Proeminência internacional do Brasil não depende mais de Lula, dizem analistas
Maurício Savarese
Do UOL Notícias
Em São Paulo
Como potência latinoamericana, o Brasil exerce liderança global e ganha importância internacional independentemente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ampliou o papel da diplomacia nacional. Para especialistas em relações exteriores ouvidos pelo UOL Notícias, a proeminência do país se reforça com o acordo nuclear com o Irã –ainda que a teocracia islâmica não o cumpra no futuro.
Na segunda-feira (17), Brasil e Turquia fecharam um acordo com o Irã, que se comprometeu a –dentro de um mês– enviar 1,2 tonelada de urânio levemente enriquecido aos turcos. Esse volume seria enriquecido em 20% na França ou na Rússia e, dentro de um ano, transformado em 120 quilos de urânio a serem reenviados aos iranianos para uso civil. As potências ocidentais ameaçam Teerã com uma quarta rodada de sanções por temor de que o programa nuclear tenha fins bélicos.
Os Estados Unidos e o Reino Unido emitiram sinais de descrédito em relação ao acerto, criticado por não conter uma afirmação clara de que a teocracia islâmica não enriquecerá urânio acima de 20% em seu território. A França indicou que vai esperar as observações da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) sobre o assunto. Foi a similar a postura de Rússia e China, principais interlocutoras de Teerã antes da aproximação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Leia mais
- Irã afirma que vai continuar enriquecendo urânio; saiba o que pode acontecer

- Acordo Brasil-Irã-Turquia é positivo e descrença "não tem sentido", diz consultor da AIEA

- Lula diz que acordo com Irã é vitória da diplomacia

- Potências mundiais aprovaram rascunho de sanções contra o Irã, diz Hillary

- Após acordo, Irã diz que continuará a enriquecer urânio a 20%

- Ahmadinejad esclarecerá detalhes à Aiea e ao Conselho de Segurança da ONU

- Chanceler de FHC, antes pessimista, diz que acordo com Irã é "construtivo"

- Veja os dez pontos do acordo nuclear assinado por Irã, Brasil e Turquia

- Acordo Brasil-Irã resolve o impasse nuclear?

