Crise na Líbia: EUA movem tropas na região
Do UOL Notícias*
Em São Paulo
O exército americano está posicionando forças navais e aéreas na região da Líbia, informou o Pentágono nesta segunda-feira (28), no momento em que potências ocidentais analisam a possibilidade de uma intervenção militar contra o regime do coronel Muamar Gaddafi.
Segundo o porta-voz do Pentágono, coronel Dave Lapan, o exército norte-americano está estudando "vários planos de contingência". "Como parte disso, estamos reposicionando forças, para que ofereçam essa flexibilidade uma vez que as decisões forem tomadas", declarou o porta-voz à imprensa.
A mobilização de "forças navais e aéreas" daria ao presidente americano Barack Obama um leque de possibilidades diante da crise, disse Lapan, sem especificar que navios ou aviões receberam a ordem de se reposicionar, nem que possíveis ações estariam sendo consideradas.
"Meu povo me ama"
De sua parte, Muammar Gaddafi, líder da autoproclamada República Árabe Líbia Popular e Socialista, afirmou a jornalistas estrangeiros que é amado por seu povo e não tem nenhum cargo ao qual renunciar.
"Todo meu povo me ama. Eles morreriam para me proteger", afirmou o líder líbio, em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, do canal norte-americano ABC.
Gaddafi, que se diz líder da revolução, reiterou que não pode renunciar a seu papel de liderança, já que não é um simples rei ou um simples presidente, de acordo com sua lógica.
O ditador também se negou a admitir que existam demonstrações de opositores nas ruas de Trípoli e voltou a culpar a organização terrorista Al Qaeda pelos confrontos no país.
Negociação?
Gaddafi teria encarregado o chefe da inteligência líbia no exterior, Abuzed Dorda, de dialogar com os dirigentes rebeldes da parte oriental do país, segundo informou hoje a rede de televisão "Al Jazeera".
Um correspondente da rede informou que Gaddafi tentou abrir canais de contato com os chefes das tribos, mas estes rejeitaram negociar diretamente com ele.
País dividido
As forças de oposição líbias anunciaram no final de semana a criação de um Conselho Nacional com representantes de todas as zonas do país livres do controle político de Gaddafi.
Abdelhafiz Hoga, porta-voz da chamada Coalizão Revolucionária do 17 de Fevereiro, afirmou em Benghazi, segunda maior cidade do país e controlada pela oposição, que a missão desse conselho será "dirigir o processo de transição".
"Não é um governo de transição. Trata-se de um Conselho Nacional que terá sua sede em Benghazi, porque Trípoli não está livre", enfatizou o porta-voz da coalizão, que coordena as ações políticas nas diversas cidades ocupadas pelos oposicionistas do regime de Gaddafi.
Veja cidade dominada por rebeldes na Líbia
Hoga não mencionou quem será o presidente desse órgão nem por quantos membros ele será integrado, mas assinalou que o conselho está agora em processo de formação e que incluirá representantes de todas as cidades.
Retomada do petróleo
A oposição líbia retomou nesta segunda-feira as exportações de petróleo com um cargueiro que partiu com destino à China, informou à AFP um chefe do comitê civil de Tobruk.
"O petroleiro terminou de ser carregado às 16h30 locais (12h30 de Brasília). Foram necessárias três horas para terminar todos os procedimentos antes de zarpar", disse Fethi Faraj, responsável do comitê civil de Tobruk e conselheiro da Agoco (Arabian Gulf Oil Company), um dos produtores de petróleo na Líbia.
"O barco parte com destino à China e leva em torno de 1 milhão de barris", completou Faraj.
Mais cedo, o comissário europeu para a Energia, Guenther Oettinger, afirmou, em Bruxelas (Bélgica), que a maior parte dos campos de petróleo e de gás do país estão nas mãos de clãs regionais ou de líderes locais que surgiram durante a recente revolta popular naquele país.
“Temos todas as razões para acreditar que os grandes campos de exploração [de gás e de petróleo] não estão mais nas mãos de Khadafi, mas, sim, sob o controle de tribos e de forças provisórias que assumiram o poder”, disse Oettinger.
Em seguida, o representante europeu para a área de energia acrescentou que: “Decidimos não impor um bloqueio para não penalizar as pessoas que não estão atingidas pelas sanções”.
