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21/09/2008 - 00h01

A jornada longa e tortuosa da candidata a primeira dama Cindy McCain

Cox News Service
Bob Dart

Em Minneapolis, Minnesota (EUA)
Na Convenção Nacional Republicana, o vídeo exibido durante o almoço "Saudações a Cindy McCain" mostrou a trajetória da mulher do candidato a presidência do partido ao longo de meio século - desde sua infância abastada no Arizona, passando por sua experiência como rainha de rodeio, casamento e maternidade até seu trabalho voluntário para ajudar crianças em todo o mundo.

"Estávamos rindo na mesa porque nós também tivemos todos aqueles estilos de cabelo", brincou Sharon Day, delegada do partido Republicano de Fort Lauderdale, Flórida, e diretora do movimento estadual "Mulheres por McCain".

Mas falando sério, disse Day, o vídeo mostrou como a vida de Cindy McCain preparou-a para ser uma "grande primeira dama".

Assim como a escolha da governadora do Alaska Sarah Palin para a vice-presidência de McCain nas eleições presidenciais incitou tanto a controvérsia quanto o apoio feminino fervoroso, Cindy McCain também tem sua própria base de defensores e detratores enquanto potencial primeira dama.

Day é uma das muitas fãs que dizem que Cindy foi preparada para honrar a Casa Branca através de uma vida de boas ações - que vão desde fundar a Equipe Médica Voluntária Americana, que organiza médicos para viagens de emergência a países do terceiro mundo atingidos por desastres naturais ou guerras, até adotar uma menina num orfanato
dirigido por Madre Teresa em Bangladesh. Todavia, outros dizem que a vida privilegiada de Cindy McCain - e seu vício em remédios no passado - afastaram-na da vida comum americana e até mesmo de sua própria família.

"A última vez que a vimos foi num velório e enterro" quando Jim Hensley, pai de Cindy McCain, morreu em 2000, disse Nicholas Portalski, seu sobrinho. Portalski afirma que sua mãe, Kathleen Hensley Portalski, tem sido ignorada há décadas por Cindy McCain, sua meia-irmã, que descreve a si mesma como filha única. Kathleen era filha da primeira mulher de Hensley.

"Eu tinha uma relação muito próxima com meu avô, mas não com Cindy", disse Nicholas Portalski. Ele conta que seu rico avô sempre havia sustentado a ele e a sua mãe. Mas o multimilionário Hensley deixou apenas US$ 10 mil para Kathleen em seu testamento e passou sua empresa, a maior distribuidora de cerveja do Arizona, para
Cindy. Quando o avô morreu, Portalski disse que o apoio financeiro acabou de maneira abrupta.

"A torneira se fechou praticamente no dia da sua morte", lembra-se.

Quando surgiram perguntas sobre a outra filha de Hensley, a campanha de McCain divulgou uma declaração: "A senhora McCain foi criada como filha única de Jim e Marguerite Hensley, e não havia relações familiares com nenhum outro irmão."

Cindy Lou Hensley nasceu em Phoenix em 1954, como filha única do casamento de Jim e Marguerite "Smitty" Johnson.

Todavia, ela tinha duas meias-irmãs dos relacionamentos anteriores de seus pais. O primeiro casamento de Jim Hensley aconteceu no anos 30, com Mary Jeanne Parks, sua namorada de escola. Eles tiveram uma filha, Kathleen, hoje com 65 anos. Hensley conheceu Johnson, que era enfermeira, quando estava no hospital em West Virgínia se recuperando de ferimentos sofridos ao ter seu avião atingido na Segunda Guerra. Ele divorciou-se de Mary Jeanne e casou-se com "Smitty" em 1945.

A segunda senhora Hensley já tinha uma filha, Dixie Burd, de um relacionamento anterior. Muito mais velha que Cindy, ela não foi encontrada pela reportagem.

Jim Hensley fundou a Hensley & Company, que cresceu para se tornar uma das maiores companhias distribuidoras da Anheuser-Busch no país. Cindy cresceu na riqueza, passou férias numa casa de praia na Ilha Coronado, próximo a San Diego, e tornou-se rainha de rodeio. Ela foi líder de torcida no colégio Central High School em Phoenix e membro da fraternidade Kappa Alpha Theta na Universidade da Califórnia, em Los
Angeles. Fez graduação e mestrado em educação especial.

