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24/05/2005 - 01h35

"É preciso uma guerra à propaganda islâmica", diz defensora dos direitos das mulheres

Der Spiegel
Conny Neumann e Michaela Schiessl
Ayaan Hirsi Ali, membro eleita do Parlamento holandês, tem sido alvo de ameaças de morte por ter escrito o roteiro de "Submission" (2004) --curta-metragem de dez minutos que descreve a violência exercida contra as mulheres muçulmanas--, um filme que transmite mensagens acusatórias pesadas contra o Islã e que também motivou a morte do seu diretor, o holandês Theo van Gogh, assassinado em novembro do mesmo ano.

Ayaan Hirsi Ali é conhecida por ser uma das vozes críticas de língua mais afiada em relação ao Islã político --e também por estar na berlinda de fanáticos radicais.

Os assassinos de Theo van Gogh deixaram uma ameaça de morte contra Hirsi Ali, numa carta que foi afixada no corpo do cineasta com um punhal.

Depois de um curto exílio, esta deputada de 35 anos, membro do Parlamento holandês e integrante do partido neoliberal VVD, retomou as suas atividades nesta casa e segue no seu combate contra o islamismo. Agora, ela está lançando seu novo livro, intitulado "Eu Acuso", e trabalha numa continuação de "Submission".

Hirsi Ali nasceu na Somália, onde ela vivenciou no dia-a-dia a terrível opressão da qual são vítimas as mulheres muçulmanas. Quando o seu pai tentou obrigá-la a se submeter a um casamento arranjado, ela fugiu num avião com destino à Holanda, em 1992. Mais tarde, ela renunciou à religião muçulmana.

Nesta entrevista a Der Spiegel, ela relata a sua vida como fugitiva, explica como combater o islamismo radical, e argumenta em defesa da "intolerância legítima", que ela considera como uma necessidade.

Der Spiegel - Senhorita Hirsi Ali, o julgamento dos assassinos de Theo van Gogh vai ser iniciado dentro de poucos dias. Um fanático muçulmano apunhalou mortalmente o cineasta em plena luz do dia, quando este estava andando de bicicleta numa rua de Amsterdã, em novembro passado, isso porque, com a sua colaboração, ele havia filmado "Submission", um filme sobre a repressão da qual são vítimas as mulheres muçulmanas. Naquela época, a senhorita tinha idéia de que este curta-metragem de onze minutos poderia pôr em perigo a vida dele e a sua também?

Ayaan Hirsi Ali
- Eu sabia que existem muitos inimigos por aí. Afinal, eles vivem proferindo ameaças contra mim, e principalmente desde o dia em que eu reneguei a minha religião, em 2002. Eu avisei Theo, intimei-o a recorrer aos serviços de seguranças ou a pedir uma proteção mais efetiva às autoridades. Mas ele descartou a minha sugestão, alegando que ele não queria ver a polícia holandesa entrar na sua casa.

Der Spiegel - Será que ele estava mesmo ciente das reações que ele despertaria com este filme nos meios muçulmanos radicais, ao retratar uma mulher muçulmana vítima de abusos, trajando um chador (véu tradicional) transparente, e ao mostrar o seu corpo nu, sobre o qual foram grafados versos do Corão?

Hirsi Ali
- Afinal, a sua intenção era essa mesmo, de ser provocativo. Mas ele subestimou o radicalismo dos seus opositores. Naquela época, já fazia bastante tempo que ele contava com a proteção de guarda-costas, por iniciativa do governo. Mas isso não impedia Theo de continuar a andar de bicicleta pela cidade; além disso, o seu nome continuava na lista telefônica. Todo mundo sabia onde ele morava. Ele era um alvo fácil. A sua única preocupação era comigo, com a minha segurança. Ele continuou a me pressionar, afirmando que eu deveria me mudar para os Estados Unidos e dar início a uma nova vida.

Der Spiegel - O assassino deixou na cena do crime uma ameaça de morte dirigida especificamente à sua pessoa, uma carta de cinco páginas afixada no peito de Theo Van Gogh com um punhal.

Hirsi Ali
- Eu só vim a descobrir este detalhe dois dias depois do crime. Desde então, a minha vida ficou completamente transtornada. No início, a polícia me levava de um lugar para outro, primeiro para um quartel da marinha, depois para uma academia da polícia, e, de lá, fui parar num quarto de dormir ao lado de escritórios do ministério para assuntos europeus.

Der Spiegel - O que a senhorita sentiu durante todos aqueles dias?

Hirsi Ali
- Eu me senti atordoada. Foi apenas recentemente que me dei conta claramente de quão concreta e mortal é esta ameaça. Mas eu também entendi que esta 'fatwa' (decreto religioso islâmico) não se dirige apenas a mim, e sim à Holanda, e ao mundo ocidental como um todo. Todos nós somos alvos. Aos olhos dos muçulmanos radicais, todo e qualquer país onde os muçulmanos podem ser criticados abertamente é um inimigo do Islã.

