2008 será um ano chave tanto para Kosovo quanto para a Bósnia. Kosovo provavelmente declarará independência da Sérvia nos próximos meses. Se o fizer, os Estados Unidos e a maioria dos membros da União Européia reconhecerão Kosovo, mas insistirão no estabelecimento de uma missão internacional semelhante à Missão das Nações Unidas na Bósnia para assegurar a estabilidade do novo Estado.
A Sérvia e sua benfeitora, a Rússia, se oporão fortemente a qualquer ação visando a independência de Kosovo, mas que forma tal oposição assumirá é incerta.
Diferente de alguns novos relatos, a Sérvia não exigirá controle da entidade sérvia na Bósnia -ou Republika Srpksa (RS)- em troca da perda de Kosovo. Fazê-lo quase certamente levaria a um confronto direto com os Estados Unidos e a União Européia. Nem a Sérvia e nem a Rússia desejam isso.
Apesar das tensões em torno da independência de Kosovo, um conflito em grande escala é improvável. E apesar do desejo de alguns de que Kosovo permaneça uma província autônoma da Sérvia, as perspectivas de que isso ocorrerá são próximas de zero.
Um Kosovo independente será um Estado fraco por muitos anos, mas não será (nem será permitido que seja) uma ameaça à região. Enquanto isso, o futuro político da Bósnia é nebuloso. Por quase dois anos, os políticos bósnios brigaram, freqüentemente de forma amarga, sobre o futuro constitucional do país. Os sérvios bósnios e em grau menor os croatas bósnios, ambos minorias em relação aos muçulmanos bósnios (ou bosniaks), buscaram consolidar seu status político segundo o Anexo 4 (a Constituição) do Acordo de Dayton.
Para os sérvios, agora liderados pelo poderoso primeiro-ministro da RS, Milorad Dodik, a meta é a preservação de sua entidade e de um governo central fraco. Os bosniaks, por outro lado, sob a liderança de Haris Silajdzic, têm lutado por um governo central forte.
A comunidade internacional tentou sem muito sucesso navegar em meio a estas posições opostas. Uma série de emendas à Constituição que fortaleceriam as instituições do Estado mas preservariam as entidades fracassaram em obter a maioria necessária de dois terços no Parlamento. Os esforços liderados pela UE para reformas políticas foram igualmente rejeitados em outubro.
No início de novembro, o atual alto representante, Miroslav Lajcak, em um esforço para romper o impasse político, anunciou duas reformas constitucionais que facilitariam a aprovação de uma legislação nacional. Essas reformas basicamente impediriam a prática de representantes eleitos e ministros de governo de se ausentarem de votações-chave.
Os políticos da RS, que freqüentemente empregavam esta tática para evitar serem derrotados no voto, interpretaram estas reformas como uma ameaça à entidade e às suas proteções étnicas na esfera do Estado. Eles provocaram uma crise ao exigir que o alto representante anulasse suas medidas. Com o apoio da Sérvia e Rússia, o primeiro-ministro Dodik ameaçou secessão da entidade sérvia.
No início de dezembro, foi acertada uma solução de meio termo, mas a questão sobre a futura ordem constitucional da Bósnia permanece não resolvida.
A situação política agora está repleta de incertezas por vários motivos. Primeiro, a comunidade internacional está ansiosa para encerrar a missão de Dayton da ONU e transferir o esforço de reforma para a União Européia. Mas os eventos dos últimos seis meses claramente demonstraram que a Bósnia ainda não está plenamente preparada para caminhar sozinha.
Segundo, durante o primeiro ano a economia da RS cresceu rapidamente enquanto à da outra entidade, a Federação Croata-Bosniak, estagnou. A RS poderá não hesitar em usar sua nova força econômica para pressionar por uma maior devolução de poder político. A Bósnia está em um precipício.
Se a comunidade internacional se comprometer em concluir o trabalho e promover agressivamente as reformas que levarão a um governo constitucional capaz de servir todas as pessoas na Bósnia -e cumprir suas obrigações internacionais- o futuro do país melhorará consideravelmente.
Mas se a comunidade internacional der as costas à Bósnia, o país provavelmente afundará ainda mais na disfunção e instabilidade política. Tal resultado parece bem mais preocupante do que qualquer coisa que possa ocorrer em Kosovo ao longo do próximo ano. Diante do enorme investimento feito pela comunidade internacional na Bósnia desde a assinatura do Acordo de Dayton, em 1995, e da importância da estabilidade no coração da Europa, o fracasso não pode ser uma opção.
* R. Bruce Hitchner é professor de relações internacionais da Universidade Tufts e presidente do Projeto do Acordo de Paz de Dayton. Este artigo foi escrito para o "Dayton Daily News" e distribuído pelo "Cox News Service".