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De acordo com a União Europeia, o gás líbio representa menos de 3% do volume total do mercado do bloco e a venda de petróleo é de cerca de 10%. A Líbia é o nono maior exportador entre os 12 membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e um dos quatro principais produtores de petróleo da África.
Retorno de brasileiros
Segundo o Itamaraty, os 148 brasileiros que deixaram a Líbia de navio neste final de semana devem chegar hoje ao Brasil.
Este grupo de brasileiros estava na Líbia a serviço da empreiteira Queiroz Galvão, que fretou o transporte para saída do país africano: primeiro de navio, até a Grécia, depois de avião, da Grécia até o Brasil.
O avião fará uma breve escala em Lisboa (Portugal), antes de seguir para Recife, onde deve chegar no fim da tarde. De lá, segundo o Itamaraty, cada brasileiros seguirá para o seu Estado de origem.
Reação internacional
A violência com que o ditador líbio vem reprimindo os protestos contra o seu governo foram criticadas por diversas organizações internacionais e resultaram em um pacote de sanções da ONU e da comunidade internacional.
Nesta segunda-feira, a União Europeia confirmou as sanções unilaterais aprovadas na semana passada contra o ditador líbio, que incluem embargo de armas, congelamento de seus bens e proibição de viajar aos países do bloco.
Por sua vez, a secretária de Estado americano, Hillary Clinton, disse que o “povo da Líbia já fez sua escolha” e que o ditador Gaddafi deve deixar o poder “sem mais violência”.
"Muammar Gaddafi e aqueles ao seu redor precisam ser responsabilizados. Por suas ações, eles perderam direito de governar. O povo decretou que é hora de eles irem. Agora, sem atraso", disse a secretária de Estado americana.
“Nós vamos continuar a explorar todas as opções possíveis para a ação. Como já dissemos, nada está fora da mesa enquanto o governo da Líbia continua a ameaçar e matar os líbios”, completou Hillary em referências às sanções impostas pela ONU e pela comunidade internacional à Líbia.
"Estamos muito preocupados com a situação humanitária", disse Hillary, ressaltando que Washington dedicará 10 milhões de dólares adicionais em ajuda de emergência para atender às necessidades dos líbios, assim como de trabalhadores imigrantes arrebatados pela violência.
"Também vamos enviar imediatamente duas equipes de especialistas em ajuda humanitária às fronteiras com Tunísia e Egito para ajudar as pessoas que fogem da violência", declarou aos jornalistas.
Tribunal Penal Internacional
O escritório do procurador-geral do Tribunal Penal Internacional (TPI) começou nesta segunda-feira a examinar as violências cometidas desde meados de fevereiro contra a população civil na Líbia, a fim de estabelecer se elas constituem crimes contra a humanidade.
Localização da Líbia
"O escritório (do procurador) examina atualmente as acusações de ataques em grande escala ou sistemáticos contra a população civil", declarou Luis Moreno-Ocampo durante uma coletiva de imprensa em Haia. "Isto pode constituir crimes contra a humanidade e deve acabar", acrescentou.
O exame preliminar, que começou a ser conduzido nesta segunda-feira, é a etapa prioritária para qualquer abertura de investigação e para emissão de mandados de prisão pelo TPI, primeiro tribunal internacional a permitir o julgamento de autores de crimes de guerra, contra a humanidade e genocídio.
"Estamos prontos para agir o mais rápido possível", afirmou Moreno-Ocampo, destacando que a decisão sobre a abertura eventual de uma investigação será tomada "nos próximos dias".
O escritório do procurador deseja igualmente examinar fotos e vídeos confirmando que os supostos crimes foram cometidos, continuou. "Se pessoas estivessem em uma praça e fossem atacadas por tanques, aviões e soldados, e se essas pessoas fossem mortas sistematicamente, então isso seria caracterizado como crime contra a humanidade", afirmou Moreno-Ocampo.
Esta é a segunda vez na história do TPI, que começou a funcionar em 2002, que o escritório do procurador é convocado diretamente pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas para realizar uma investigação.
Em 2005, o Conselho de Segurança havia pedido para Moreno-Ocampo que investigasse as violências cometidas em Darfur, levando a emissão de mandados de prisão contra o presidente sudanês Omar al-Bashir por crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio, em março de 2009 e julho de 2010.
*Com agências internacionais
Crise no Oriente Médio e países vizinhos
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