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02/12/2007 - 00h01

Prostituição e prisões lotadas complicam combate à Aids na ilha Hispaniola

Cox News Service
Antigone Barton

Em Santo Domingo, República Dominicana
Ao brilho das luzes dos cassinos ao redor dos distritos turísticos da República Dominicana, prostitutas aguardam por clientes.

Atrás dos muros da extremamente lotada Penitenciária Nacional do Haiti, doenças infecciosas são incontáveis e não tratadas.

Na ilha que estes países compartilham, a duas horas da costa americana, as taxas de incidência do vírus responsável pela Aids são os maiores do hemisfério.

Mas apesar dos Estados Unidos terem enviado mais de US$ 100 milhões para combate ao HIV e Aids na ilha de Hispaniola nos últimos três anos, aqueles que lidam na ilha com a epidemia entre os profissionais do sexo e presidiários o fazem sem a ajuda americana.

Trabalhando com recursos limitados e com obstáculos aparentemente intransponíveis, tais combatentes nas linhas de frente da epidemia argumentam que se a Aids não for enfrentada nestes ambientes, a batalha contra ela não será vencida.

Dos presidiários aos turistas
Um turista à procura de sexo em Santo Domingo pode caminhar até um bordel localizado atrás do hotel mais caro, onde a noite com uma estranha custa cerca de US$ 85, ou economizar dinheiro e caminhar na direção oposta, escolhendo uma das prostitutas à espera na faixa ao longo do quebra-mar.

Esta ilha empobrecida é um mercado do comprador onde as mulheres vendem sexo para turistas, empresários, marinheiros e presidiários- e onde as taxas de incidência de HIV entre os profissionais do sexo são estimadas como sendo no mínimo o triplo dos quase 2% da população geral.

A prostituição é basicamente legal aqui, onde a lei exige que os quartos de hotel alugados por hora venham acompanhados de dois preservativos.

Também está entranhada o suficiente na vida local para as profissionais do sexo terem organizado um grupo -Movimiento de Mujeres Unidas- há mais de doze anos para ajudar umas às outras.

Entre aqueles sob maior risco na epidemia de HIV, elas assumiram um papel na busca por soluções, participando de testes de vacinas e ensinando o uso de preservativos, com apoio de laboratórios farmacêuticos, organizações sem fins lucrativos e seu próprio governo.

Elas não recebem dinheiro dos Estados Unidos, que no ano passado enviou US$ 6,4 milhões por meio do Plano de Emergência do Presidente para Combate à Aids (Pepfar) para enfrentar a epidemia aqui.

Isto se deve a uma estipulação presente nos termos da ajuda externa americana que não permite que dinheiro seja destinado a pessoas ou entidades que não condenem a prostituição.

Os críticos chamam a política de "compromisso antiprostituição" e dizem que impede a ajuda para aqueles que mais precisam.

"É um grande equívoco", respondeu recentemente o coordenador global americano para Aids, o embaixador Mark Dybul.

Os fundos do Pepfar financiam 120 programas que ajudam profissionais do sexo, oferecendo atendimento e treinamento vocacional, ele disse.

Os críticos rebatem que os termos do compromisso são tão vagos que afugentam organizações que fornecem serviços aos profissionais do sexo.

A promessa seria difícil de ser aceita pelas profissionais de sexo aposentadas e ainda ativas que fazem parte do Movimiento de Mujeres Unidas.

"Nós falamos com mulheres de igual para igual para transmitir nossa mensagem. Eu falo de 'nós' para uma profissional do sexo", disse Juliana, uma profissional do sexo aposentada que prega o uso de preservativos para amigas que ainda trabalham em bordéis.

Ela é uma das fundadoras do Movimiento de Mujeres Unidas e recrutou amigas que ainda estão ativas para testes de vacinas e trabalho comunitário.

Uma de suas amigas é uma mulher chamada Jocelyn, que sustenta três crianças atendendo marinheiros que chegam em navios de todo o mundo. Ela também vai de cidade em cidade, demonstrando o uso de preservativos para outras profissionais do sexo e enfatizando que as profissionais do sexo nunca devem negociar o uso deles.

"Nem por US$ 200, nem por US$ 500!", ela disse.

Outra amiga leva preservativos adicionais ao presídio nos dias de visita, quando ela atende pessoalmente os presos, e onde as taxas de incidência do HIV são cinco vezes maiores do que fora de seus muros. Lá, os presos pagam cerca de 150 pesos por sexo -cerca de US$ 5- e as mulheres tentam atender presos suficientes para partirem com 1.500 pesos.

