Países que menos contribuem para aquecimento global serão os mais afetados, diz estudo

Andréia Martins
Do UOL Notícias<br>Em São Paulo

Muito já se sabe a respeito de como as plantas e animais reagem às mudanças climáticas. Agora, tentando traçar um mapa a respeito das populações, o cientista canadense Jason Samson decidiu aplicar as mesmas ferramentas analíticas que medem o impacto das alterações no clima para esses dois grupos para calcular o impacto na população mundial. Os resultados não são nada animadores.

No estudo, Samson e outro grupo de analistas combinaram dados sobre as alterações climáticas com os censos que abrangem quase 97% da população mundial a fim de prever quais seriam as principais alterações nas populações locais até 2050.

  • Arte UOL

    Mapa destaca a América do Sul, o centro-sul da África, sul da Ásia e a península árabe; estudo mostra que devido à localização geográfica essas serão as regiões mais afetadas pelas mudanças climáticas

“A conclusão mais importante do meu estudo é que os países que contribuem menos para as alterações climáticas são aqueles que vão sofrer as piores consequências das mudanças climáticas”, diz Samson em entrevista por e-mail ao UOL Notícias.

Isso quer dizer que os países industrializados, reconhecidos historicamente como os responsáveis pela maior parte das emissões globais de gases de efeito estufa no planeta, entre eles China e Estados Unidos, sofreriam um menor impacto do aquecimento global devido à sua localização.

Os estudiosos da equipe de Samson descobriram também que se a população mundial continuar a crescer rapidamente como hoje, a população que ficará mais vulnerável às mudanças climáticas serão aquelas que vivem em países de baixa latitude, mais próximos à linha do Equador, e em áreas mais quentes do globo, como a América do Sul, a península árabe, grande parte da África e o sul da Ásia.

Nessas regiões, Samson alerta que um pequeno aumento da temperatura trará sérias consequências para a população.

“Essa teoria faz sentido por que as pessoas que residem em áreas mais quentes já enfrentam muitos desafios para, por exemplo, trabalhar com a agricultura. Um aumento da temperatura nas próximas décadas só irá dificultar ainda mais as suas vidas”, diz o cientista.

“Veja a Somália. Lá é tão quente que já é difícil cultivar coisas e isso só vai piorar se a temperatura aumentar. O que também é claro é que a Somália não é um grande emissor de gases de efeito estufa na atmosfera. Com esse mapa, temos evidências quantitativas da disparidade entre as causas e consequências das mudanças climáticas”, completa.

Para chegar a essa conclusão, Samson e sua equipe se basearam no Índice de Vulnerabilidade Climática Demográfica (CDVI), criado por eles para o estudo. O índice fornece uma média das consequências da mudança climática nos países usando como base os números relativos às emissões de CO2/população, fornecidos pela Agência de Energia Internacional (IEA, na sigla em inglês), e o resultado da subtração entre o aumento anual da temperatura e a densidade demográfica do país.

“Uma análise regionalizada das relações entre a distribuição da população humana e do clima proporciona um novo quadro para o desenvolvimento de novos índices globais da vulnerabilidade humana às mudanças climáticas”, conclui o estudo.

Samson começou a estudar o impacto das mudanças climáticas na população mundial há cerca de dois anos.

“Sempre me interessei pelas razões que levam as pessoas a viverem em diferentes partes do planeta, mas comecei minha pesquisa científica há dois anos. Eu estava trabalhando em minha tese de doutorado, tentando entender como as mudanças climáticas podem influenciar a densidade das populações de castores em toda a província de Quebec, onde moro. Estava tentando encontrar outras espécies para analisar e logo percebi que a espécie humana foi, de longe, a mais interessante de estudar”, diz o cientista.

Agora, Samson espera que as informações levantadas pelo estudo possam servir para organizações ligadas à área ambiental e aos políticos.

 

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