Referendo sobre divisão do Sudão pode criar um dos países mais pobres do mundo
Andréia Martins
Do UOL Notícias*
Em São Paulo
Neste domingo a população do Sudão do Sul vive o que podemos chamar de dia “D”, com o início da consulta popular que pode dividir o país, dezessete anos depois da separação da Eritreia da Etiópia, a última em território africano.
O referendo deste domingo é aguardado desde 2005, quando foi assinado o acordo de paz que pôs fim à guerra civil e deu autonomia ao sul durante os últimos cinco anos.
Dos cerca de 40 milhões de sudaneses, 4 milhões registraram-se para votar. São sulistas que vivem em todo o país e também em algumas cidades do exterior. O processo dura uma semana. Para ser válida, a decisão precisa ser tomada por 60% dos eleitores inscritos.
Terminada a apuração, no dia 15, começa a verificação dos votos em cédulas de papel. Contando com o prazo para recursos e homologação, os resultados oficiais devem ser divulgados apenas em meados do mês que vem. Mas deve ser de conhecimento público, extraoficialmente, bem antes disso.
Na sexta-feira (7), moradores de Juba, capital do Sul, exibiam cartazes e já celebravam antecipadamente a vitória pela separação.
Localização do Sudão do Sul
Sudão do Sul
| Capital | Juba |
| População | 7,5 e 9,7 habitantes e mais de 3 milhões desalojados |
| Presidente | Salva Kiir Mayardit |
| Área | 619.745 km² |
O presidente do Sudão, Omar al-Bashir, acusado de cometer assassinatos em massa e agressões sexuais na região de Darfur, disse que a eventual separação da região do resto do país será como “tirar um pedaço do corpo da nação, mas não será o fim do mundo”.
“Somos pessoas civilizadas”, disse ele durante visita a Juba, no início da semana. “Embora o resultado possa ser doloroso, vamos comemorar o resultado com perdão, paciência e aceitação, de coração aberto”, completou Bashir.
Mas neste sábado, véspera do referendo, Bashir declarou à TV al-Jazeera vai enfrentar “instabilidade” se a população optar pela separação.
O presidente Barack Obama afirmou que se o governo de al-Bashir reconhecer pacificamente o resultado do referendo pode retirar o Sudão da lista de países ligados ao terrorismo.
Organizações internacionais como União Europeia, Liga Árabe e União Africana, além de países como a China, enviaram observadores para supervisionar a votação.
“Não encontrei um único sudanês do sul que esteja interessado em votar pela manutenção da união. Eu diria que pelo menos 98% deles vão votar pela separação”, disse o soldado Ezekiel Lol Gatkuoth em entrevista à CNN. "É por isso que estamos lutando há mais de 50 anos”, completou.
Jeremy Awin, que integrou as forças de repressão contra a população do Sudão do Sul durante mais de 10 anos, disse à emissora americana que não deseja mais pegar em armas. “Agora é tempo de paz. Eu votaria, seguramente, pela separação”.
“Eu preciso da separação para ter paz, pois cresci na guerra e não quero isso para os meus filhos”, disse Daniel Akot, morador de Juba.
A guerra civil, que tomou conta do país durante 23 anos, de 1955 a 1972, e deixou mais de 1,5 milhão de mortos, foi resultado da dominação política, econômica e social do norte, onde fica a capital Cartum. A religião também é outro motivo de divisão entre as regiões: enquanto no norte a população é muçulmana, no sul, ela é majoritariamente cristã.
Como parte do esforço para garantir que todos os eleitores do sul possam votar, a UNMIS e a Missão Conjunta da ONU-União Africana em Darfur (Unamid) treinou equipes para 20 seções eleitorais no oeste do Sudão, onde 23 mil sulistas registraram-se para votar. A segurança também deve ser reforçada para evitar confrontos.
Paralelamente ao referendo do Sudão do Sul, moradores da zona petrolífera de Abyei também deveriam votar para decidir se, com uma eventual divisão, permaneceriam no norte ou se tornariam parte do sul.
Referendo no Sudão do Sul
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Maioria deve votar pela separação
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Acesso à educação é um dos desafios da região
Mas a falta de acordo sobre quais grupos da população poderiam participar deste segundo referendo levou ao cancelamento dele, que ainda não tem nova data definida.
Os motivos da tensão incluem direitos sobre o uso da terra e também interferência na política externa. Além disso, Cartum e Juba promovem disputas pelo poder em Abyei, por meio de seus aliados regionais, para assegurar o controle dos campos de petróleo da província. Para Bashir, a disputa por Abyei poderá desencadear uma guerra.
Desafios da nova nação
Se optarem pela separação, o novo país, que poderá manter o nome ou se chamar “Novo Sudão”, nascerá como uma das mais pobres nações do mundo, que precisa de avanços em diversas áreas, especialmente na educação, social e econômica.
De acordo com dados das Nações Unidas, 90% da população do sul (estimada em 8,8 milhões) vivem com menos de um dólar por dia, 85% são analfabetos e um terço sofre de fome crônica. Akobo, cidade na fronteira com a Etiópia, foi classificada pela ONU como "o lugar mais faminto do planeta".
Há outros problemas como escassez de alimentos e saúde. Segundo a Anistia Internacional, calcula-se que 6,2 milhões de pessoas, incluindo 4,2 milhões em Darfur e 1,3 milhões no Sudão do Sul, precisem de ajuda alimentícia.
Com relação à educação, no Sudão do Sul há 1.000 alunos na classe primária por professor e 92% das mulheres não sabem ler nem escrever.
Para se prevenir de possíveis conflitos entre o norte e o sul durante o referendo, o governo do Quênia anunciou planos de contingência para lidar com um possível fluxo de refugiados do vizinho Sudão. Mais de 20 mil refugiados podem cruzar a fronteira se a consulta acabar em violência, segundo o Alto Comissariado para Refugiados da ONU (Acnur).
O chanceler queniano, George Saitoti, afirmou que "há indicações" de que o pleito será pacífico. "No entanto, se surgirem dificuldades no Sudão e pessoas vierem buscar abrigo no Quênia, já estamos nos preparando. Haverá apoio humanitário e logístico, se for necessário", disse.
*Com informações de Agências Internacionais
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