“O Brasil será um ator com interesses globais e, ao mesmo tempo, pagando um preço alto. Isso já não depende de Lula ou de quem vier depois dele. É uma questão do tamanho do país. Quem estiver no governo em 2011 pode fechar uma embaixada aqui e outra ali. Mas não há como retornar ao ponto de a diplomacia brasileira simplesmente ignorar algo que tenha influência global”, disse Matias Spektor, coordenador do centro de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Para ele, uma eventual vitória do oposicionista José Serra (PSDB) traria “mudança de tom, mas não de orientação”. “Podem diminuir a amizade com alguns países e aumentar com outros, podem fechar uma representação aqui e outra ali. Mas o Brasil já tem relações mais profundas com a África e o Oriente Médio e essas não serão ignoradas”, afirmou. Já a vitória da governista Dilma Rousseff (PT) geraria dúvidas, segundo ele, por conta do histórico de discórdia entre presidente e seu sucessor.
“Isso vai depender exclusivamente da relação que Dilma e Lula mantiverem depois. Presidentes que fazem seu sucessor não têm relação tranquila com sucessor. Se ela seguir a linha do atual presidente, não terá o mesmo carisma, a mesma capacidade de persuasão pessoal, mas pode ser útil como Lula é.”
Questão de experiência
Para Michael Shifter, presidente do instituto Diálogo Interamericano, com sede em Washington, a questão iraniana pode ser mais ligada à figura de Lula, mas a importância do Brasil em foros internacionais, não. “O papel global do país é permanente e não importa quem vença as eleições. Mas o Irã vem associado à idéia de que o presidente atual tem um toque mágico. Isso não se ligaria a outro governo. A aventura do Irã reflete muito da habilidade de Lula de ter apelo internacional”, disse.
Shifter diz que “existe uma idéia crescente de que a partir de agora o Brasil será importante globalmente”. “O Irã serve para mostrar que o Brasil tem ambição grande de tentar resolver um problema que outros tentaram e não conseguiram. Mas serve também como a primeira de uma série de tentativas. Certamente o Brasil aparecerá mais vezes e terá de desempenhar um papel importante”, avaliou.
Professor de Relações Internacionais da London School of Economics, Michael Cox diz que “a acusação de ingenuidade brasileira, feita pela secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton é algo que vai se tornar mais frequente". Mas não tira a importância do Brasil nas discussões globais. “A dúvida é se o Brasil terá um papel que ajudará os EUA, se será neutro ou se será antagônico”, afirmou.
O especialista britânico considera Lula o principal impulsor da diplomacia brasileira com todo o mundo, sem fazer distinção de regimes democráticos ou autoritários. Mas com o tempo o Brasil terá de ser mais claro sobre os valores que defenderá. “Para ser grande, o país vai ter de dizer mais vezes se acha governos como o da Venezuela, por exemplo, democráticos de verdade. Vai ter de se posicionar no Oriente Médio, em conflitos africanos e por aí vai”, disse.
“Não será fácil, mas os primeiros passos dessa jornada mostraram que o Brasil não vai recuar sobre esse desejo de ser importante. A tendência é de que consiga essa proeminência, mas que também atraia novos adversários. Não há ganho sem sofrimento na arena internacional”, finaliza Cox.
Últimas de Notícias
Ver mais notíciasImprensa elogia nova obra de Bertolucci em Cannes
CANNES, 24 MAI (ANSA) - A imprensa internacional celebrou hoje a volta do diretor italiano Bernardo Bertolucci ao Festival...
Estudo aponta que brasileiros bebem em média 6,9 litros de álcool por ano
O consumo de álcool na América Latina é baixo quando comparado com o registrado na Europa e nos Estados Unidos, e se situa...
Ativistas do Greenpeace pedem em Tel Aviv que Dilma vete Código Florestal
Cerca de 20 ativistas do Greenpeace entregaram nesta quinta-feira na embaixada do Brasil em Tel Aviv uma carta para a...
Crise europeia: investidores se protegem em dívida alemã mesmo a juros zero
PARIS, 24 Mai 2012 (AFP) -A Alemanha emitiu pela primeira vez esta semana bônus a dois anos com juros zero. Apesar disso, os...
ONGs acreditam ter mais poder para influir na Rio+20 do que 20 anos atrás
As ONGs participantes da Cúpula dos Povos, evento paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento...
Envelhecimento da América Latina aumentará incidência de osteoporose
O gradativo envelhecimento da população da América Latina causará um "aumento significativo" das fraturas e da incidência...
Presidente do banco IOR do Vaticano é demitido
CIDADE DO VATICANO, 24 Mai 2012 (AFP) -O presidente do banco do Vaticano, o Instituto para as Obras Religiosas (IOR), Ettore...
ONGs acreditam ter mais poder para influir na Rio+20 do que 20 anos atrás
Rio de Janeiro, 24 mai (EFE).- As ONGs participantes da Cúpula dos Povos, evento paralelo à Conferência das Nações Unidas...
Confissão de Xuxa sobre abusos na infância aumenta denúncias no Brasil
Brasília, 24 mai (EFE).- A confissão da apresentadora de televisão Maria das Graças Meneguel "Xuxa" de ter sofrido abusos...
Monarquia britânica alcança recorde de popularidade em Jubileu
Partido grego contrário a resgate internacional lidera pesquisa
ATENAS, 24 Mai (Reuters) - O partido de esquerda Syriza, que é contra o resgate internacional à Grécia,...
No ano do Jubileu, monarquia britânica alcança recorde de popularidade
Londres, 24 mai (EFE).- Os índices de popularidade da monarquia britânica atingiram recordes históricos num momento em que o...
Occupy Wall Street processa prefeitura de NY por danos materiais
Argentina retira concessão de ferrovia 3 meses após acidente
Massa se diz satisfeito com treinos desta quinta-feira
MÔNACO, 24 MAI (ANSA) - O piloto brasileiro Felipe Massa, da Ferrari, se mostrou satisfeito com os resultados dos dois...



