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'Não seremos passivos', diz governo ucraniano sobre crise com a Rússia

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente dos EUA, Joe Biden - Angela Weiss e Alexey Druzhinin/AFP
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente dos EUA, Joe Biden Imagem: Angela Weiss e Alexey Druzhinin/AFP

Colaboração para o UOL, em Brasília

26/01/2022 08h13

O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, disse que o país não aceitará que as grandes potências que tentam apaziguar a crise geopolítica travada na fronteira com a Rússia tomem decisões em nome do governo ucraniano.

"Se alguém fizer uma concessão à Ucrânia, pelas costas da Ucrânia, primeiro, não aceitaremos isso. Não estaremos na posição do país que pega o telefone, ouve a instrução da grande potência e a segue", disse Kuleba ontem, em entrevista à CNN. "Pagamos muito --incluindo a vida de 15.000 de nossos cidadãos-- para garantir o direito de decidir nosso próprio futuro, nosso próprio destino", insistiu o ministro.

O comentário vem num momento em que os Estados Unidos e países da União Europeia buscam formas de conter o avanço de tropas militares russas em território ucraniano. O Kremlin (sede do governo russo) nega que esteja planejando invadir a Ucrânia.

Na semana passada, o vice-ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Ryabkov, disse que o país eurasiático não tomaria nenhuma medida agressiva. "Não atacaremos ou invadiremos a Ucrânia", afirmou.

A crise no Leste Europeu —que opõe a Rússia à Ucrânia e ao Ocidente, representado pela aliança militar Otan— pode provocar uma guerra em solo europeu, segundo projetam serviços de inteligência dos EUA e autoridades europeias.

A Rússia já iniciou grandes ataques internacionais anteriormente: na Chechênia em 1999, na Geórgia em 2008, na Síria em 2015 e na Criméia (região separatista da Ucrânia) desde 2014.

Mas uma invasão em grande escala de um país enorme como a Ucrânia, que faz fronteira com a União Europeia e é bem abastecido com armas do Ocidente pode desencadear um conflito bélico sem precedentes.

Mal-entendido com os EUA

À CNN, Kuleba disse não ter dúvidas sobre o compromisso do governo norte-americano em defender a Ucrânia, apesar de comentários do presidente Joe Biden sugerindo, na seman passada, que uma "pequena incursão" das tropas russas pode não levar a uma resposta severa da Otan.

"O presidente Biden está pessoalmente comprometido com a Ucrânia. Ele conhece este país e não quer que a Rússia o destrua", disse Kuleba.

"Ouvimos desses funcionários dos EUA, falando abertamente com a mídia, mas também falando comigo e com outros funcionários ucranianos diretamente por telefone, que os EUA permanecerão comprometidos em enfrentar a Rússia se qualquer tipo de incursão, invasão, interferência ocorrer", acrescentou.

Em dezembro, autoridades norte-americanas disseram ter identificado sinais de que a Rússia se preparava para uma ofensiva militar contra a Ucrânia envolvendo até 175 mil soldados.

No início de janeiro, relatório de inteligência emitido pelo governo ucraniano disse que a Rússia enviou tropas de suas regiões central e leste em direção à sua fronteira ocidental "de forma permanente".

Nas últimas semanas, a Rússia moveu "arsenais de munição, hospitais de campanha e serviços de segurança", o que, segundo a Ucrânia, "confirma a preparação para operações ofensivas".

Na avaliação de Kuleb, Putin "deu um tiro no próprio pé" com o aumento das tropas, acrescentando que há pouco que Moscou possa ganhar com o cenário atual.

"Ele se colocou nessa situação, ninguém mais o empurrou nesse impasse", disse Kuleba. "O conjunto de demandas apresentadas pela Rússia é projetado de forma que, se a Rússia estiver disposta a agir de boa fé, existe a possibilidade de sair da sala de negociações e dizer que fizemos um acordo."

A Rússia pediu aos EUA e à Otan garantias de segurança, incluindo promessas de que a Otan não admitirá a Ucrânia no bloco. Putin enfatizou que essas demandas não são um "ultimato", e Kuleba acredita que a Rússia está disposta a abrir o diálogo.

Interferência do Ocidente agrava crise, diz Putin

Putin tem afirmado que o Ocidente está "agravando" o conflito na Ucrânia, ao realizar exercícios militares no Mar Negro: "Nossos parceiros ocidentais estão agravando a situação, fornecendo a Kiev armas modernas letais e conduzindo manobras militares ousadas no Mar Negro."

Em conversa com o presidente francês, Emmanuel Macron, em novembro do ano passado, o presidente russo descreveu como "provocação" as manobras militares realizadas pelos EUA e pela Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) na região.

O Mar Negro é uma região importante para a Rússia, que controla a península da Crimeia depois de anexá-la da Ucrânia em 2014. Desde então, Kiev tem travado um conflito com rebeldes pró-Rússia no leste do país, que já custou mais de 13 mil vidas.

Especulações ocidentais sobre os planos da Rússia no leste da Ucrânia surgiram em meio a um confronto sobre uma crise de imigrantes na fronteira com Belarus, alinhada ao Kremlin, e a Polônia, membro da UE.