Ronald Reagan teve os seus "democratas de Reagan", mas Barack Obama virou a mesa do Partido Republicano com os "obamacanos", republicanos descontentes que estão debandando para o lado do pré-candidato presidencial democrata neste ano da mesma forma que os democratas desencantados apoiaram Reagan, apesar de em números menores.
Na próxima primária presidencial democrata do Texas, que é aberta para a participação de republicanos, os "obamacanos" podem comparecer em peso. O site "obamacano" www.republicansforobama.org já está preparando uma petição para alinhar os republicanos com Obama no Texas.
De fato, o ex-fuzileiro naval Jack Holt, um bem-sucedido executivo do setor de tecnologia de Austin, que no passado apoiou George W. Bush e John McCain com seu voto e doações financeiras, está tão seduzido por Obama que está prestes a dar o último passo para se tornar um democrata, apesar de ser um "obamacano" e de ter sido republicano por sua vida inteira.
"Pode-se dizer que estou quase lá", disse Holt, de 44 anos, em uma entrevista por telefone na sexta-feira, enquanto organizava uma corrida de cinco quilômetros num fim-de-semana em Austin para arrecadar fundos para Obama. "Para mim, o Partido Republicano tornou-se tão ruim e arrogante que decidi que não quero mais participar disso". Obama, por outro lado, "tem um apelo muito maior" e é "um candidato que articula o que todos querem para o nosso país", acrescentou.
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| Barack Obama cumprimenta simpatizantes em salão da Universidade de Toledo, em Ohio |
Durante toda a disputa pela nomeação no Partido Democrata, Obama conseguiu atrair um número pequeno, porém significativo de republicanos para participarem nas primárias e no caucus do partido. No caucus em Iowa em 3 de janeiro, 3% do total de votos foram republicanos; em Wisconsin, na semana passada, foram 9%. Praticamente em quase todos os Estados Obama conseguiu uma maioria expressiva dos votos republicanos dentro da disputa democrata. Em Wisconsin, por exemplo, dos 9% de republicanos que votaram na primária democrata, Obama consegui 72% dos votos, comparados aos 28% da senadora de Nova York Hillary Clinton.
As estatísticas sobre o fenômeno ainda são poucas, e pode ser que ele não tenha atingido - ainda - o mesmo sucesso de Reagan há quase 30 anos, que atraiu os votos das classes média e trabalhadora desapontadas com a presidência de Jimmy Carter, os chamados "democratas de Reagan". Elas têm sido uma parte importante da coalizão política do Partido Republicano em todas as campanhas presidenciais desde 1980.
Todavia, o pesquisador de opinião pública John Zogby adverte os que duvidam da realidade de um fenômeno "obamacano" na campanha presidencial de 2008.
"Existe de fato a figura do republicano de Obama", disse Zogby em entrevista na sexta-feira. "Esse grupo tende a ser politicamente moderado, cansado das disputas internas do partido, e mais ainda do presidente Bush e do vice Cheney. Isso tudo faz parte do apelo singular que Obama tem entre os eleitores de centro, os pensadores independentes, e aqueles preocupados com a imagem internacional dos EUA".
Desde que ganhou o caucus em Iowa em 3 de janeiro, Obama tem feito piada em quase todos os comícios sobre a presença dos "obamacanos" nos eventos de sua campanha. "Eles sussurram para mim, dizendo: 'Barack, eu sou republicano, mas apóio você'. E eu respondo: 'Obrigado. Mas por que você está sussurrando?'", diz ele. A brincadeira é um motivo garantido de risos.
Mas parte do apoio republicano que Obama recebe é, de fato, silencioso. Tom Bernstein, um colega de classe em Yale, sócio de Bush na Texas Ranger e um dos patrocinadores políticos pioneiros do presidente, está entre os doadores da campanha de Obama neste ano, de acordo com o Center for Responsive Politics, um grupo de observação em Washington. Bersnstein não falou publicamente sobre seu apoio a Obama.
Todavia, nem todos obamacanos escondem seu apoio ao carismático jovem senador de Illinois.
Susan Eisenhower, neta do ex-presidente Dwight Eisenhower, escreveu numa coluna do Washington Post no começo desse mês, que, se os democratas nomeassem Obama, "esta republicana de nascença iria trabalhar para elegê-lo".
"Estou convencida de que Barack Obama é hoje o único candidato presidencial capaz de encorajar o povo americano a ficar de pé novamente; ele é um homem que pode aliviar as feridas da nossa nação e também inspirar e lutar por uma cooperação bipartidária genuína. Não menos importante, Obama pode assegurar o mundo e os americanos de que os grandes valores que movem esta nação são livres, abertos, justos e de mente arejada", escreveu ela.
Da mesma forma, o ex-senador Lincoln Chafee de Rhode Island, o único senador republicano que votou contra a guerra do Iraque em 2002, recentemente declarou que Obama "é o melhor candidato para recuperar a credibilidade americana" no exterior. Ele escolheu fazer essa declaração no mesmo dia em que o senador do Arizona John McCain, o provável candidato nomeado pelos republicanos, visitou Rhode Island para fazer campanha por sua nomeação no Partido Republicano.
Mark McKinnon, um conselheiro do alto escalão de McCain, que tinha a mesma posição na campanha de George W. Bush, também está seduzido por Obama. Ele, de fato, reiterou sua declaração anterior de que vai sair da campanha de McCain se Obama for nomeado candidato democrata. "Eu simplesmente me sentiria desconfortável ao permanecer numa campanha que inevitavelmente teria de atacar Barack Obama", McKinnon disse recentemente à ABC News. "Acho que seria desconfortável para mim, e acho que seria ruim para a campanha de McCain."