Guerra entre duas Coreias é improvável sem apoio externo, dizem especialistas

Raquel Maldonado
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Apesar da atual escalada de tensão entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, uma guerra entre os dois países é algo pouco provável. Segundo especialistas ouvidos pelo UOL Notícias, ainda que exista uma grande tensão entre as duas Coreias e a alta militarização da região propicie o conflito, uma guerra não seria possível sem que agentes externos apoiassem a investida.

“Não acredito em uma guerra entre as duas Coreias. Claro que a relação entre elas é bastante tensa, mas a questão é que hoje não interessa nem aos EUA nem à China o conflito entre os dois países”, disse Henrique Altemani, professor do grupo de estudos Ásia-Pacífico da PUC-SP.

Na opinião de Flavio Rocha de Oliveira, professor de relações internacionais da faculdade Santa Marcelina, a Coreia do Norte não teria capacidade de enfrentar sozinha a Coreia do Sul. “Seria um suicídio”, afirma.

Para Heni Ozi Cukier, especialista em conflitos internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), a situação deve seguir como estava antes, pelo menos até que o atual presidente norte-coreano, Kim Jong-il, seja substituído. “Acredito que se opte por uma solução diplomática. A comunidade internacional irá trabalhar para que não haja uma escalada maior de tensão e só.”

Coreia do Sul acusa vizinho de torpedear navio militar e matar 46 pessoas

A Coreia do Norte anunciou nesta terça-feira (25) que vai cortar todas as relações com a Coreia do Sul, inclusive as comunicações. O movimento teria sido um sinal de protesto contra as acusações de que a Coreia do Norte teria atacado um navio de guerra sul-coreano próximo à fronteira marítima inter-coreana no último dia 26 de março.

No afundamento, morreram 46 dos 105 tripulantes do navio, no pior incidente naval entre os países desde o fim da Guerra da Coreia. Pyongyang nega que tenha atacado a embarcação.

A China (alinhada com a Coreia do Norte) e os Estados Unidos (alinhados com o Sul) afirmaram aceitar trabalhar para tentar encontrar uma solução diplomática para a crise entre os dois países.

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, afirmou que Washington "trabalhará com a comunidade internacional e com nossos colegas chineses para elaborar uma resposta eficaz e apropriada".

O governo chinês, por sua vez, pediu que todas as partes usem a moderação, afirmando que o diálogo é melhor que o conflito. "Esperamos que todas as partes implicadas mantenham a calma e exerçam a moderação a fim de conduzir adequadamente o assunto para evitar que a situação se agrave", assinalou a porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores da China, Jiang Yu.

Para o professor da PUC-SP, a China é um personagem central no desenvolvimento do conflito entre os dois países. “Uma guerra entre as duas Coreias seria muito prejudicial à China, afetaria seriamente o desenvolvimento econômico chinês e, consequentemente, isso acabaria atingindo o mundo inteiro. Por outro lado, ela [a China] sabe que precisa agir com cautela para não criar um adversário com potencial nuclear na sua fronteira.”

Já o papel dos EUA no conflito é visto pelo professor como uma oportunidade para recuperar a influência internacional, que anda em baixa atualmente. “Os EUA estão utilizando a questão entres as duas Coreias, assim como estão utilizando a questão iraniana, para recobrar o prestígio internacional que perderam na administração do ex-presidente George W. Bush, isso é evidente.”

Por isso, na opinião de Altemani, mediar o conflito e ser capaz de encontrar uma solução diplomática é o objetivo dos norte-americanos.

Ameaças
Segundo a agência oficial norte-coreana "KCNA", a Coreia do Norte informou que também vai expulsar todos os sul-coreanos que trabalham no complexo industrial de Kaesong, localizado ao norte da linha que separa os dois países, ainda que seja financiado por Seul. Além disso, todos os barcos e os aviões sul-coreanos ficam proibidos de acessar as águas territoriais e o espaço aéreo norte-coreano.

Raio-x da Coreia do Sul:

  • Nome oficial: República da Coreia
    Capital: Seul
    Tipo de governo: República
    População: 48.508,972
    Idiomas: Coreano e inglês (estudantes)
    Grupos étnicos: Homogêneo (exceto pelos cerca de 20 mil chineses)
    Religiões: Cristãos 26.3% (protestantes 19.7%, católicos romanos 6.6%), budistas 23.2%, outras ou desconhecidas 1.3%, nenhuma 49.3%
    Fonte: CIA Factbook

O comunicado da "KCNA" informa também que um responsável militar da Coreia do Norte, não identificado, denunciou que vários navios de guerra sul-coreanos entraram em águas norte-coreanas do Mar Amarelo (Mar Ocidental) entre 14 e 24 de maio.

A agência também afirma que o presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-il, pôs em alerta o Exército e os reservistas depois que Seul o acusou formalmente de ter disparado um torpedo contra o navio de guerra.

Troca de acusações
A Coreia do Sul, por sua vez, anunciou que fará exercícios militares com dispositivos antissubmarinos ainda nesta semana, informou a agência de notícias "Yonhap".

O país também declarou que a Coreia do Norte é, novamente, seu "principal inimigo", expressão que tinha retirado em 2004.

Segundo a "Yonhap", um responsável do governo da Coreia do Sul considerou que a medida de restaurar o termo de "principal inimigo" era lógica, e confirmou que Seul o incluirá novamente no "livro branco" do Ministério da Defesa do país.

A Coreia do Sul utilizou esta definição pela primeira vez em 1995, depois que um político norte-coreano ameaçou transformar Seul em um "mar de fogo" durante um encontro militar bilateral realizado no ano anterior.

No entanto, o governo eliminou a expressão em 2004, após a melhora das relações entre os dos países, e em seu lugar empregou denominações como "ameaça militar direta" ou "ameaça militar existente" para definir a Coreia do Norte.

Relação tensa
A zona de fronteira marítima entre as duas Coreias é especialmente conflituosa, já que Pyongyang rejeita a polêmica Linha do Limite do Norte (NLL), estabelecida no final da Guerra da Coreia (1950-1953) pelas tropas da ONU (Organização das Nações Unidas) lideradas pelos Estados Unidos.

Trata-se de uma linha fronteiriça que é objeto de disputa por ambas partes, que se acusaram mutuamente de violá-la em numerosas ocasiões. A Coreia do Norte assinalou que as incursões de seu vizinho do sul são premeditadas para intensificar a tensão, enquanto Seul repete acusações similares contra Pyongyang.

“Com o fim da Guerra da Coreia, em 1953, foi assinado o armistício entre a Coreia do Norte e os EUA, que lideravam as tropas da ONU. A Coreia do Sul nunca participou deste acordo. Isso significa que rigorosamente a guerra entre os dois países nunca terminou”, defendeu Altemani.

Ele afirma ainda que “o armistício não é um tratado de paz, é um cessar fogo. Significa interromper o conflito, mas isso não quer dizer que os países têm a intenção de criar a paz na região. O clima de guerra sempre esteve ali, a questão do afundamento do navio sul-coreano só foi a faísca em uma relação já tensa”.

Para os especialistas Heni Ozi Cukier e Flavio Rocha de Oliveira, só será possível uma mudança nas relações entre os dois países quando o regime norte-coreano tiver um novo mandatário. “Até que isso aconteça, predominará o padrão de confrontação e ameaças entre eles”, finaliza Oliveira.

*Com informações da Folha.com e de agências internacionais

 

 

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