"Nasci e fui criada no oeste americano e sempre verei o mundo através do prisma de seus valores", disse ela na convenção republicana. "Meu pai era um verdadeiro "cavalheiro do oeste". Ele saiu da necessidade para erguer-se e realizar o sonho americano.

"Ele me ensinou que a vida não é algo só para si. Diz respeito a nutrir a próxima geração, preparando um mundo melhor para todas as nossas crianças e ajudando-as a encontrar o caminho certo para cima."

Em 1979, Cindy tinha 24 anos e ensinava crianças com deficiência numa escola secundária em Avondale, Arizona, quando viajou para o Havaí com seus pais durante as férias que marcariam seu destino. Uma noite, ela foi a um coquetel.

"Eu estava ao lado da mesa de aperitivos, jovem, tímida, sem conhecer ninguém", disse Cindy McCain para a revista Harper's Bazaar. "De repente um capitão da marinha lindo, vestido de branco, começou a me seguir ao redor da mesa. Pensei: 'O que está acontecendo aqui?'"

Seu galante perseguidor ainda estava oficialmente casado na época, apesar de estar separado da esposa que o havia esperado durante os cinco anos e meio que passou num campo de prisioneiros de guerra em Hanói, depois que o avião que pilotava foi atingido no Vietnã do Norte.

Filho de um almirante, John McCain era um oficial de comunicações da Marinha em viagem ao Havaí com uma delegação do congresso. Seu casamento de 14 anos estava se desmanchando.

Sua mulher Carla McCain, ex-modelo, tinha ficado gravemente ferida num acidente de carro em 1969, em que foi lançada através do pára-brisa. McCain estava detido como prisioneiro de guerra e ela não quis avisá-lo com medo de que isso o deixasse mais triste. O acidente "deixou-a dez centímetros mais baixa, usando muletas, e ela ganhou bastante peso", segundo o New York Times.

O casal tinha três filhos. Ela raramente falou em público sobre o casamento ou o divórcio, mas falou a Robert Timberg para seu livro "John McCain: uma Odisséia Americana".

"O fim do nosso casamento não foi causado pelo meu acidente, ou pelo Vietnã, ou qualquer coisa dessas. Não sei se isso não teria acontecido se John não tivesse partido", ela falou. "Eu atribuo o término muito mais ao fato de John ter feito 40 anos e querer ter 25 de novo, do que a qualquer outra coisa."

John e Cindy casaram-se em 17 de maio de 1980, cerca de um mês depois que o divórcio dele saiu. Deixou a Marinha depois de 22 anos e os recém-casados se mudaram para o Arizona. McCain foi trabalhar com o sogro, mas suas ambições políticas eram evidentes desde o começo. Em 1982, ele foi eleito para o Congresso.

Durante toda a carreira do marido na Câmara e Senado, Cindy McCain morou no Arizona. Ela queria uma família grande e pensou que Washington, D.C., não era o lugar ideal para as crianças crescerem.

"Nada me fez mais feliz ou mais realizada na vida do que ser mãe", disse Cindy na convenção do partido Republicano.

Depois de sofrer vários abortos, ela deu a luz a Meghan em 1984; John IV, chamado de "Jack", em 1986; e Jimmy em 1988.

Seus pais, que já estão mortos, moravam do outro lado da rua e ajudaram a criar os netos.

Em 1988, Cindy McCain fundou a Equipe Médica Voluntária Americana.

Durante uma missão a Bangladesh em 1991, ela encontrou uma menina num orfanato dirigido por Madre Teresa. Decidiu levá-la consigo para os Estados Unidos para uma cirurgia de lábio leporino. No vôo de volta, conforme Cindy conta hoje ao público da campanha, "decidi que não seria capaz de abandoná-la".

Quando ela saiu do avião segurando a menina, o marido perguntou: "para onde ela vai?", lembra-se Cindy. "Eu disse, 'para nossa casa', e ele respondeu, 'foi o que pensei.'"

Os McCains adotaram a menina, a quem deram o nome de Bridget.

Em 1994, Cindy McCain admitiu publicamente que tinha sido viciada nos medicamentos Percocet e Vicodin. Ela disse que havia começado a tomar os poderosos analgésicos depois de duas cirurgias na coluna em 1989. E que havia roubado medicamentos de sua própria Equipe Médica Voluntária Americana.

