Os pais dele - de Zibo, uma cidade na província de Shadong, cerca de 370 quilômetros ao sul - vieram para cá na lua-de-mel.
"Temos uma fotografia deles naquele dia", diz Wu Kun com orgulho. "Sempre me recordo disso".
Quando ele fez 18 anos, os pais o trouxeram também para cá. Ele tinha acabado de passar em um exame difícil para ingressar na universidade e o passeio foi um prêmio que recebeu antes de sair de casa.
E agora ele está aqui de novo - na famosa Praça Tiananmen, ou Praça da Paz Celestial -, tendo o enorme retrato de Mao Tsé-Tung atrás de si, e, à sua frente, o Monumento dos Heróis Populares e um grande obelisco de granito que homenageia aqueles que morreram pela revolução comunista.
Em todos os lados vê-se o retrato de uma nação reunida e gloriosa.
Há mulheres idosas portando guarda-sóis para se protegerem do calor sufocante, crianças pequenas usando as suas melhores roupas para que os pais tirem fotografias e adolescentes com cabelos pintados, jeans apertados e estilo MTV.
Embora hoje aqueles tradicionais senhores de idade que empinam pipas não estejam aqui, há um sujeito usando uma jaqueta chique LeBron James Cavs, de mãos dadas com uma mulher, soldados vestindo uniformes verde-oliva com estrelas vermelhas, e, é claro, em toda a parte estão as memórias de uma nação - e, sim, os seus sonhos também.
O sentimento predominante é resumido pela inscrição nas esculturas florais com temas olímpicos que atualmente decoram a praça: "Um Mundo, Um Sonho".
Só se pode torcer para que este se torne o mantra dos líderes truculentos deste país, mas o fato é que a frase é o lema das 23ª Olimpíadas que começam aqui na sexta-feira (8).
E, faltando dois dias para a abertura, esta praça enorme é o palco no qual se pode sentir o pulso, observar o espetáculo e ouvir a esperança desses jogos de Pequim.
"Este local é o coração da nossa sociedade", afirma Wu, 30, batendo com o punho fechado sobre o coração. "O sonho de todas as pessoas neste país é visitar a Praça da Paz Celestial e, agora, com as Olimpíadas, este sonho tornou-se ainda mais especial. Estamos muito orgulhosos de sermos chineses. Existem duas histórias das Olimpíadas. Uma diz respeito ao esporte e a outra à China. A história chinesa é mais atraente".
Enquanto eu conversava com Wu - que, assim como vários jovens chineses, adotou um nome ocidental e chama a si mesmo de Roy -, alguns dos seus curiosos compatriotas reuniram-se à nossa volta.
Não sei se o que os atraiu foi a imagem de um estrangeiro enrugado de bigodes brancos, a entrevista ou a constatação de que, após sete anos de preparativos para os Jogos, os visitantes estão realmente aqui. O fato é que as pessoas olhavam, escutavam e algumas até tiravam fotos.
Mais tarde, uma mulher acompanhada do marido aproximou-se de um escritor de Saint Louis e de mim - dois indivíduos que integravam um pequeno número de norte-americanos em meio a milhares de chineses que estavam na praça no final da tarde da última terça-feira - e começou a falar rapidamente em chinês. Finalmente ela posou junto a nós enquanto o marido tirava uma foto, e, depois, com os dois polegares para cima, riu e exclamou: "Very good".
A população daqui deseja que a gente saiba que o lugar é muito bom.
Foi aqui que o que há de melhor e de pior neste país ocorreu em um palco diferente de qualquer outro no mundo.
Do outro lado da grande praça calçada com pedras, no Mausoléu de Mao, jaz o próprio guia do país, parecendo uma figura de cera, sobre um bloco de granito negro. Todos os dias formam-se longas filas de visitantes para ver o corpo. Na extremidade oeste da praça fica o Grande Salão do Povo, o edifício que sedia o parlamento. A leste está o Museu Nacional e, entre os dois prédios, o grande espaço vazio que no século passado foi o palco de alguns dos momentos decisivos para a China.
Ali aconteceu o Movimento de 4 de Julho, em 1919, quando estudantes universitários e intelectuais fizeram uma passeata, protestando contra o Tratado de Versalhes, que fez com que a China cedesse território ao Japão.
Foi aqui que Mao anunciou a criação da República Popular da China, e centenas de milhares de chineses reuniram-se para lamentar a morte do premiê Zhou Enlai.
Também é neste lugar que a população de Pequim reúne-se todo dia 1º de outubro para comemorar o Dia Nacional da China, e foi aqui que, em 1989, manifestantes que defendiam a democracia foram confrontados por tanques do governo. Centenas foram mortos.
Segundo a organização de direitos humanos Human Rights Watch, 130 dos manifestantes de 1989 ainda estão presos. E, à medida que a abertura dos jogos se aproximavam, vários outros dissidentes e críticos do governo na China foram detidos. Eles ficarão presos até que os Jogos terminem e as multidões se dispersem.
A China não quer que estes Jogos - ou melhor, a forma como o governo age - sejam mais questionados do que já têm sido. A idéia é que esta seja uma festa nacional na qual a China vai se mostrar ao mundo. Nada de embaraços. Conforme se diz por aqui, tudo na China diz respeito ao controle e a manter as aparências.
Assim, na terça-feira (5) havia também policiais à paisana misturados à multidão. Não dá para identificá-los, a não ser pelos sapatos pretos fornecidos pelo governo e pela ausência de sorrisos.
Mas se eles são a face da suspeita, os outros cidadãos são a essência da antecipação eufórica, do êxtase e da descoberta gloriosa:
"Ninguém acreditava que isto pudesse acontecer aqui, mas agora nós temos os Jogos Olímpicos", afirma Wu, que é um dos gerentes de projetos do comitê organizador dos Jogos. "Este lugar não é mais o indivíduo doente da Ásia. Nós aguardamos bastante, mas a China está em ascensão. E nós não achamos que todos os estrangeiros têm chifres e rabos. Somos todos humanos. Temos diferença de opinião, mas somos todos humanos. E estamos dizendo: 'Bem-vindos a Pequim. Bem-vindos à China. Bem-vindos à nossa casa'".
Wu - que, aliás, aprendeu o seu inglês ouvindo a rádio Voz da América e as fitas dos jogos da NBA - estendeu a mão e, a seguir, buscou as palavras certas em inglês. Quando as encontrou, sorriu e disse: "Once meeting? Twice friends".