Der Spiegel - Ainda assim, a senhorita se sente responsável pela morte de Theo Van Gogh.

Hirsi Ali
- Eu tenho sim um sentimento de culpa, embora este esteja misturado com vários outros sentimentos. Sim, eu queria chacoalhar as coisas, acelerar a conscientização das pessoas em relação a estas questões. Mas se eu soubesse que alguém fosse morrer por causa disso, provavelmente não teria escrito o roteiro de "Submission". Eu tentei manter o nome de Theo em sigilo, assim como ocorreu com a atriz e a equipe de filmagem, mas Theo insistiu para ter o seu nome divulgado junto com o seu filme. Para ele, era uma questão de princípios.

Der Spiegel - Nos dias que se seguiram à morte de Theo Van Gogh, quando ficou claro que a sua pessoa era também alvo de extremistas, a senhorita conseguiu pensar com clareza a respeito do que era preciso fazer para lidar com esta situação?

Hirsi Ali
- Não. Eu estava me mudando constantemente de um lugar para outro. Mas, depois de seis dias, eu já estava farta daquilo. Eu fui aconselhada a esconder-me num outro país, caso eu realmente quisesse permanecer no mesmo lugar por um tempo mais longo. Os únicos lugares para onde eu estaria disposta a me mudar eram Israel e os Estados Unidos, porque, nesses países, eles sabem o que a ameaça islâmica significa. Acabei optando pelos Estados Unidos.

Der Spiegel - E foi mesmo possível viver sem maiores transtornos neste país?

Hirsi Ali
- Não. Até mesmo na Califórnia eu fui objeto de uma proteção constante, cercada por guarda-costas. Eu não tinha autorização para sair de casa ou para me encontrar com quem quer que fosse. Dentro de mim, eu continuava a me sentir estarrecida.

Der Spiegel - A senhorita chegou a lembrar de pedir conselho a Salman Rushdie, que, há muitos anos vem sendo alvo de uma fatwa decretada por mulás (sacerdotes) iranianos?

Hirsi Ali
- Antes de tudo isso acontecer, eu não estava em contato com Salman. Eu o encontrei pela primeira vez num jantar organizado pelo PEN Club (associação internacional de escritores que defende a liberdade de expressão), em abril deste ano. Ele me incentivou, pediu insistentemente para que eu me mantivesse firme e forte. Explicou-me de que maneira é possível continuar a viver a despeito de ser alvo de uma fatwa, e deu-me algumas dicas importantes.

Der Spiegel - Por exemplo?

Hirsi Ali
- Ele sugeriu que eu deveria mudar-me de vez para os Estados Unidos, por exemplo.

Der Spiegel - Mas a senhorita não quer. Não é mesmo?

Hirsi Ali
- Ainda preciso refletir a este respeito. Eu me recuperei gradualmente após ter passado dois meses na Califórnia. A temporada de atividades parlamentares estava começando em Haia, e precisei decidir se eu queria retornar ao parlamento ou se eu preferia continuar a me esconder. Eu acabei retornando.

Der Spiegel - Portanto, agora, a senhorita está novamente atuando na qualidade de membro do parlamento, dando entrevistas e publicando livros. O seu livro, "Eu Acuso", vai ser lançado na Alemanha nesta quarta-feira (25/05). Será que a sua vida voltou à normalidade?

Hirsi Ali
- Se a minha vida voltou à normalidade? Eu estou sendo vigiada 24 horas por dia. Os meus guarda-costas estão sempre por perto, onde quer que eu vá. Há dois dormitórios no meu apartamento, um para mim e o outro para dois guarda-costas, que se revezam para dormir. Toda vez que eu abro a minha porta, um deles abre também a porta do outro quarto para verificar o que está acontecendo.

Der Spiegel - A senhorita nunca consegue ficar sozinha?

Hirsi Ali
- Raramente. Mas, de qualquer forma, a minha vida social não é tão intensa assim no momento. Como conseguir cultivar um relacionamento quando você precisa se preocupar constantemente com a possibilidade de colocar em perigo a vida do seu parceiro?

Der Spiegel - A senhorita consegue ir ao cinema, fazer seu cooper matinal ou sair para compras?

Hirsi Ali
- Os guarda-costas tentam se adaptar às minhas necessidades. Todo dia de manhã, eu preciso entregar para eles uma cópia da minha agenda, e não estou autorizada a sair de casa enquanto eles não tiverem concluído seus preparativos. Então, sou conduzida até o prédio do parlamento num veículo blindado. Uma vez lá, eu penetro no recinto por uma entrada lateral, que passou a ser fortemente vigiada desde o assassinato de Theo.

