Estão diminuindo as ocasiões para se falar de Watergate, de forma que não se deve deixá-las passar. A morte do presidente Gerald Ford oferece tal momento, o lado positivo de um evento triste.
Ford certamente foi o presidente mais peculiar dos EUA. Como tem sido repetido até a exaustão desde sua morte, Ford chegou ao poder quando o vice-presidente Spiro Agnew revelou ser o canalha que há muito parecia ser, ao receber uma mala cheia de propina em seu gabinete. (Oh, os bons velhos tempos, quando havia de fato homens com maletas em vez de transferências por computador para várias partes do mundo, de forma digital.)
Assim, o presidente Nixon nomeou Ford, na época um senador, para o cargo vago quando Agnew saiu sorrateiramente. O Congresso, o lar político de Ford por longa data, sem surpresa o aprovou e então, quando Nixon renunciou antes do impeachment, lá estava Ford, presidente para surpresa de todos, inclusive dele.
Você não conseguiria inventar essas coisas mesmo se tentasse.
Com abordagens moderadas, de bom senso, para as questões domésticas, Ford acalmou o combate que tornou os anos Nixon conturbados. O modo saqueador das trevas de Nixon e gosto —necessidade na verdade— por disputas partidárias intermináveis, um marco desde sua eleição ao Congresso, cansaram a todos.
Ford quase estragou suas boas-vindas um mês após tomar posse, quando concedeu perdão pleno a Nixon. Uma nação condicionada por Nixon a suspeitar de motivos escusos, agendas ocultas e impostura geral se perguntava se Ford tinha comprado a presidência em um acordo de bastidores que trocou o perdão pelo cargo.
E houve reclamações, doloridas e justas, de dois pesos e duas medidas na Justiça. A alta inicial de Ford nas pesquisas despencou e nunca mais se recuperou plenamente. Para muitos, uma taciturnidade amarga se estabeleceu. Ela nunca se dissipou totalmente.
A conduta constitucional ilegal de Nixon era certa, mas acusações criminais também pairavam sobre ele. A perspectiva de mais anos de Watergate, à medida que acusações —especialmente de obstrução da Justiça— fossem impetradas, contestadas, julgadas e, com uma condenação, apeladas e sentenciadas, foi evitada.
A história em grande parte endossou o perdão. O escalpo de Nixon não era digno do pesar que certamente provocaria. (E a nação evitou o caminho do meio. Eu sempre imaginei que, no fundo, Nixon era um tamanho medíocre que deveria ter sido arrastado não para um ostentoso julgamento político, mas para um tribunal noturno, onde lidaria com o martelo do juiz e sairia algemado junto com outros escroques insignificantes.)
Com a morte de Ford, a antiga discussão foi retomada, apesar de que desta vez sem força, quase por dever e sem os rancores da original. Houve um "quid pro quo" corrupto? Claramente não. Nixon escapou com algo? Mais ou menos.
Mas não escapou com muito. Ford, apesar de ser um amigo próximo de Nixon, sempre se agarrou a um veredicto da Suprema Corte de 1915, que afirmava que um perdão implica culpa e a aceitação dele implica confissão. Assim, Ford, em sua mente, ofereceu à história Nixon não como um inocente, mas como um criminoso confesso. Ele não apenas perdoou Nixon, mas o condenou para sempre.