Egípcios no Brasil comemoram onda de protestos contra Mubarak
Thiago Chaves-Scarelli
Do UOL Notícias<br>Em São Paulo
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AFP
Ahmed e Mustafa saíram do Egito recentemente para viver no Brasil, em busca de condições políticas mais estáveis e maior liberdade civil. Hoje, olhando para o país que deixaram, ambos se dizem animados com a revolta popular lançada contra a "máfia" do presidente Hosni Mubarak, que está há três décadas no poder, mas temem que o próximo passo do governo seja usar o Exército para esmagar as manifestações.
“Eu tinha certeza que isso [os protestos] ia acontecer um dia. Quando morava no Egito, participei de movimentos políticos, mas isso foi para mim uma surpresa, porque esperava [mobilização popular massiva] apenas quando Mubarak morresse”, contou Ahmed em conversa com o UOL Notícias. “Se eu estivesse no Egito hoje, iria para as ruas. Os egípcios não querem que Mubarak continue como presidente."
O exemplo da Tunísia
O que aconteceu na Tunísia duas semanas antes deu coragem para os egípcios. Eles viram que é possível tirar um ditador se as pessoas forem para as ruas e fizerem protestos; não é impossível
Ahmed, 31, vive no Brasil há oito meses e prefere não informar o nome completo, com medo de eventuais represálias caso ainda volte para um Egito sob governo de Mubarak.
“O presidente Mubarak está há muito tempo no governo e sua família é muito poderosa. Seus filhos são milionários. Eles usam o poder para fazer dinheiro. É como uma máfia, uma gangue –os amigos dos filhos do presidente são todos homens de negócios milionários, enquanto mais de 40% dos egípcios vivem com menos de dois dólares por dia”, descreve.
“Por isso a economia é uma das causas dos protestos. Muitas pessoas não têm trabalho; se trabalham, não tem bons salários”, afirma. “Cairo tem duas cidades: uma de pessoas muito ricas, e outra de quem não tem nada na vida."
Essa falta de oportunidades e a instabilidade política foram alguns dos motivos que levaram Ahmed a deixar o Egito, junto com sua mulher, que é brasileira. “Sinto que aqui a situação é muito melhor. O Brasil é um país que não vai ter tempestade no futuro; e não sei como vai estar o meu país daqui a dois anos. Por isso estou pensando em trazer minha família do Egito também."
"Queria mais liberdade"
Motivos semelhantes são apontados por Mostafa Mansour, 25, que veio para o Brasil em 2007. “Uma razão é que eu casei [com uma brasileira] e outra é que eu não aguentei. Eu queria mais liberdade, ter mais voz, melhor futuro, porque lá [no Egito] você não pode sonhar muito, as coisas são mais devagar."
Ele também se diz animado com as manifestações que estão ocorrendo esta semana em seu país. “Já aconteceram protestos outras vezes, mas não duravam mais do que três horas e a gente não falava nas ruas ‘fora Mubarak!’ ou ‘não queremos este governo!’ Esta foi a primeira vez. Falávamos sobre economia, outras coisas, mas nada tão direto”, conta.
Mudança de geração
Minha mãe está em outra geração. As pessoas mais velhas aceitam o que acontece, gostam da rotina, são diferentes dos jovens. Nós queremos um novo futuro, mais liberdade. As pessoas com mais de 40 ou 50 anos estão acostumados com essa maneira de viver
Mostafa confirma que a queda do presidente Ben Ali após manifestações de milhares de tunisianos inspirou os egípcios. “O que aconteceu na Tunísia foi bom alarme para a gente, de que existe o poder das pessoas e que a gente não precisa de ajuda de fora. As pessoas elas mesmas têm que se unir e sair às ruas e pedir. Funcionou na Tunísia."
Mas ele destaca que junto com a felicidade vem a preocupação. “Estou feliz que finalmente todo mundo teve a mesma coragem. Mas por outro lado me preocupo que não dê certo, porque pode chegar uma situação bem mais difícil."
Após as últimas ações de repressão do governo, ele próprio relata ter tido dificuldade em receber notícias de conhecidos no Egito. “A única pessoa com quem consegui falar foi minha mãe. Mas meus primos, alguns amigos, já sumiram mesmo, não consigo entrar em contato, o celular está fora de área sempre, já sabemos que o Facebook e o Twitter foram bloqueados, não sei o que aconteceu com eles. Estou um pouco preocupado."
Sobre o futuro, Ahmed e Mustafa apontam que as manifestações devem marcar o país, mas temem que uma reação violenta do Exército contra a população mantenha o atual governo por mais tempo.
“É difícil imaginar o que vai acontecer. É uma coisa totalmente nova para os egípcios. Ou o Exército vai ficar do lado das pessoas e tirar o presidente, e aí o país recomeça [seu governo] do zero; ou então, o que acho que é mais provável, o Exército fica do lado do presidente e aí realmente vai haver muita tristeza no Egito”, diz Mustafa.
“As pessoas vão sofrem sim com a violência porque o regime de Mubarak é muito mais forte do que o regime que caiu na Tunísia. Não será fácil retirar o presidente. Pelo menos, Mubarak não deve participar da próxima eleição”, pondera Ahmed.
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