Em clima tenso, Irã comemora o 31º aniversário da Revolução Islâmica; governo proíbe manifestações e restringe internet
UOL Notícias*
Em São Paulo
Imerso em uma profunda crise política interna e sob forte pressão por parte da comunidade internacional, o Irã comemora nesta quinta-feira (11) o 31º aniversário da Revolução Islâmica no que promete ser um dia marcado por protestos e confrontos.
Mais uma vez o governo iraniano proibiu as manifestações e aglomerações que não façam parte das cerimônias oficiais para celebrar a data. Já a oposição reformista, que não reconhece a reeleição do presidente Mahmud Ahmadinejad no ano passado, promete manifestações pacificas.
Voluntários de milícia iraniana pró-governo durante evento para lembrar o início da Guerra Irã-Iraque (1980-1988), em 2008; governo iraniano promete reprimir manifestações durante
a celebração do 31º aniversário da Revolução Islâmica nesta quinta-feira (11)
Para impedir os protestos, o governo iraniano tenta evitar que a oposição se organize e consiga enviar fotos ao exterior. Para isso, reduziu a velocidade da internet em todo o país e tem dificultado o acesso às contas de e-mail.
O governo também anunciou que não tolerará vozes dissidentes nas manifestações. Nesta quarta-feira (10), as forças policiais e os basiys, milicianos islâmicos que reprimem as manifestações, espalharam-se pelas ruas da capital Teerã.
“As forças de segurança e a polícia estão preparados para todo o tipo de acontecimentos. O mesmo povo será o principal e o melhor agente de segurança na manifestação de amanhã [quinta-feira] que, se Deus quiser, se celebrará gloriosamente e será uma dura respostas aos inimigos”, afirmou o ministro iraniano de Inteligência, Heydar Moslehi.
Já o general Hossein Hamedani da Guarda Revolucionária, foi mais enfático no discurso. "Qualquer voz, qualquer cor ou qualquer gesto contrários à Revolução Islâmica [durante as manifestações] serão repudiados pelo povo", declarou.
Segundo o jornal iraniano pró-reformista "Etemad", nos últimas dois dias, cerca de 15 estudantes e três jornalistas foram detidos. Com essas detenções, subiu para 65 o número total de jornalistas e blogueiros detidos no Irã nos últimos meses, segundo a contagem do diário.
Além de jornalistas e estudantes, parentes dos principais líderes da oposição também são alvos da repressão do regime islâmico. De acordo com a imprensa reformista, um dos detidos nos últimos dias foi Saleh Noghrekar, sobrinho de Mir Hossein Mousavi, candidato à presidência derrota por Ahmadinejad na última eleição.
Relembre os principais acontecimentos polêmicos no Irã durante o ano de 2009
Para se esquivar da proibição de manifestações, os líderes da oposição convocaram a população a comparecer de forma maciça aos atos oficiais, uma tática que já utilizaram várias vezes desde o início da crise.
"Participemos todos das cerimônias de aniversário com calma e firmeza, com paciência e sem violências verbais ou físicas", afirmou Mehdi Karubi, ex-chefe reformador no parlamento e candidato derrotado na eleição presidencial passada.
Crise interna e externa
Desde junho de 2009, quando a oposição progressista qualificou de fraudulento o pleito que reelegeu o presidente iraniano Ahmadinejad, o país encontra-se imerso na pior crise interna das últimas três décadas. A última grande mobilização popular foi justamente em 1979, quando a vitória da Revolução Islâmica colocou os aiatolás no poder e derrubou a monarquia aliada de Washington.
As manifestações da oposição ao longo dos últimos oito meses foram duramente reprimidas pelo governo iraniano. Dezenas de pessoas foram mortas e cerca de 5.000 foram presas em todo o país, segundo a ONG Human Rights Watch. No começo de 2010, o governo enforcou dois manifestantes e condenou à morte outros dez.
Se internamente a situação é delicada para Ahmadinejad, no exterior o cenário não se mostra mais favorável. O anúncio da retomada na terça-feira (9) do enriquecimento de urânio a 20% provou uma forte reação dos países do Ocidente, principalmente por parte dos Estados Unidos e França, que temem que o país persa queira, na realidade, produzir bombas atômicas. Já Teerã afirma que seu programa nuclear tem fins meramente civis, e não militares.
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A retomada do enriquecimento por parte do Irã foi tomada depois de um impasse nas negociações para que o processo fosse realizado em outro país. Para produzir uma bomba atômica, o enriquecimento de urânio deve ser a 90%, entretanto, a retomada iraniana viola resolução anterior do Conselho de Segurança da ONU.
Apesar da pressão externa, uma possível nova sanção imposta pela ONU contra o Irã –outras três já foram adotadas em anos anteriores sem sucesso- é considerada improvável por analistas internacionais. O motivo é a China, um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança e principal parceiro econômico do Irã, que deve usar seu poder de veto para impedir punições ao país.
O atual momento contrasta com as comemorações dos 30 anos da vitória da Revolução Islâmica. Há exato um ano, o Irã celebrava a data de forma tranquila e parecia aberto a dialogar com os Estados Unidos, do então recém-empossado Barack Obama.
A Revolução Islâmica
Entre o final de 1978 e início de 1979, manifestações contra o governo do xá Reza Pahlevi tomaram conta de várias cidades do Irã. A população aclamava o clérigo xiita Ruhollah Khomeine com um imã -o líder político e religioso dos iranianos.
Khomeine, que estava fora do Irã desde 1964 devido sua oposição contrária ao governo dos Pahlevi, tinha recebido, na década de 50, o título de aitolá, o "mais alto conhecedor da lei islâmica" e o mais importante cargo da hierarquia do clero xiita.
A facção xiita dentro do islamismo acredita que o Estado deve ser controlado por um líder religioso, por isso o aitolá Khomeine era visto como o representante dos iranianos contra Pahlevi.
As manifestações populares cresciam vertiginosamente. Como o exército não conseguia conter a população, em 16 de janeiro de 1979 Pahlevi deixou o país. Os Estados Unidos ainda tentaram manter o primeiro-ministro Chapour Bakhtiar. Mas em 1º de fevereiro de 1979, o aitolá Khomeine retornou ao Irã, assumindo a liderança da revolução.
Entre 10 e 12 de fevereiro uma insurreição popular armada tomou conta das principais cidades do Irã. Quando o exército iraniano passou a defender a revolução, Bakhtiar também teve que deixar o país.
Nesse processo, a Guarda da Revolução Islâmica (Pasdaram), milícia religiosa ligada ao clero xiita, tomou o controle da insurreição, iniciando quase que imediatamente a repressão aos líderes não religiosos do movimento (trabalhadores, intelectuais, políticos), instaurando no Irã um Estado teocrático que perdura até os dias de hoje, sob o nome de República Islâmica do Irã.
O novo governo rompeu relações diplomáticas e comerciais com vários países, acusados de explorar a economia iraniana. Em novembro de 1979, a embaixada norte-americana de Teerã foi invadida, como represália pelo fato de os Estados Unidos terem acolhido Pahlevi. Deste então, os dois países não possuem relações diplomáticas.
*Com agências internacionais e UOL Educação
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