Em primeiro discurso, presidente eleito defende novo rumo para o Paraguai

Do UOL, em São Paulo

  • Jorge Adorno/Reuters

    Ao lado de apoiadores, Horacio Cartes celebra, em Assunção (Paraguai), a vitória nas eleições presidenciais

    Ao lado de apoiadores, Horacio Cartes celebra, em Assunção (Paraguai), a vitória nas eleições presidenciais

Em seu primeiro discurso como presidente eleito do Paraguai, Horacio Cartes reafirmou o compromisso que defendeu ao longo da campanha de "dar um novo rumo ao país". "Na campanha eleitoral, falávamos que queríamos um novo rumo para o Paraguai. E quero reafirmar o compromisso assumido e ratificar agora ao Partido Colorado e a todos os outros partidos e àqueles que não pertencem a partido político algum, que ganhou o Paraguai, e o compromisso é com todos os paraguaios da república", disse.

Cartes também prometeu trabalhar "para todos os paraguaios", especialmente os mais necessitados, pessoas da terceira idade, os jovens e as mulheres. "Sinto que posso trabalhar para os mais de seis milhões de paraguaios de meu país", disse.

Cartes foi eleito com mais de 45% dos votos, superando o governista Efraín Alegre, que ficou em segundo lugar com 36, 84%.  Alegre assumiu sua derrota  antes do anúncio dos resultados preliminares oficiais do Tribunal Superior de Justiça Eleitoral (TSJE). "Fizemos um esforço extraordinário (...) Não foi possível [a vitória]", disse. "O povo paraguaio se pronunciou e nós respeitamos sua decisão nas urnas", acrescentou Alegre, candidato da Aliança Paraguai Alegre formada pelo Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) e o pequeno Partido Democrático Progressista.

O novo presidente assumirá o cargo em 15 de agosto, substituindo Federico Franco, que concluiu o mandato iniciado em 2008 pelo ex-bispo católico Fernando Lugo, destituído pelo Congresso em junho passado, acusado de "mal desempenho de suas funções".

Desafios

O próximo mandatário terá como desafio reintegrar o Paraguai ao Mercosul e à Unasul, já que o país está suspenso das duas organizações desde a queda de Lugo. Nesse interim, o Mercosul conseguiu integrar a Venezuela ao bloco, o que não tinha ocorrido ainda por rejeição do Congresso paraguaio.

Outra questão a ser enfrentada é a pobreza, que atinge 49,6% dos paraguaios, segundo dados do Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), vinculado à ONU (Organização das Nações Unidas). No campo, a taxa sobe para 59,3%.

RAIO-X DO PARAGUAI

Arte/UOL
Nome oficial: República do Paraguai

Capital: Assunção

Localização: América do Sul

Superfície: 406.750 km²

População: 7.356.789

Moeda: Guarani

Idioma oficial: Espanhol e Guarani

PIB per capita: US$ 5.400

Religião: Católica (89,6%), Protestante (6,2%), outra (1,9%)

Governo: Presidencialista

Principais atividades econômicas: agricultura (grãos e sementes), comércio e geração de energia

O Paraguai possui hoje o segundo pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), com 0,669 pontos, atrás apenas da Guiana (0,636). O país possui ainda uma das maiores concentrações de renda e de terra do continente, que provoca conflitos entre "carperos" --como são chamados os sem-terra-- e "brasiguaios", imigrantes brasileiros que adquiriram terras a preços baixos nas décadas de 60 a 80 e hoje formam a elite agrária do país.

Nas relações com o Brasil, o novo presidente terá que mostrar habilidade para conduzir as negociações em torno do valor pago pela energia de Itaipu. O tratado entre os dois países prevê que cada lado utilize 50% da energia. O Paraguai só consome 5% a que tem dinheiro e vende o restante ao Brasil por US$ 8,40 o MW/h, valor ínfimo se comparado ao que o Brasil paga em leilões de energia (mais de US$ 60).

Em negociações com o governo brasileiro, Lugo conseguiu elevar o valor em 200%, o que é considerado insuficiente tanto por Cartes, como por Alegre.

Por fim, o novo mandatário terá que encontrar maneiras de tornar mais eficaz o combate ao narcotráfico e ao contrabando. O Paraguai é rota do tráfico internacional de drogas e é por onde boa parte dos entorpecentes entra no Brasil.

Berlusconi paraguaio

Neófito na política, Cartes ingressou no Partido Colorado em 2009, quando a sigla vivia um momento de profunda crise por conta da derrota histórica, no ano anterior, da candidata Blanca Ovelar, que obteve 30,7% dos votos contra 40,8% do ex-bispo Fernando Lugo. Derrotados, os colorados deixaram a presidência após 60 anos consecutivos e se desapoderaram da máquina pública.

Cartes evita falar sobre sua fortuna e costuma dizer que lhe atribuem cem vezes mais o montante que tem. O colorado é dono de um conglomerado de 25 empresas --a maior parte do ramo tabagista-- e desde 2001 preside o Libertad, clube de Assunção que acumula oito títulos nacionais e 11 participações seguidas na Libertadores da América após a ascensão de Cartes ao mais alto posto da agremiação.

Tais características permitem comparar o empresário com o ex-premiê italiano Silvio Berlusconi, que detém um império de empresas de telecomunicações e que atuam no ramo financeiro, além de presidir o Milan desde 1986, ininterruptamente.

O dinheiro de Cartes oxigenou o Partido Colorado e ajudou o partido a se reestruturar. Em contrapartida, o empresário conseguiu que a legenda reformasse seus estatutos para que ele pudesse disputar a presidência do país. Embora tenha adquirido adversários internos, Cartes conseguiu articular unidade entre os colorados, tirando de cena velhos quadros do partido desprestigiados.

Mas a biografia de Cartes não é feita só de fama. O empresário frequentemente tem imagem associada a ilegalidades. Na década de 80, chegou a ficar alguns meses preso por evasão de divisas. Ele era acusado de comprar dólares por valores abaixo dos regulares e negociá-los pelo valor paralelo.

Sobre o candidato colorado recaem ainda suspeitas de ligação com uma rede de lavagem de dinheiro e narcotráfico, conforme telegrama vazado pelo WikiLeaks em 2010. No Brasil, o colorado foi citado na CPI da Pirataria, em 2004, que apontou que uma de suas empresas do ramo de tabaco fazia contrabando de cigarros.

Quando confrontando pelas acusações, Cartes as nega e afirma que nunca foi condenado pela Justiça.

O candidato também costuma dizer que é o maior pagador de impostos do Paraguai e se vangloria de quantidade de empregados que tem. "Se Deus me deu habilidades na vida empresarial, acredito ter condições para usar essas habilidades na política", disse Cartes, em entrevista à AFP.

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