Quem assumirá o lugar do venezuelano Hugo Chávez se sua saúde fraca o retirar do poder?

William Neuman
The New York Times, em Caracas (Venezuela)

  • Ariana Cubillos/AP

    O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, acena para a multidão que o acompanhou durante sua inscrição como candidato nas eleições presidenciais do país em outubro

    O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, acena para a multidão que o acompanhou durante sua inscrição como candidato nas eleições presidenciais do país em outubro

O presidente Hugo Chávez é a atuação solo inconteste, 24 horas por dia, sete dias por semana, da política venezuelana, seu elemento supremo. Ele faz suas próprias leis, com um golpe de caneta. Ele expropria prédios e empresas com um aceno. Seu rosto sorri em outdoors e cartazes. Ele publica seus pensamentos no Twitter. Ele fala na televisão por horas a fio. Ele até canta e dança.

Mas depois de quase 14 anos como presidente da Venezuela, Chávez está lutando contra o câncer enquanto entra numa disputada campanha pela reeleição, deixando muitos dos que o adoram e muitos que o desprezam se perguntando quem tomará o seu lugar se a saúde fraca o retirar do governo, antes ou depois das eleições de 7 de outubro.

Uma transição tão repentina seria difícil em qualquer país, mas será ainda mais na Venezuela, onde Chávez construiu um Estado que gira em torno de sua personalidade desmedida e onde nenhum sucessor claro surgiu até agora.

"Eis-me diante de vocês novamente", disse Chávez, 57, a uma grande multidão de apoiadores na última segunda-feira (11) depois de se registrar formalmente como candidato. Ele tem sido pouco visto nos últimos meses por causa de sua doença, mas descartou o que chamou de rumores "necrófilos" de que ele estava prestes a morrer e buscando um sucessor, e previu que vencerá a reeleição por nocaute.

Um dia antes, o oponente de Chávez, Henrique Capriles Radonski, 39, liderou uma multidão de pessoas durante uma marcha por mais de nove quilômetros por Caracas que parecia ter a intenção de enfatizar o contraste entre sua juventude e vigor e a saúde frágil de Chávez. O presidente, vestido com um casaco de mangas compridas num dia quente, chegou para seu discurso numa plataforma em cima de um caminhão de campanha.

"Eles têm um grande problema", disse Armando Briquet, gerente de campanha de Capriles, que deixou seu cargo de governador este mês. "Chávez é como uma empresa familiar na qual o chefe da família não deixa nenhum de seus filhos crescer profissionalmente e ultrapassá-lo."

Enquanto Chávez se recusou a divulgar detalhes de sua doença, evitou nomear um sucessor político, o que levou a apostas frenéticas, especialmente entre seus críticos, sobre quem é o próximo da fila.

"Estamos no escuro", disse Carolina Fontalvo, 33, garçonete que antes apoiava Chávez, mas agora tem planos de votar contra ele. "É como se eles quisessem que as pessoas ficassem adivinhando."

Pedro Diaz, 63, contador, disse que a situação política indefinida faz com que ele se sinta impotente e ansioso. "Sinto isso no meu estômago", disse.

Mas para os que acreditam verdadeiramente no movimento de Chávez, conhecido como chavismo, qualquer discussão sobre possíveis sucessores é descartada. "Vamos ter Chávez até dois mil e sempre", afirmou Edelio Rebolledo, 76, funcionário aposentado do governo. "Chávez será o candidato. Esqueça tudo."

Observadores políticos dividem o círculo de Chávez em dois ou três grupos principais, cada um dos quais contêm um desafiante ao seu cargo.

Um grupo é liderado por dois nomeados de Chávez, o ministro de Exterior Nicolas Maduro e o vice-presidente Elias Jaua. Ambos são esquerdistas de longa data em harmonia com os apoiadores socialistas mais linha-dura de Chávez, que acreditam verdadeiramente no que ele chama de Revolução Bolivariana.

Outro grupo é liderado por Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional e número 2 no Partido Socialista Unido da Venezuela, o partido de Chávez. Cabello é ex-soldado que participou do golpe fracassado de 1992 liderado por Chávez, que lançou o futuro presidente no cenário nacional. Cabello tem laços estreitos com os militares --uma base de poder importantíssima-- e com a comunidade empresarial.

