Um eleitor teimoso de Ohio previu nesta quarta-feira (08/12) que o 2 de novembro de 2004 --o dia da eleição-- passará para a história norte-americana, juntamente com o 7 de dezembro de 1941 --Dia de Pearl Harbour-- como símbolo similar "de infâmia".
Outros juraram que o dia da decisão ainda está por vir, porque, segundo eles, ainda não se sabe se os 20 votos dos delegados de Ohio no Colégio Eleitoral servirão para reeleger o presidente Bush ou para presentear o candidato democrata John Kerry com uma tardia vitória-surpresa.
"Esta eleição de 2004 ainda não acabou", garante Susan Truitt, uma das fundadoras da organização Citizens Alliance for Secure Elections, de Ohio.
"Os desafios legais não podem terminar. Deveria haver um debate no Congresso sobre aquilo que ocorreu", disse o reverendo Jesse Jackson.
Três dias após Bush proclamar oficialmente que ganhou a eleição em Ohio por uma diferença de 119 mil votos, congressistas democratas decepcionados convidaram vários incrédulos para comparecerem ao Congresso a fim expressarem o seu desafio e descontentamento. Nesse fórum, os membros da minoria do Comitê da Câmara para o Judiciário disseram que não deixariam morrer a questão da alegada manipulação eleitoral.
"O que mais me perguntei quanto às irregularidades em Ohio foi se John Kerry é o verdadeiro vencedor da eleição", disse o deputado John Conyers, democrata por Michigan, falando aos membros da minoria no comitê. "O fato é que realmente não sei".
"É uma infelicidade o fato de não haver um número maior de norte-americanos chocados com a situação que presenciamos em Ohio", diz a deputada Sheila Jackson Lee, democrata pelo Texas. "É evidente que o Partido Republicano em níveis local, estadual e nacional está se empenhando ao máximo para garantir que não seja efetuada a contagem de todos os votos".
Na última segunda-feira, o secretário de Estado de Ohio, J. Kenneth Blackwell, um republicano, divulgou a contagem final dos votos.
"Ohio teve uma grande eleição", disse nesta quarta o porta-voz de Blackwell, Carlo LaParo. Ele disse que os jornais do Estado investigaram "essas teorias conspiratórias" e descobriram que elas são infundadas.
Segundo ele, havia fiscais de urnas democratas e republicanos em todas as seções eleitorais. A eleição foi administrada por comissões eleitorais bipartidárias --cada uma das quais consistindo de dois republicanos e dois democratas-- e os funcionários dessas comissões endossaram os resultados finais, afirma.
No entanto, democratas e membros de outros grupos ainda estão exigindo uma recontagem estadual.
"A recontagem ocorrerá ainda que o Colégio Eleitoral já tenha votado formalmente em Bush para presidente", prevê John Bonifaz, advogado do candidato presidencial pelo Partido Verde, David Cobb, e do candidato pelo Partido Libertário, Michael Badnarik. Segundo a lei federal, o Colégio Eleitoral deve se reunir em 13 de dezembro.
"Se, ao final do processo de recontagem, for determinado que um conjunto diferente de delegados deva representar o povo de Ohio, esse grupo de delegados se reunirá e votará no seu candidato a presidente", assegura Bonifaz. "E se isso acontecer, o Congresso dos Estados Unidos receberá os votos de dois conjuntos diferentes de delegados do Estado de Ohio, quando se reunir em 6 de janeiro de 2005".
"E a luta continuará", prometeu ele, provocando sonoros aplausos da platéia.
Enquanto isso, mais de um mês após ter reconhecido a derrota, Kerry divulgou uma declaração encorajando o questionamento contínuo da eleição.
"É fundamental que investiguemos e entendamos toda e qualquer irregularidade ocorrida em qualquer lugar do país, não só porque isso modificaria o resultado da eleição, mas também porque os norte-americanos precisam acreditar que os seus votos são contados na nossa democracia", afirmou.
"Quero que todos os votos sejam contados nesta eleição, mas quero também garantir que não haja questões e dúvidas nas futuras eleições".
Testemunhas no fórum afirmaram que há indicações de que as eleições foram fraudadas em Ohio: longas filas e urnas eletrônicas quebradas em distritos predominantemente afro-americanos reduziram o número de votos para os democratas.
As primeiras pesquisas de boca de urna mostrando Kerry na liderança foram tão diferentes da contagem oficial que a única explicação possível é uma manipulação dos resultados. Aos prováveis eleitores democratas foi negado o recurso da votação por correio, e eles receberam ainda falsas informações sobre onde e como votarem. Urnas provisórias deixaram de ser fornecidas ou não tiveram os seus votos contados.
LaParo chama essas acusações de "irresponsáveis" e "ultrajantes". Ohio registrou o maior comparecimento de eleitores na sua história --5,7 milhões de eleitores compareceram às urnas, contra 4,9 milhões em 2000, disse ele.
Mas as críticas abundaram no fórum do Congresso.
"Dezenas de milhares de eleitores entraram em contato com o meu escritório, alguns com palavras de apoio, outros fornecendo pistas para investigações. E houve também aqueles que só queriam expressar a sua raiva porque --mais uma vez-- o seu voto não contou", disse Conyers.
Muita gente fez fila para manifestar o seu descontentamento com o resultado das votações. Um homem comparou a eleição em Ohio à da Ucrânia, e ou outro previu que o protesto contra ambas as eleições implicará uma reversão dos resultados.
Conyers diz que Blackwell foi convidado a comparecer ao fórum mas declinou o convite. "É absurdo", disse LaParo, referindo-se às acusações. "A retórica não corresponde aos fatos".