Para especialistas, protestos contra ditaduras em países árabes podem ter efeito dominó na região

Andréia Martins
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Primeiro foi a Tunísia. Uma série de manifestações durante quase um mês encerraram, depois de 23 anos, o governo do ditador Ben Ali. O feito serviu de exemplo para o Egito. Após 18 dias de protestos sem intervenção das Forças Armadas, Hosni Mubarak renunciou depois de 30 anos no poder. Na opinião de especialistas, a crise política que atinge esses e outros países árabes no Norte da África e também no Oriente Médio está gerando um efeito dominó na região e pode servir para quebrar o medo da população com relação aos regimes ditatoriais.

Iêmen, Líbia, Jordânia, Argélia, Bahrein, são alguns dos países que durante a última semana registraram diversas manifestações contrárias aos regimes que governam os países. Em alguns casos, os conflitos foram reprimidos com violência pelas forças governistas, em outros houve mortes, centenas de feridos, até mesmo a proibição de protestos. Mesmo assim, o lema dos opositores parece ser o adotado pelos egípcios: as manifestações só acabam quando o regime cair.

Apesar da onda de otimismo trazida pelas renúncias na Tunísia e no Egito, o cientista político da USP, João Paulo Candia Veiga, avalia que cada conflito precisa ser analisado separadamente, especialmente quando se questiona a influência desses protestos em países africanos governados por regimes autoritários.

 

“Os países são diferentes e são impactados de forma diferente pelos protestos. Veja o caso da Argélia onde há um governo autoritário que parece ter controle da situação. Lá os militares deram um golpe de estado em 1992. Na Tunísia e no Egito, a variável chave foi o papel das Forças Armadas, o que pode ou não se repetir nos outros países”, diz Veiga.

Já o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, acredita que a onda de protestos pode ganhar força justamente pelas semelhanças nas reinvindicações, como concentração de renda, corrupção no governo, aumento no preço dos alimentos, uma economia voltada para o petróleo, além do fator demográfico. "Uma nova geração de jovens que, embora tenha formação intelectual, não encontra oportunidades no mercado de trabalho. Como resultado, ela se organiza usando a internet, as redes sociais”, diz Nasser.

A capacidade de organização da população é outra questão a ser avaliada, já que em alguns países africanos, as condições socioeconômicas pesam e dificultam a organização da população.

“Um dos pontos chave é avaliar condição da população de se organizar. E em alguns países, a possibilidade de existir disposição para um levante popular capaz de depor um governante é muito difícil”, diz Veiga, sem descartar que, apesar dos obstáculos, a possibilidade existe.

Um ponto chave na revoução, segundo os especialistas, é o papel das Forças Armadas, crucial para as renúncias de Mubarak e Ben Ali, que se viram sem o apoio dos militares para dar sequência aos seus mandatos.

“No Egito, a Força Armada preferiu não se intrometer na política para preservar o seu status quo. Quando perceberam que não era mais conveniente manter Mubarak no poder, eles se desfizeram dele. Acredito que é o que pode acontecer nesses outros países, a partir do momento que os levantes ganharem força”, diz Nasser. Para ele, apesar da repressão violenta por parte da policia aos opositores no Iêmen e no Bharein, é possível que os militares mudem de lado.

Ao mesmo tempo, o uso da força é uma demonstração de que os levantes populares são de fato um risco à manutenção dos atuais regimes.

“[No Iêmen, Líbia e em Bahrein] a policia já está respondendo de forma muito agressiva, exatamente porque precisam dar demonstrações de que não permitirão o mesmo resultado do Egito e Tunísia. Todos os líderes temem e enxergam o risco hoje, não à toa vários países anunciaram mudanças para diminuir o risco de levantes como libertação de prisioneiros, pagamento direto às famílias, entre outros”, comenta Veiga.

“O Egito é uma referência na região. Por isso, para os demais países, olhar e ver que a população derrubou um governo de 30 anos, reduz o medo, é sinal de que tudo pode acontecer”, diz Nasser.  

Outro fator que pode ser decisivo nessas manifestações é a pressão da comunidade internacional. “Especialmente os Estados Unidos, que até agora não se manifestaram de forma relevante. No caso da Líbia, [Muammar] Gaddafi caiu nas graças dos EUA desde 2004, há empresas petrolíferas no país, ou seja, existem outras questões. Mas a pressão internacional para acabar com as ditaduras, algumas vistas apenas como governos mais enérgicos, é fundamental para o êxito das manifestações”, diz Nasser.

  • Mapa mostra os países do norte da África e do Oriente Médio, região que vive uma onda de protestos populares por reformas democráticas e melhores condições econômicas

Principais conflitos no mundo árabe

Egito 18 dias de protestos derrubaram o então presidente Hosni Mubarak depois de 30 anos no poder. No lugar dele, assumiu uma junta militar que promete ficar apenas seis meses no poder, promover eleições, revogar a atual Constituição e dissolver o Congresso
Tunísia Após 23 anos no governo, o então presidente Zine el-Abidine Bem deixa o poder e refugia-se na Arábia Saudita com a família. É acusado de corrupção e violação de direitos humanos. Um governo de transição assume e promete promover eleições
Jordânia Há 12 anos no poder, o rei Abdullah II mudou a equipe de governo e anunciou reformas. Também adotou a austeridade econômica. A proximidade com a política do governo dos EUA e a ocidentalização do país, entre outras questões, são alvo de reações populares. Nos últimos dias, houve protestos na região
Iêmen O presidente Ali Abdullah Saleh está no poder há mais de três décadas, depois de um golpe militar. O mandato presidencial é de sete anos, mas a cada votação, Saleh tem sido reeleito. Saleh declarou que permanece no cargo até 2013, mesmo assim, milhares de manifestantes querem acelerar a transição
Líbia Muammar Gaddafi está no poder há 41 anos. O clima de tensão é constante no país. A partir de 1970, foram expulsos da Líbia os militares estrangeiros e decretada a nacionalização das empresas, dos bancos e dos recursos petrolíferos do país
Argélia No poder há mais de uma década, o presidente Abdelaziz Bouteflika é acusado de comandar o país de forma autoritária e não democrática. Cultos religiosos não islâmicos são limitados, assim como a ação da imprensa é alvo de proibições

Crise no Oriente Médio e países vizinhos

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