E também há a família de Chávez. Alguns veem seu irmão mais velho, Adan, governador do Estado natal de Chávez, Barinas, como uma escolha possível. Duas das filhas de Chávez, Rosa Virginia e Maria Gabriela, também são mencionadas às vezes como candidatas que podem manter o nome da família nas urnas. Mas nenhum deles tem o carisma e a conexão visceral que Chávez tem com os eleitores. Isso vale especialmente para Adan Chávez, cujas aparições em público têm uma qualidade sonolenta que evoca as vastas planícies do Estado que ele governa.

Cabello tem uma língua afiada e inflamada com uma reputação maquiavélica, mas não é popular – uma espécie de Newt Gingrich socialista. Ele costuma ser retratado como parte do que os seguidores de Chávez chamam de direito endógeno, uma ala mais conservadora dentro do movimento de Chávez. Apesar de suas camisas vermelhas e pronunciamentos inflamados, Cabello é amplamente associado com os novos-ricos do país, os empresários que enriqueceram de forma fabulosa ao fazer negócio com o governo socialista, normalmente bebendo de sua vasta riqueza em petróleo ou garantindo contratos do governo.

Todos esses homens ascenderam e caíram pelas palavras de Chávez. Cabello era persona non grata até o final do ano passado, quando Chávez repentinamente devolveu-lhe a proeminência. Maduro e Jaua pareciam escondidos confortavelmente até que Chávez anunciasse que eles deixariam seus cargos para concorrer ao governo de Estados controlados pela oposição.

Mas tudo isso foi antes de Chávez descobrir em fevereiro que seu câncer, que havia aparecido no ano passado, havia retornado. Ele começou a viajar para Cuba para fazer cirurgias e uma série de tratamentos de radioterapia, que terminaram no mês passado.

Os tratamentos o deixaram fraco e enviaram-no para a reclusão, o que desencadeou uma nova rodada de especulações sobre o que aconteceria se ele estivesse muito doente para continuar concorrendo à reeleição.

A necessidade de um plano B parece óbvia, mas é difícil encontrar alguém entre os apoiadores de Chávez disposto a discutir isso.

"Hoje isso não é uma coisa presente na mente dos venezuelanos", disse Jesse Chacon, ex-ministro de gabinete que administra uma firma de pesquisa próxima ao governo. Chacon citou pesquisas mostrando que a maioria dos venezuelanos acredita que Chávez recuperará sua saúde e planeja votar nele.

Mas os oponentes de Chávez dedicaram inúmeras páginas impressas e horas de televisão discutindo os "e se". Eles se deleitam com a luta pelo poder imaginado. E saboreiam a ideia de que Capriles possa concorrer com um dos discípulos menos carismáticos de Chávez.

Chávez tem uma liderança confortável sobre Capriles em quase todas as pesquisas. Mas políticos da oposição dizem que as pesquisas feitas pelo campo de Chávez mostram que Capriles derrotaria qualquer um dos prováveis sucessores a Chávez se ele não concorrer.

Numa manhã recente, cartazes grandes apareceram em uma das ruas principais de Caracas, mostrando Cabello com o punho erguido, com a intenção de promovê-lo como candidato presidencial.

Embora acredite-se que o poster tenha sido obra de provocadores da oposição, ele enfatizou o quanto o tema é delicado para o campo de Chávez, gerando uma resposta rápida de Cabello. "Nosso único candidato é Chávez", disse ele em sua conta de Twitter. E culpou os membros da oposição pelos pôsteres, dizendo: "eles acreditam que colocando pôsteres com o meu nome irão ganhar votos" ou dividir os seguidores de Chávez.

A maioria dos analistas concorda que Chávez provavelmente continuará sendo candidato de seu partido e favorito para vencer em outubro. Mas as especulações também se concentraram no que aconteceria se ele morresse ou renunciasse depois de iniciar um novo mandato no início do ano que vem.

De acordo com a constituição, se um presidente deixa o governo ou morre nos primeiros quatro dias do mandato de seis anos, o vice-presidente assume seu lugar e novas eleições devem ser realizadas dentro de 30 dias. Isso significa que a escolha de Chávez para a vice-presidência, um cargo nomeado, pode dar a indicação mais clara de quem ele quer que o suceda. O maior obstáculo pode ser a realidade política altamente personalizada que ele criou.

"Não há ninguém na oposição ou dentro do chavismo que possa equiparar sua liderança", disse Chacon, o pesquisador. "Ele é um desses seres humanos que aparece uma vez a cada século."

Tradutor: Eloise De Vylder
 

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