Candidatos à presidência da Colômbia "ignoram" Brasil e debatem Chávez na campanha
Carlos Iavelberg*
Do UOL Notícias
Em São Paulo
A menos de um mês das eleições presidenciais na Colômbia, o tema Brasil passa longe dos discursos dos principais candidatos. Já a Venezuela entrou no debate principalmente após declarações feitas pelo polêmico presidente venezuelano Hugo Chávez e de uma retratação por parte do favorito na disputa.
Os candidatos colombianos Antanas Mockus (à esq.) e Juan Manuel Santos durante debate
No dia 30 de maio, os colombianos vão às urnas eleger o sucessor do presidente Álvaro Uribe, que deixa o cargo com alta aprovação popular, acima de 70%.
O tema Venezuela, que sempre rondou o debate eleitoral, ganhou ainda mais destaque no começo da semana, após Chávez afirmar que uma vitória do candidato conservador Juan Manuel Santos, apoiado por Uribe, provocaria um conflito bélico na região.
“O senhor Santos, que agora anda tratando de se vestir como Chapeuzinho Vermelho -Chapeuzinho Santos, teria que dizer- é um lobo. Ele que mandou bombardear o Equador”, afirmou o venezuelano.
A alusão se refere ao ataque feito pelo Exército colombiano contra um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) localizado em território equatoriano, em março de 2008. A operação provocou a morte de 26 pessoas, entre elas o então número dois da guerrilha, Raúl Reyes, e fez Quito romper relações com Bogotá.
A ação foi comandada por Santos, que na época era ministro da Defesa. Dias antes da fala de Chávez, o colombiano disse em um debate estar "orgulhoso" por ter ordenado a incursão militar e defendeu a perseguição de "terroristas onde eles estiverem".
Já a surpresa das eleições e líder em algumas pesquisas, o ex-prefeito de Bogotá Antanas Mockus, classificou a ação de “absolutamente equivocada”.
Mockus, do Partido Verde (PV), chegou a afirmar que “admirava” Chávez, mas, logo depois, recuou. “Usei a palavra admirar inadequadamente. Acredito que ninguém haveria repercutido sobre o tema se eu tivesse dito simplesmente que respeito o governo do presidente Chávez, que, de todos os modos, foi eleito democraticamente”, declarou.
Para o cientista político colombiano Gerson Arias, da Fundação Ideas para La Paz, é exatamente esse discurso mais ameno com relação à Venezuela que poderia fazer de Mockus um presidente mais interessante para a política externa brasileira.
Raio-x da Colômbia
Nome oficial: República da Colômbia
Forma de governo: República (Poder Executivo domina a estrutura de governo)
Capital: Bogotá
Divisão administrativa: 32 departamentos e 1 distrito capital
População: 43.677,372
Idioma: Espanhol
Grupos etnicos: Mestiços 58%, brancos 20%, mulatos 14%, negros 4%, cafuzos 3% e indígenas 1%
Religiões: Católicos Romanos 90% e outros 10% Fonte: CIA Factbook 2009
“[Com Mockus], haveria uma maior garantia que as relações com a Venezuela seriam melhoradas e, consequentemente, se harmonizaria ainda mais as relações com o Brasil”, acredita.
O professor colombiano Carlos Velásquez, chefe da área Sócio-Humanística da Universidade de La Sabana, também acredita que Mockus seja a alternativa mais interessante ao Brasil.
“Santos já está muito comprometido com os Estados Unidos. Aliás, foi ele quem assinou o recente o acordo militar entre os dois países. Ele veria o Brasil como mais um país vizinho. Já Mockus teria uma política mais voltada para o sul e, sendo o Brasil o líder na região, as relações poderiam melhorar”, afirma Velásquez.
Em uma da poucas vezes que falou sobre o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, Mockus o elogiou. Questionado pelo jornal venezuelano “El Universal” por qual mandatário sul-americano expressaria admiração -numa clara alusão ao elogio feito anteriormente a Chávez-, o candidato preferiu eleger o brasileiro. “Ele conseguiu impulsionar a indústria e posicionou o Brasil como uma potência emergente de consenso”, declarou.
Outro dos raros momentos em que o Brasil foi tema de discussão foi durante um debate televisionado ao longo da última semana. Nele, a candidata pelo Partido Conservador, Noemi Sanín, que figura em terceiro lugar com poucas chances de ir ao segundo turno, elogiou a forma como o Brasil tratou recentemente a assinatura de um acordo de cooperação militar com os Estados Unidos.
Segundo Sanín, o tratado foi assinado sem causar "problemas com os vizinhos", o oposto do que aconteceu no ano passado quando Bogotá fechou um acordo militar com Washington.
Para o cientista político Arias, independentemente de quem venha a ser o novo presidente, as relações entre Colômbia e Brasil devem seguir boas. Embora ressalte que isso também dependerá do novo presidente brasileiro, que tomará posse no próximo ano.
Segurança democrática
Resquícios dos tempos em que grupos de narcotraficantes realizavam atentados nas grandes cidades, o tema da segurança democrática segue forte entre o eleitorado colombiano.
Leia mais sobre as eleições na Colômbia
Acontece que, entre os principais candidatos, todos prometem manter a ordem democrática, investir em segurança e, de momento, negam a possibilidade de uma “troca humanitária” de sequestrados pelas Farc por rebeldes presos.
“Todos os candidatos sabem que haveria um custo político muito grande caso falassem na possibilidade de negociação com as Farc”, afirma Arias. É consenso que a alta aprovação do governo de Uribe vem, principalmente, da linha dura adotada contra a guerrilha.
Por outro lado, o professor Velásquez acredita que o enfraquecimento da guerrilha tem reduzido o temor causado por ela entre os eleitores. “Diminuiu o ódio dos colombianos pelas Farc. Isso enfraquece a defesa dos candidatos uribistas de que são melhores opções para a segurança do país”, analisa.
Em alta
Segundo o cientista político, o candidato Mockus é o único a proferir um discurso “novo” que, além de defender a continuidade na repressão às Farc, também consegue oferecer ao eleitorado propostas sobre educação, transparência e luta contra a corrupção
“Hoje em dia, se reconhece que há a necessidade de manter a segurança democrática, mas que só isso não é suficiente. E quem tem transmitido confiança para dizer: ‘Mantenho a segurança democrática e faço algo diferente’, é Mockus”, afirma.
O professor Velásquez também concorda que os colombianos querem ouvir outro discurso. “Em boa parte do país a população está cansado da polarização entre esquerda e direita feita por Uribe”, analisa.
Esse seria um dos motivos que tem feito Mockus subir rapidamente nas pesquisas, enquanto o candidato uribista Santos segue estagnado e já começa a ver seu favoritismo inicial passar para o concorrente.
Em três das quatro pesquisas de intenção de votos divulgadas esta semana, Mockus aparece em primeiro lugar. Em todas elas, ele aparece vencedor em um eventual segundo turno contra Santos.
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