15/06/2004
Michael Stipe estréia seu filme e prepara o novo disco do R.E.M.
Vocalista da banda é produtor de "Saved!", sátira que aborda fé e homossexualismo
Leslie Gray Streeter
Em West Palm Beach, Flórida
"Você viu o filme?" perguntou o produtor de cinema com um firme aperto de mão. "Você gostou?" É comum que tal pergunta direta seja insincera e sirva apenas para tirar proveito, sobretudo quando são feitas por ratos de Hollywood chamados Irv ou Bobby, com bronzeados permanentes e sorrisos largos.
Mas Michael Stipe, o produtor do outro lado deste aperto de mão em particular, é praticamente o contrário disto.
Nas entrevistas para televisão e vídeo, o vocalista do R.E.M., ativista político, produtor de cinema e sujeito discreto pode parecer introvertido e sério. Mas pessoalmente, sentado em uma cadeira de couro entre as mesas de mixagem do estúdio de gravação Hit Factory de Miami, ele é intelectualmente intenso mas caloroso, como o sujeito mais esperto e simpático de sua revista literária do campus.
"Chegue mais perto, você está muito longe", disse Stipe, puxando a cadeira de seu companheiro na sua direção. Ele está no Hit Factory para gravar o 14º álbum de estúdio da banda, mas fez uma pausa para discutir "Saved!", o mais recente filme de sua produtora Single Cell Pictures.
Dirigido pelo diretor estreante Brian Dannelly e estrelado por Jena Malone, Macaulay Culkin e a estrela pop Mandy Moore, "Saved!" é uma sátira bem-humorada sobre Mary (Malone), uma estudante dedicada e bem-intencionada de um colégio cristão. Ela fica grávida em sua busca para "curar" seu namorado de ser gay, agindo segundo o que acredita ser uma ordem de Jesus Cristo. Situado nos anos 80 de "O Clube dos Cinco", ele tem o ferrão satírico de paródias colegiais como "Atração Mortal".
Obviamente, "Saved!", que custou cerca de US$ 5 milhões, é o tipo de filme pequeno que atrai muita atenção daqueles de todos os lados do debate religioso. A Liga Católica e o padre Jerry Falwell o condenaram. Mas ele também tem sido elogiado por alguns cristãos e está atraindo o público.
Lançado há três semanas em apenas um punhado de cinemas, o filme passou a ser exibido em um número maior de salas na última sexta-feira (11/06) e faturou US$ 2 milhões no último fim de semana, totalizando US$ 4 milhões de bilheteria. Na semana passada, Stipe discutiu "Saved!", o novo álbum do R.E.M. e a feliz falta de anonimato que encontrou no Sul da Flórida, onde a banda grava com freqüência.
Pergunta: Quando "Saved!" estava sendo feito, você e os outros envolvidos no filme teriam dito que não tinham conhecimento de "A Paixão de Cristo", outro filme que lida com questões espirituais, embora de forma diferente, é claro. Você assistiu "A Paixão de Cristo"?
Michael Stipe: Eu não precisei assistir. Eu li o livro.
Pergunta: Ok! Uma das primeiras coisas que notei nos créditos de abertura de "Saved!" foi a adorável versão de "God Only Knows" dos Beach Boys. Eu reconheci a voz de Mandy Moore, então ouvi esta outra voz e pensei: "Espera aí... eu conheço esta pessoa! É o Michael Stipe!" Como você foi parar cantando nesta faixa?
Michael Stipe: Foi tipo: "Espere, isto é familiar!" (Risos.) Eu imaginei que se funcionar, funcionou, e se não... Mas a idéia era sedutora demais, parecia perfeito demais cantar esta canção com Mandy Moore. Eu geralmente não misturo meu emprego diurno (ele gesticula para o estúdio ao redor) com os outros projetos que faço.
Pergunta: Bem, funcionou.
Michael Stipe: Obrigado. Sabe, eu não imaginei que minha voz fosse tão reconhecível. Outro dia eu estava ao telefone, e a pessoa do atendimento ao cliente disse: "É quem eu penso que é?"
Pergunta: Eu aposto que você é bastante reconhecido.
Michael Stipe: Eu estava na calçada a caminho do trabalho nesta manhã, quando parei no semáforo. E este sujeito alto parado ao meu lado, que acho que era cubano, olhou para mim e disse: "Você sabe quem você é?" (...) E fui comprar um cartão de aniversário para minha irmã nesta manhã, e a mulher do caixa era uma negra de pouco mais de 20 anos, que disse: "Você não é... não pode ser... é você, Michael?" E então veio o chefe dela ou colega de trabalho, branco, e ele disse: "Eu assisti ao último concerto de vocês no Omni. Foi ótimo". (Sorriso.) Miami nos ama!
Pergunta: Não estou surpreso. Eu acho que o R.E.M. ultrapassa as divisões culturais e de geração. Você é bastante reconhecível.
Michael Stipe: Isto significa muito para mim. Muito obrigado. Eu acho que a banda ultrapassou as fronteiras mais simplistas.
Pergunta: Eu sei que vocês estão gravando seu novo álbum agora. Como está indo?
Michael Stipe: Está quase terminado, graças a Deus. Eu estou confiante. Eu nunca me senti tão confiante a esta altura do jogo. Demorou demais, eu estou cheio disto. Nós temos 28 canções, 17 concluídas. Isto é cerca de seis vezes mais do que o habitual.
Pergunta: Eu li recentemente um citação sua em que você disse que seu último lançamento, a coletânea de sucessos de 2003, "In Time", era como encerrar um capítulo da carreira do R.E.M. Como o novo material se encaixa neste novo capítulo?
Michael Stipe: Eu acho que parece bem mais atual.
Pergunta: Você escuta muita música de outras pessoas enquanto está gravando?
Michael Stipe: Peter -Peter Buck, meu guitarrista- é meu exato oposto nisto. Ele absorve música e livros em um ritmo que nunca vi antes. Ele compra 30 DVDs e CDs de uma só vez. Ele vai assistir a música ao vivo, novas bandas, tudo. Mas meu temor é de que eu roubaria algo (de outro artista) sem perceber. (Risos.) "Eu sou tão brilhante... Não, Polly Harvey é realmente brilhante, e eu roubei isto dela!"
Pergunta: Isso acontece?
Michael Stipe: Absolutamente. Eu compus esta canção chamada "Disappear", e então dias depois eu percebi que era uma canção do Radiohead chamada "How To Disappear Completely". Eu telefonei para Thom Yorke (o vocalista do Radiohead) e deixei uma recado dizendo: "Thom, acho que roubei sua canção", mas ele não retornou minha ligação. Eu fiquei chateado. Finalmente, algumas semanas depois, eu tive notícias dele, e ele disse: "Michael, aquela canção veio de uma conversa que tivemos quatro anos atrás!"
Pergunta: Então isto significa que vocês têm propriedade mútua sobre a idéia?
Michael Stipe: Sim. Eu não me senti mais tão mal.
Tradução: George El Khouri Andolfato
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