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Condenada por vazar documentos, Chelsea Manning agora quer um lugar no Senado dos EUA

Chelsea Manning em seu apartamento em North Bethesda, Maryland - Patrick Semansky/AP
Chelsea Manning em seu apartamento em North Bethesda, Maryland Imagem: Patrick Semansky/AP

David McFadden

Da Associated Press

10/05/2018 04h00

Chelsea Manning já não é mais uma mulher transgênero vivendo em uma prisão militar masculina, cumprindo a pena mais longa da história por revelar segredos governamentais dos Estados Unidos. Ela é livre para deixar o cabelo crescer, viajar o mundo e passar o tempo com quem gosta.

Mas um ano após o presidente Barack Obama ter comutado a pena de 35 anos de Manning, a famosa norte-americana não está de férias prolongadas. Longe disso: a jovem, natural de Oklahoma, decidiu se candidatar para o Senado dos EUA em seu estado adotivo de Maryland.

Manning, 30, se inscreveu para concorrer à eleição em janeiro e foi registrada como eleitora de Maryland em agosto. Ela mora em North Bethesda, não muito longe de onde ela ficou enquanto aguardava julgamento na casa de uma tia.

Seu objetivo é pegar a cadeira ocupada pelo senador Ben Cardin, um democrata de 74 anos que pretende conseguir seu terceiro mandato no Senado e que antes serviu por 10 mandatos no Congresso.

Manning, que também se tornou internacionalmente reconhecida como uma ativista transgênero, disse que é motivada por um desejo de lutar contra o que ela considera uma onda crescente de repressão.

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“A ascensão do autoritarismo está invadindo cada aspecto de nossas vidas, seja governamental, corporativa ou tecnologicamente”, disse Manning à agência de notícias Associated Press durante uma entrevista em seu apartamento em um edifício de luxo.

Nas paredes de sua sala pouco mobiliada estão pendurados o perdão oficial de Obama e fotos da anarquista norte-americana Emma Goldman e do autor britânico Oscar Wilde.

Ordem de comutação  - Patrick Semansky/AP - Patrick Semansky/AP
Ordem de comutação emitida pelo ex-presidente Barack Obama fica pendurada na sala de estar de Manning
Imagem: Patrick Semansky/AP

A campanha de Manning para as eleições primárias de 26 de junho parece ser uma das menos ortodoxas da história recente das corridas por vagas no Senado, e a candidata parece estar longe do “manual” do partido. Ela diz que não se considera de fato uma democrata, mas que se motiva por um desejo de chacoalhar os democratas que estão que estão "cedendo" à administração do presidente Donald Trump. Ela promete que não irá concorrer como independente se perder as primárias.

Manning certamente tem propostas interessantes: fechar prisões e libertar detentos, eliminar as fronteiras nacionais, reestruturar o sistema judiciário, fornecer saúde pública universal e estabelecer um salário mínimo. O principal de sua agenda política? Abolir a Imigração e Alfândega dos EUA, uma agência federal criada em 2003 que, segundo Manning, planeja fazer uma limpeza étnica no país.

Manning também assinala algumas experiências de vida que acredita que a tornariam uma boa senadora: ter vivido por um período nas ruas de Chicago, ter trabalhado como analista de inteligência do exército norte-americano no Iraque — e até mesmo seus sete anos na prisão. Ela afirma ter uma “visão maior” do que a dos políticos convencionais.

18.abril.2018 - Chelsea Manning discursa para participantes de um protesto em Baltimore - Patrick Semansky/AP - Patrick Semansky/AP
Chelsea Manning discursa para participantes de um protesto em Baltimore
Imagem: Patrick Semansky/AP

Candidatura como protesto

Analistas políticos, contudo, suspeitam que a Manning não esteja concorrendo para ganhar.

“Manning está concorrendo como uma candidata-protesto, há uma longa linhagem deles na história americana, ela quer jogar uma luz sobre o império americano”, disse Daniel Schlozman, professor de ciência política na Universidade John Hopkins. “Essa é uma meta muito diferente, com uma campanha bastante diferente da que ela faria se realmente quisesse derrotar Ben Cardin”.

A candidatura de Manning tem sido até agora propositalmente despojada, com poucas aparições públicas e um site que acabou de ser colocado no ar. Nos últimos dias, ela se aproximou de uma manifestação contra métodos agressivos de exploração de petróleo em Baltimore discretamente, sem chamar atenção para si. Mas quando chegou sua vez de falar para o pequeno grupo de manifestantes, seu status de celebridade ficou evidente. Pessoas que nunca a tinham encontrado a chamaram pelo primeiro nome e tiraram dezenas de fotos.

