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No final, COP25 segue longe de uma resposta firme à emergência climática

Faixa é pendurada do lado de fora do prédio da ONU onde acontece a Conferência sobre Mudanças Climáticas, em Madri. No protesto, se lê "Nossa política está poluída". - Reuters
Faixa é pendurada do lado de fora do prédio da ONU onde acontece a Conferência sobre Mudanças Climáticas, em Madri. No protesto, se lê "Nossa política está poluída". Imagem: Reuters

13/12/2019 10h34

A comunidade internacional entra hoje na reta final da COP25, que corre o risco de ser encerrada sem o impulso exigido pela ciência e pela sociedade civil para evitar uma catástrofe climática.

Quatro anos após a assinatura do Acordo de Paris, a ciência elevou ao máximo o alerta a respeito do aquecimento global, com seus efeitos devastadores manifestando-se por eventos climáticos extremos.

A jovem ativista ambiental Greta Thunberg, eleita "personalidade do ano" pela revista Time, trouxe para a COP25 de Madri a voz da juventude, cujo clamor foi sentido com força sem precedentes nesta conferência anual da ONU.

Thunberg, alvo nos últimos dias de Donald Trump e Jair Bolsonaro, vai liderar nesta sexta em Turim (Itália) uma nova greve estudantil pelo clima que será replicada em dezenas de cidades, incluindo Madri.

Mas o entusiasmo político com o qual o Acordo de Paris foi assinado, a fim de limitar o aumento da temperatura a menos de + 2ºC e, idealmente, a +1,5ºC, parece perder força, enquanto o multilateralismo retrocede e os nacionalismos se espalham.

"Os governos não podem voltar para casa com um pacto que dilua o Acordo de Paris", alertou Alison Tate, da Confederação Sindical Internacional.

Cerca de 200 países são convidados a encerrar um capítulo essencial do Acordo, que prevê a regulamentação dos mercados de carbono, um sistema de troca de emissões projetado para acelerar sua redução.

Também era esperado que mostrassem sua determinação em aumentar suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa até 2020 para alcançar uma segurança climática de +1,5°C.

Mas grandes emissores como China e Índia, e também o Brasil, descartaram ações no curto prazo. Muito menos os Estados Unidos, que anunciou sua retirada do Acordo de Paris.

Somente a União Europeia aprovou em uma cúpula em Bruxelas a meta de atingir a neutralidade de carbono em 2050, mas o pacto não inclui a Polônia, um dos países membros mais poluentes.

O texto atualmente discutido "é completamente inaceitável" por sua falta de ambição, lamentou nesta sexta a diretora do Greenpeace, Jennifer Morgan.

Morgan instou a UE a "rejeitar o texto do bloco" e disse que espera que a presidência chilena da COP25 contribua para as negociações. "Ainda não vi a liderança necessária" no Chile, apontou.

Enquanto a ONU estima a necessidade de uma redução de 7,6% anualmente entre 2020 e 2030, as emissões de CO2 continuaram a aumentar em 2019 em todo o mundo.

No ritmo atual, a temperatura global pode subir 4 ou 5ºC no final do século em comparação com a era pré-industrial e comprometer o futuro das próximas gerações.

Papel do Brasil

Na mesa de negociações, a resposta não apenas se afasta do caminho da ação climática, mas alguns membros até questionam sua urgência.

Dois grupos surgiram: "Quem quer ir mais rápido e quem quer se esconder no que tem sido insuficiente para, assim, não seguir em frente", lamentou a ministra da Transição Ecológica da Espanha, Teresa Ribera.

O Brasil, como condição para o avanço nas negociações, exige que os países ricos concretizem sua promessa de apoiar financeiramente as nações em desenvolvimento para enfrentar e se adaptar às mudanças climáticas.

Os países em desenvolvimento "não são os que provocam as emissões". Os mais ricos "devem cumprir sua promessa sobre os fundos", disse o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, à AFP.

Morgan criticou ferozmente o Brasil: "Está claro em que grupo está aqui, na indústria e nos atores poluentes. O Brasil parece estar aqui em busca de dinheiro".

"Estamos consternados com o estado das negociações", admitiu Carlos Fuller, negociador-chefe de um grupo de 44 Estados insulares, muitos dos quais enfrentam uma ameaça existencial devido ao aumento do nível do mar.

"É como se o que acontece no mundo real e nas ruas com os manifestantes não existisse", disse Alden Meyer, um veterano observador das negociações. "Aqui estamos em um mundo imaginário".