China tem desenvolvimento mais sustentável do mundo nos últimos 20 anos

Maria Denise Galvani
Do UOL, em São Paulo

Crescimento anual médio do Índice de Riqueza Inclusiva, do PIB e do IDH de 20 países

Índice de Riqueza Inclusiva (%) PIB (%) IDH (%)
China (2,1) China (9,6) China (1,7)
Alemanha (1,8) Índia (4,5) Índia (1,4)
França (1,4) Chile (4,5) Nigéria (1,3)
Chile (1,2) Nigéria (2,5) Brasil (0,9)
Brasil (0,9) Noruega (2,3) Colômbia (0,9)
Índia (0.9) Austrália (2,2) Rússia (0,8)
Japão (0,9) Reino Unido (2,2) Venezuela (0,8)
Reino Unido (0,9) Equador (1,8) Alemanha (0,7)
Estados Unidos (0,7) Estados Unidos (1,8) Chile (0,7)
Noruega (0,7) Colômbia (1,7) França (0,7)
Canadá (0,4) Brasil (1,6) Equador (0,6)
Equador (0,4) Canadá (1,6) Noruega (0,6)
Austrália (0,1) Alemanha (1,5) Reino Unido (0,6)
Quênia (0,1) África do Sul (1,3) Arábia Saudia (0,5)
África do Sul (-0,1) França (1,3) Japão (0,4)
Colômbia (-0,1) Venezuela (1,3) Quênia (0,4)
Rússia (-0,3) Rússia (1,2) Austrália (0,3)
Venezuela (-0,3) Japão (1,0) Canadá (0,3)
Arábia Saudita (-1,1) Arábia Saudita (0,4) Estados Unidos (0,2)
Nigéria (-1,8) Quênia (0,1) África do Sul (-0,1)

A evolução do Índice de Riqueza Inclusiva, nova medida de desenvolvimento sustentável lançada pela ONU, revela uma situação pouco esperada pelo senso comum: entre 20 países analisados, a China foi o que apresentou os melhores resultados.

O desenvolvimento sustentável foi medido pela ONU como o ritmo de crescimento médio do Índice de Riqueza Inclusiva. Na média dos anos entre 1990 e 2008, o índice da China foi de 2,1%. A Alemanha e a França aparecem em seguida, com 1,8% e 1,4%, respectivamente. Em quarto lugar está um país latinoamericano, o Chile, cujo índice cresceu em média 1,2% ao ano. Brasil, Índia, Japão e Reino Unido empatam em quinto lugar, com média de 0,9% ao ano.

Entre os 20 casos analisados no estudo, a Nigéria é o país que vai pior em termos de desenvolvimento sustentável, precedida pela Arábia Saudita. Outros quatro países – Colômbia, África do Sul, Rússia e Venezuela – também obtiveram médias negativas na evolução do Índice de Riqueza Inclusiva. Isso quer dizer que, na soma de seus capitais econômico, social e ambiental, estes países estão andando para trás na escala do desenvolvimento.

"O índice combina a variação de três tipos de capitais: o capital da produção, o capital humano e o capital natural de cada país", explica Anantha Duraiappah, diretor executivo da Universidade das Nações Unidas sobre Mudança Ambiental Global (UNU-IHDP). "Dentre esses, o capital natural é o mais diícil de ser mensurado. Nós o fizemos a partir do conceito de 'serviços ambientais' prestado pelo ecossistema e pela tecnologia de cada país, como o grau de renovação da água, o sequestro de gás carbônico na atmosfera ou a polinização."

No caso da China, o acúmulo de capital humano é o principal fator puxando o crescimento de seu Índice de Riqueza Inclusiva; o capital natural, isoladamente, está sendo depreciado -- só que o desenvolvimento humano e econômico são tão grandes, que superam largamente as perdas para o meio ambiente.

Para chegar ao índice, o estudo considerou a variação de três tipos de recursos: capital econômico (equivalente ao PIB), capital humano (levando em conta indicadores de educação, emprego e saúde) e capital natural (o estoque de recursos energéticos, minerais, florestais, área agrícola e área de pesca).

