Crise no mundo árabe

Revolta popular na Arábia Saudita desencadearia crise no petróleo, afirmam especialistas

Thiago Chaves-Scarelli*
Do UOL Notícias<br> Em São Paulo

  • Amr Nabil/AP Photo

    Rei Abdullah bin Abdul Aziz, que comanda uma monarquia islâmica na Arábia Saudita. Ele controla 20% do petróleo mundial e coordena investimentos militares bilionários em uma região instável, o que faz dele um aliado fundamental para os Estados Unidos. No entanto, a onda de revoltas democráticas na região pode colocar em xeque esse reinado

    Rei Abdullah bin Abdul Aziz, que comanda uma monarquia islâmica na Arábia Saudita. Ele controla 20% do petróleo mundial e coordena investimentos militares bilionários em uma região instável, o que faz dele um aliado fundamental para os Estados Unidos. No entanto, a onda de revoltas democráticas na região pode colocar em xeque esse reinado

O Reino da Arábia Saudita, vizinho de Egito, do Iêmen e de outros países que já embarcaram na recente onda de levantes populares na região, também sofre dos mesmos males políticos e econômicos que estão despertando as revoltas, o que faz dele um forte candidato a também ver seu regime questionado. A diferença, alertam os analistas, é que ali está a maior reserva de petróleo do mundo.

“Os elementos comuns que causam essas revoltas são basicamente de ordem política e econômica. Politicamente: estados ditatoriais, ausência de eleições, inexistência de organizações na sociedade civil, controle de poder por elites familiares. Economicamente: dependência da renda do petróleo, economia altamente concentrada. E isso tudo compõe a Arábia Saudita por excelência”, argumenta Reginaldo Nasser, doutor em Ciências Sociais e professor de Relações Internacionais na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.

Outro sinal de alerta é a movimentação nas redes sociais da internet, uma característica que se tornou recorrente nas revoltas árabes. Atualmente, uma campanha no Facebook convida os sauditas para um “dia de fúria” na próxima sexta-feira (11).

Entre as demandas divulgadas nas redes sociais estão a eleição direta dos governantes, a independência do poder Judiciário, liberdade política, liberdade de expressão, salário mínimo acima de dois mil dólares, reforma das Forças Armadas e igualdade de direitos para as mulheres.

Apesar do fôlego da economia do país, a taxa de desemprego em 2009 ultrapassou 10%. Até hoje a Arábia Saudita é uma monarquia e o rei exerce ao mesmo tempo a função de chefe de Estado e chefe do governo. Nunca houve um Parlamento eleito no reino, dissidências públicas não são toleradas e o sistema Judiciário é baseado amplamente na lei islâmica tradicional.

“A insatisfação na Arábia Saudita também não é de agora. Ela acaba não sendo tão visível quanto a dos outros países porque, como se trata de um aliado dos EUA, Washington tenta falar menos do assunto. Mas a Arábia Saudita é um dos países mais autoritários da região”, afirma Cristina Pecequilo, doutora em Ciência Política pela USP e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Arábia Saudita

“O regime saudita, além de ser um dos mais autoritários, é um dos mais fundamentalistas da região. Em relação aos direitos femininos, a Arábia Saudita é tão ruim quanto o Afeganistão”, acrescenta.

O perigo do petróleo

Nesse cenário, a onda de revolta teria chão fértil e bons motivos para tomar conta da Arábia Saudita. O grande diferencial com relação aos antecessores está nos 264 bilhões de barris de petróleo que repousam nas reservas do país – a maior reserva do mundo, equivalente a um quinto do atual estoque do planeta.

O mar de petróleo vem acompanhado de um mar de preocupações. Em 2009, a Arábia Saudita gastou o equivalente a 11,2% de seu PIB em investimentos militares, segundo números do Banco Mundial, o que lhe garante o maior índice do planeta. Polônia e Noruega, com PIBs próximos ao da Arábia Saudita, gastam entre 1,5% e 2%. Os Estados Unidos, que precisam bancar grandes campanhas militares em andamento, gasta entre 4% e 5%. O Brasil gasta 1,7%.

Os analistas são unânimes ao antecipar que qualquer incerteza quanto ao governo no comando dessa fortuna teria efeitos diretos no mercado mundial de petróleo, que tem  efeito cascata em grande parte dos mercados financeiros e industriais do mundo todo.

“Poderíamos assistir a uma crise semelhante à crise de 1973 ou à crise de 1979. Esse elemento do petróleo é muito preocupante”, compara Pecequilo, referindo-se à crise do petróleo desencadeada pelo embargo da produção durante a guerra do Yom Kippur e à crise decorrente da Revolução Iraniana, respectivamente.

Apesar de concordar que o mercado reagiria com a incerteza, Reginaldo Nasser pondera que grande parte desse medo seria apenas temor sem justificativa. “Nenhum desses movimentos [de revolta popular] cogitam cortar petróleo. Para esses grupos que estão em rebelião e querem chegar ao poder, não tem lógica afetar essa enorme fonte de riqueza, é muita especulação. Mas o mercado é isso mesmo, sem dúvida teria repercussão muito maior do que já teve Líbia e Egito”.

 

Evitando que a crise chegue

Para evitar esse quadro sombrio nos mercados internacionais e prevenir sua própria queda repentina, os governantes sauditas já começaram a reagir.

“Eu costumo dizer que os governantes sabem mais dos problemas de seu país do que nós. O rei saudita, que retornou de um período hospitalizado na Europa, anunciou um pacote bilionário de medidas sociais, visando, claro, a revolta que poderia acontecer”, lembra Reginaldo Nasser.

“A preocupação existe. E não é uma preocupação só da Arábia Saudita, mas também dos Estados Unidos”, acrescenta Pecequilo, destacando os interesses norte-americanos na estabilidade do Oriente Médio e do mercado de petróleo.

“Por isso Washington tenta pressionar os sauditas para que se antecipem ao movimento”, afirma a analista. “Ou seja, estão trabalhando com a possibilidade de que a própria família real conduza essa eventual transição. Se essa aposta não der certo, haverá um problema geoestratégico muito grande”.

Mas para isso, seria necessário que a elite governante abrisse mão de parte de seus benefícios, além de incorporar reformas democráticas. “É aquela questão do efeito dominó. À medida que os dominós vão caindo, existe uma preocupação imediata. Mas é possível que eles sinalizem aos grupos insatisfeitos que haverá mudanças e desacelerem o processo”, diz Pecequilo.

*Com informações de agências internacionais

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