Muitas mulheres que visitam o presídio também trabalham nas ruas atendendo turistas. É um problema internacional que não pode ser resolvido com condenação, dizem algumas pessoas que trabalham aqui, que vão de médicos e assistentes sociais aos próprios profissionais do sexo. Eles enfatizam que as opções para as mulheres pobres neste país se limitam ao trabalho doméstico e em fábrica, quando tais empregos podem ser encontrados.

Mesmo algumas destas poucas opções são vedadas a muitas mulheres, disse Sonia Pierre, fundadora do Mudha, uma organização que luta pelos direitos das mulheres dominicanas de descendência haitiana. A discriminação contra imigrantes haitianos é uma barreira à educação, trabalho e moradia para aqueles forçados por uma pobreza ainda maior ao cruzarem a fronteira vindos do país mais pobre.

"Um lugar desesperador"
Enquanto as luzes brilhantes das áreas turísticas podem cegar os visitantes para a pobreza e doença naquele país, o Haiti não conta com tal fachada.

Mas, segundo muitos que combatem a epidemia aqui, o país está se saindo melhor do que seu vizinho mais rico no fornecimento de medicamentos anti-retrovirais para aqueles que necessitam.

O Haiti é um dos 15 países principais do Pepfar e as autoridades dizem que dois programas antigos que recebem dinheiro do Pepfar -a clínica Gheskio de Porto Príncipe e a rural Zanmi Lasante- estabeleceram um padrão que faz parte de uma crescente história de sucesso.

Ainda assim, enquanto US$ 55 milhões em dinheiro americano foram destinados para agências e organizações no Haiti apenas no último ano pelo Pepfar, nenhum centavo foi para a Penitenciária Nacional, onde as doenças infecciosas se disseminam com pouco controle.

Estima-se que a incidência de HIV entre os prisioneiros seja entre 3 a 10 vezes maior do que fora de seus muros, sob melhores condições do que estas.

Aqui, os homens aguardam exames que podem levar anos vivendo tão amontoados que alguns mal têm lugar para sentar ou deitar. Mesmo os blocos de celas construídos nos últimos anos com dinheiro internacional não contam com encanamento. E desde uma repressão ao crime no primeiro semestre, a lotação que ultrapassava em muito os padrões internacionais mais que dobrou, com quase 4 mil presos em um lugar para conter cerca de 1.000.

"Quando cheguei aqui era um lugar desesperador", disse o dr. John May, chefe do Health Through Walls, um grupo sem fins lucrativos que leva suprimentos e atendimento de saúde a presídios em países em desenvolvimento. May, que também é diretor-chefe da empresa privada Armor Correctional Health Services do Sul da Flórida, que presta serviços de saúde a presídios, começou a visitar este presídio há seis anos.

"Ainda é um lugar desesperador", ele disse recentemente.

Ele descobriu quão pior se tornou a superlotação em uma viagem em abril, quando quatro homens foram levados até ele com pernas inchadas por ficarem em pé por semanas.

O vírus responsável pela Aids se dissemina por ataques sexuais em celas que não deveriam conter mais que uma dúzia de presos, mas que agora contêm 60. As celas lotadas servem como incubadoras de tuberculose resistente a medicamentos.

As doenças matam alguns e dão a outros uma recordação contagiosa que levam consigo quando saem.

E a maioria desses presos sairá, disse May.

Uma rebelião em 2004 resultou na fuga de todos os seus 1.500 presos na época, e em fugas de lá para cá, entre uma dúzia e 600 presos desapareceram em meio à população em geral. Muitos prisioneiros têm tatuagens, que indicam que passaram algum tempo nos Estados Unidos, para onde podem voltar.

Com os presídios lotados além de sua capacidade, o quadro magro e saturado de funcionários não consegue monitorar as doenças aqui, disse May.

"A prioridade é fornecer o atendimento necessário para aqueles que morrerão desnecessariamente", ele disse. "Há pacientes que vão morrer e que morreram por condições que são tratáveis."

May requisitou verbas do Pepfar no ano passado e seu pedido foi recusado. Ele está tentando novamente neste ano.

Autoridades americanas, incluindo Dybul do Pepfar, disseram que discutiram o financiamento de um programa para o presídio.

Enquanto isso, May trouxe testes rápidos de HIV para a prisão durante uma visita em setembro e retornou duas semanas depois com medicamento anti-retroviral para um preso cujo exame de sangue aponto um quadro avançado de Aids.

"Como o sistema não vai fazer nada, eu preciso tratar pessoalmente deste paciente", ele disse.

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