18.abril.2018 - Chelsea Manning, direita, posa com a reverenda Annie Chambers em uma manifestação em Baltimore - Patrick Semansky/AP - Patrick Semansky/AP
Chelsea Manning posa com a reverenda Annie Chambers em uma manifestação em Baltimore
Imagem: Patrick Semansky/AP

Acusação no Wikileaks

Manning conscientemente vazou mais de 700 mil documentos militares e do Departamento de Estado dos Estados Unidos para o site WikiLeaks em 2010. Ela disse que queria incentivar o debate sobre a política estrangeira norte-americana, e foi vista tanto como heroína quanto traidora.

Conhecida como Bradley Manning na época de sua prisão, ela se assumiu transgênero depois do julgamento na corte marcial em 2013. Ela foi proibida de deixar seu cabelo crescer na prisão e só foi aprovada para receber hormonoterapia após o final do litígio. Ela passou longos períodos na solitária e tentou se matar duas vezes.

Chelsea Manning era conhecida como Bradley Manning na época de sua prisão, mas se assumiu trans durante seu tempo encarcerada - AFP/Saul Loeb/US Army - AFP/Saul Loeb/US Army
Chelsea Manning era conhecida como Bradley Manning na época de sua prisão, mas se assumiu trans durante o tempo em que esteve presa
Imagem: AFP/Saul Loeb/US Army

O Pentágono, que repetidamente se negou a discutir o tratamento que Manning estava recebendo na prisão militar, também se manteve calado diante de suas ambições políticas. Oficiais do Partido Democrata disseram que não têm comentários, citando a política de não escolher lados nas primárias. Os republicanos também estão quietos.

Em Maryland, um estado democrata que abriga dezenas de milhares de funcionários federais e contratados de defesa, parece que os principais apoiadores de Manning são independentes ou pessoas de um movimento contra políticos, o que dificulta uma união política em seu favor. Ela recentemente reportou que recebeu no primeiro trimestre do ano US$ 72 mil (R$ 255 mil) de financiamento, Cardin, em comparação, declarou ter recebido US$ 336 mil (R$ 1,1 milhão) no mesmo período.

A candidata mal fez um esforço para explorar fontes de financiamento fora dos círculos de ativismo. E é fácil encontrar democratas que acham que sua candidatura é apenas um meio para impulsionar sua imagem pública.

“Isso me parece quase como uma turnê de lançamento de livro — este é o momento dela após sair da prisão”, disse Dana Beyer, uma mulher trans que lidera a ONG Gender Rights Maryland e também é uma candidata democrata para o senado. “Eu não acho que seja um esforço sério”.

Manning de fato está trabalhando em um livro sobre sua vida dramática. Por enquanto, ela diz que se sustenta com palestras. Ela palestrou em diversas universidades dos Estados Unidos e irá se apresentar na conferência de Montreal no final do mês.

2.maio.2018 - Chelsea Manning discursa em na conferência Re:publica em Berlim, Alemanha - Axel Schmidt/Reuters - Axel Schmidt/Reuters
Chelsea Manning discursa na conferência Re:publica em Berlim
Imagem: Axel Schmidt/Reuters

Na última semana, ela apareceu em uma conferência de tecnologia em Berlim, sendo recebida com entusiasmo por milhares de pessoas.

“Há uma espécie de culto à personalidade que é realmente intimidante e que é esmagador para mim”, disse Manning em Berlim.

Em seu apartamento em Maryland, Manning disse à AP que ela por vezes acorda em pânico achando que está de volta à cela no Kuwait, onde foi presa pela primeira vez, ou encarcerada na base da Marinha em Quantico, Virgínia, onde uma autoridade da ONU concluiu que foi submetida a "tratamentos cruéis, desumanos e degradantes". Ela trabalha duro para superar transtornos de ansiedade, e foca em ioga, exercícios de respiração e leitura para isso.

Eu estou solta faz quase um ano e tem ficado bastante claro para mim quão profundas são as feridas."

Quando perguntada sobre como definiria sucesso, Manning respondeu com entusiasmo: “sucesso para mim é sobreviver”.

2.maio.2018 - Antiga soldada norte-americana, Chelsea Manning discursa na convenção de tecnologia Re:publica em Berlim - Tobias Schwarz/AFP - Tobias Schwarz/AFP
Imagem: Tobias Schwarz/AFP