes, sem contar as crianças e as mulheres "escravizadas" que lhes servem de apoio logístico.
Segundo analistas, os militantes do Sendero Luminoso podem chegar a 450 em todo o país.
Loret de Mola afirmou que "foi comprovado o vínculo" entre o Sendero Luminoso e o narcotráfico. Muitos camponeses pobres do Peru --segundo maior produtor de folhas de coca do mundo, depois da Colômbia-- dedicam-se a este cultivo como única forma de subsistência devido ao seu alto preço em relação a outras culturas lícitas, como café ou cacau, por exemplo.