O novo cálculo apresentado neste domingo (17) pela ONU, em parceiria com o Programa das Nações Unidas para o Meio-Ambientee (PNUMA), propõe integrar outros aspectos além do crescimento econômico para medir o grau de desenvolvimento de um país. O estudo foi divulgado durante a Rio+20, Conferência da ONU para o Desenvolvimento Sustentável.

Nos fórums especializados da Rio+20, espera-se avançar na definição de indicadores de desenvolvimento sustentável que vão além do puro crescimento econômico, medido hoje universalmente via PIB. "A maior inovação deste índice é a integração do capital natural à medida do desenvolvimento. Ele vai além do PIB e também além do IDH, nos termos do que a sociedade considera hoje desenvolvimento sustentável", afirma o diretor científico do estudo, Pablo Munoz.

A ideia é medir o Índice de Riqueza Inclusiva a cada dois anos e ampliar o número de países analisados, para acompanhar os resultados de diferentes modelos de desenvolvimento. "Na próxima edição consideramos ainda chegar  a um parâmetro para medir o capital social de um país . Este ainda é um conceito difícil de ser medido, mas que reflete a qualidade das instituições e das relações sociais de um país", diz Duraiappah.

Contexto

A substituição do Produto Interno Bruto -- a soma de todas as riquezas produzidas por um país -- por outro indicador de desenvolvimento pode ser uma das contribuições da Rio+20 para a comunidade internacional.

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A consequência prática dessa mudança de paradigma seria que não só o crescimento do PIB, mas a melhoria de indicadores ambientais e sociais motivassem as políticas de cada país. O desafio é chegar a um índice que leve em conta as várias dimensões do desenvolvimento sustentável e seja aplicável internacionalmente, passível de ser medido em todos os países.

Desde a Rio92, quando a revisão do PIB como indicador de desenvolvimento já estava em pauta, surgiram propostas de redefinição do indicador. Poucas, no entanto, foram testadas na prática e adotadas internacionalmente.

A mais conhecida e utilizada das medidas de desenvolvimento alternativas ao PIB é o Índice de Desenvolvimento Humano, medido pela ONU desde 1990. Em 2010, o Índice passou por uma reformulação, a fim de refletir melhor os valores da sociedade com relação a desenvolvimento sustentável.

Em 2011, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) lançou o primeiro índice internacional de bem-estar subjetivo, baseado em pesquisas de satisfação individual, com 34 países membros da organização.

Departamentos de estatísticas de alguns países também propuseram índices mais complexos de desenvolvimento sustentável.

Veja na tabela a seguir alguns dos índices e iniciativas nacionais que pretendem reformular o conceito de desenvolvimento.

Índices de Desenvolvimento alternativos ao PIB

Indicador Quem mede Composição do Índice
Índice de Desenvolvimento Humano Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas Saúde (expectativa de vida ao nascer) + Educação (anos de escolaridade média e escolaridade básica prevista) + Padrões de vida (Renda nacional per capita)
Indicador de bem-estar "Como vai a vida?" Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) Pesquisas de satisfação pessoal em 11 aspectos da vida, como renda, condições de emprego, saúde, habitação e educação
Índice de performance econômica, qualidade de vida e sustentabilidade Conselho de Especialistas em Economia, Alemanha Bem-estar material (PIB per capita e por hora trabalhada, medidas de desemprego e desigualdade) + Qualidade de vida (saúde, educação, participação política) + Sustentabilidade (volume de emissões, investimento em tecnologias sustentáveis)
Índice de Bem-Estar Centro de Estudos de Padrões de Vida, Canadá Fluxos de consumo + Riqueza acumulada + Desigualdade da renda e intensidade da pobreza + Segurança econômica
PIB Verde Escritório Nacional de Estatística, China PIB do país, ajustado com a estimativa das perdas econômicas em decorrência da poluição
Felicidade Nacional Bruta Governo do Butão Pesquisas sobre satisfação pessoal com relação a nove campos, como "bem-estar psicológico", saúde, uso do tempo e vida em comunidade

 



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