Ela explicou que o marido não sabia de nada, e procurou ajuda - o que incluiu uma estadia num centro de reabilitação, depois de uma intervenção de seus pais.

"Esse foi o período mais sombrio da minha vida", disse ela à Harper's Bazaar. "Eu tinha dor, tomava muitos remédios e, como muitas mulheres, acabei caindo no vício."

A revelação veio depois que Tom Gosinski, que trabalhava para a Equipe Médica Voluntária Americana, revelou à Agência de Narcóticos sobre o roubo de medicamentos. Ele foi demitido em seguida.

Com a idéia de escrever um livro em mente, Gosinski manteve um diário durante os dois anos que trabalhou para Cindy McCain. O texto mostra um retrato diferente da imagem que ela mostra ao público.

"Na realidade, estou trabalhando para uma mulher muito triste e sozinha, cujo casamento de conveniência com um senador americano levou-a a distanciar-se de amigos, encobrir seus sentimentos de desespero com drogas e substituir momentos de solidão com a auto-indulgência", descreve uma entrada do diário de Gosinski publicada pela Salon.com.

Seus amigos retratam uma pessoa bem pouco parecida com essa.

Cindy é forte, diz Sharon Harper, empresária de Phoenix que descreve sua relação como de "melhores amigas há 20 anos".

"Ela incorpora vários traços interessantes que você não vê freqüentemente numa pessoa. Ela é forte, disciplinada, inteligente e mesmo assim sensível e reservada", diz a amiga e também vizinha Harper. "Nossas famílias cresceram juntas", disse.

Cindy faz muitas coisas, mas "nunca demonstra agressividade", explicou Harper. "Ela é elegante e amável, e ao mesmo tempo muito ativa."

Durante a campanha, os comentários de Cindy McCain que mais repercutiram aconteceram quando ela alfinetou Michelle Obama, mulher do senador Barack Obama, de Illinois, candidato democrata à presidência.

"Tenho orgulho do meu país. Não sei quanto a você. Se você já ouviu essas palavras antes, tenho muito orgulho do meu país", disse a senhora McCain. A declaração veio depois que Michelle Obama disse durante a campanha que é a "primeira vez" que ela estava "verdadeiramente orgulhosa" de seu país.

"Eu só quis declarar que sempre fui e sempre serei orgulhosa do meu país", respondeu Cindy McCain quando questionada se suas palavras haviam sido instigadas pelos comentários de Michelle Obama.

Na convenção, ela fez elogios a Palin.

"John escolheu para a vice-presidência uma mulher de mente aberta, mãe de cinco filhos, que participa do hóquei e do basquete, caça gansos, pesca e atira", disse a senhora McCain na convenção do Partido Republicano. "E como eu mesma sou uma mãe que vai ao hóquei e também uma mãe conservadora do oeste americano, eu não poderia ter mais orgulho do fato de John ter sacudido as coisas como costuma fazer!"

No entanto, os detalhes pessoais sobre a mulher do candidato à presidência vieram de sua filha, Meghan, que escreve um blog de campanha. No "Blogette" de McCain, os leitores ficaram sabendo que Cindy McCain é uma fã "ardorosa" do grupo de rock dos anos 60 Cream, gosta de Cheetos e de batata frita sabor vinagre e sal, mima os dois Yorkshire terriers da família, chamados Desi e Lucy, e outros cachorros, e sabe dizer
quando a cerveja é fresca ou não pelo gosto.

Meghan disse que a "música de mãe e filha" delas é a versão de Israel Kamakawiwo'ole de "Somewhere Over the Rainbow", mas a lista de músicas do iPod de Cindy McCain também inclui "Nights in White Satin", de Moody Blues, "Rhythm of the Night" de Debarge, "You've Got a Friend" de James Taylor e "Have I Told You Lately" de Rod Stewart.

As roupas de Cindy McCain também foram assunto de especulação de campanha. Depois de sua aparição na convenção do Partido Republicano com a primeira dama Laura Bush, a revista Vanity Fair estimou que o traje de McCain custa cerca de US$ 300 mil - incluindo US$ 3 mil por um vestido de Oscar de la Renta e US$ 280 mil por um par de brincos de diamante.

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