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EUA e Irã se acusam de terroristas; algum país está certo?

07.jan.2020 - Milhares acompanham o funeral do general Qassim Suleimani em Kerman, no Irã - ATTA KENARE/AFP
07.jan.2020 - Milhares acompanham o funeral do general Qassim Suleimani em Kerman, no Irã Imagem: ATTA KENARE/AFP

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

10/01/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Para especialistas, não é possível classificar atos dos EUA e Irã como terrorismo
  • Segundo estudiosos, o que está ocorrendo é uma "violação direta da soberania" dos países
  • EUA acusam Irã de fazer com que grupos terroristas atuem contra alvos norte-americanos
  • Já governo americano têm histórico de envolvimento com paramilícias

Após ataque coordenado pelos EUA contra um aeroporto em Bagdá, no Iraque, que matou Qasem Soleimani, o chefe da Força Revolucionária da Guarda Quds do Irã, considerado um dos homens mais importantes do país, EUA e Irã estão em tensão.

Ambos os países têm classificado as ações do rival como atos terroristas. Especialistas em relações internacionais e em segurança pública, porém, rechaçam que tenham ocorrido atos de terrorismo. O que tem ocorrido, segundo eles, é uma violação da soberania.

Para Lucas Leite, professor de Relações Internacionais da Faap, há em ação um jogo de narrativas. "O que ocorreu foi uma violação direta de soberania dos dois países. São dois Estados soberanos com ataques coordenados para buscar posição e retaliar um ao outro", afirmou.

Após o ataque americano que matou o segundo homem mais poderoso do Irã, o país viveu em apenas 24 horas uma sequência de tragédias: ao menos 56 pessoas morreram pisoteadas no funeral do general Qassim Suleimani, um terremoto atingiu o sudoeste do país e um avião caiu deixando 176 mortos.

Ainda não se sabe se a queda da aeronave se relaciona com a crise com os EUA — Canadá, Reino Unido e agentes americanos dizem que o Irã derrubou acidentalmente a aeronave, o que o governo iraniano nega —, e o tremor de terra aparentemente tem causas naturais. Ainda assim, a sequência de fatos eleva a tensão na área já conturbada. Na quarta, o Irã assumiu a autoria de disparos contra bases americanas no vizinho Iraque.

'Países usam termo terrorismo para se acusarem'

Rafael Alcadipani, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e especialista em segurança pública), diz que os movimentos violentos, porém, não podem ser tachados como atos terroristas. "Na atual conjuntura, um país tenta usar o termo terrorismo para acusar o outro governo de fazer ações ilegítimas para roer a credibilidade desses governos. Tanto os EUA como o Irã", explica.

Segundo o professor, não existe uma definição única sobre terrorismo. "Geralmente, terrorismo envolve grupos que não estão no poder e que se utilizam de táticas de violência para tentar gerar um fato político, para amedrontar uma população ou um grupo e, assim, impor sua vontade", disse.

No caso do Irã, o país tem se apoiado em grupos terroristas que atuam dentro da sua geopolítica, segundo especialistas. É isso o que explica, parcialmente, a morte do general. Os EUA acusam os iranianos de fazer com que grupos terroristas atuem contra alvos norte-americanos, financiando organizações paramilitares.

Por outro lado, os EUA têm histórico de envolvimento com paramilícias e, em muitos momentos, utilizaram-se do terror para poder também impor a sua vontade política e desestabilizar regiões e governos, no Oriente Médio, por exemplo.

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Brasil tem lei que classifica terrorismo

No Brasil, há uma lei que classifica o que é o o que não é terrorismo. "No terrorismo, o ato tem que ter como motivação etnia, religiosidade, condições humanas ou preconceito, por exemplo", cita a desembargadora Ivana David.

"No nosso ordenamento jurídico, cometer atos preparatórios já constitui crime de terrorismo, é uma das poucas exceções. Aqui, é um crime hediondo e imprescritível", explicou a magistrada.

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