Em conseqüência deste atentado, os ministros do governo também se abstiveram de ir ao trabalho de bicicleta. Um guarda-costas está presente em permanência no meu escritório, e ele fica aguardando do lado de fora, frente à porta, quando estou em reunião. Todas as vezes que eu compareço a algum evento, os policiais locais sempre são acionados e entram em regime de alerta máximo. Pois é, este é o meu estilo de vida, e acredito que as coisas deverão permanecer desse jeito por um bom tempo ainda. Isto é, se eu tiver mesmo a oportunidade de ter uma longa vida.

Der Spiegel - Isso não é grotesco? A senhorita luta pela liberação da mulher muçulmana e agora se vê obrigada a viver cercada por seguranças noite e dia. O seu chador agora consiste nesses guarda-costas. Será que valeu a pena?

Hirsi Ali
- Sim. O Islã radical é perigoso demais para esta sociedade, e provavelmente até mesmo para o mundo inteiro. É importante lutar contra esta ameaça. E, no decorrer deste combate, algumas vidas podem ser perdidas.

Der Spiegel - Agora é a sua vez de falar como se fosse uma mártir de uma causa. Os terroristas de 11 de setembro de 2001 também morreram por uma idéia.

Hirsi Ali
- Eu gostaria de fazer uma distinção a este respeito. Se todos nós permanecermos sem fazer nada e em silêncio, haverá muito mais do que uma ou duas pessoas mortas apenas. Eu prefiro acompanhar o pensamento do filósofo Karl Popper (Sir Karl Raimund Popper, austríaco, 1902-1994). Ele explica que a liberdade nunca pode ser dada como garantida. Ela é vulnerável. Todos nós devemos lutar por ela e estar dispostos a morrer por ela.

A cena islâmica é muito agressiva. Esses muçulmanos que pretendem matar pessoas recebem fortes apoios dos seus países de origem. Existe muito dinheiro para tanto, existem muitos patrocinadores interessados e existem quantidades de pessoas desesperadas que optam por seguir este caminho. Nós temos que nos proteger se quisermos preservar os nossos valores ocidentais. O preço que nós pagamos por isso são essas ameaças de morte.

Der Spiegel - A senhorita parece alimentar uma forte resistência à hostilidade. No seu livro, a sua abordagem volta a ser a de reforçar suas denúncias contra o Islã, assim como fizera anteriormente, e em termos desenfreados e sem restrição, apelando, inclusive para a implantação de políticas que obriguem os imigrantes a se integrarem à sociedade. A senhorita também está envolvida na preparação de uma segunda parte do filme "Submission". O fato de tudo isso ter grandes chances de gerar um ódio ainda maior contra a sua pessoa não a preocupa?

Hirsi Ali
- O que mais podem eles fazer, além de enviarem ameaças de morte? Agora que já me foi dada a sentença máxima, ao menos eu posso agir livremente.

Der Spiegel - A política de intimidação parece ter efeito sobre algumas pessoas. Os produtores do Festival de Cinema do Tessin (em Locarno, na Suíça) não ousaram exibir "Submission".

Hirsi Ali
- Eu acredito que isso vai mudar. Se o Islã for obrigado a se desenvolver pacificamente, vai ser necessário então recorrer a palavras ou a imagens para facilitar a sua integração. E até mesmo os muçulmanos radicais já têm acesso, há muito, à Internet e à televisão por satélite. Nós precisamos ter respostas para isso. Em outras palavras, haverá um "Submission II" e também um "Submission III".

Der Spiegel - Nem todos os colegas do seu partido, o VVD, um partido liberal de tendência direitista, estão muito felizes com o seu engajamento em defesa desta causa.

Hirsi Ali
- O VVD é principalmente um partido voltado para a área econômica que promove os mercados liberais. Ataques ao Islã não fazem parte da plataforma do partido. É por isso que muitos deles estão irritados com o meu trabalho.

Der Spiegel - Por que a senhorita trocou o Partido Trabalhista para o VVD em 2002?

Hirsi Ali
- O Partido Trabalhista e o Partido Verde (ecologista) são por demais politicamente corretos para o meu gosto. Eles acreditam numa ideologia puramente multicultural. Por causa das minhas críticas em relação ao Islã, eu poderia ter sido a causa de um racha dentro do partido, em particular pelo fato de muitos dos seus eleitores serem muçulmanos. Mas eu queria absolutamente aproveitar a oportunidade para lutar pela minha causa no parlamento. A política pode oferecer soluções para problemas sociais, e isso é importante para mim.

Der Spiegel - Desde o assassinato de Theo van Gogh, a senhorita andou aparecendo em inúmeras situações e lugares na mídia. Estará satisfeita com a resposta política em relação à ameaça que representam os fanáticos religiosos?

Hirsi Ali
- Os serviços de inteligência começaram a ficar realmente atentos somente depois do atentado contra Theo, e eles garantem ter agora um melhor controle sobre o movimento. Eles realizaram operações de busca nos apartamentos dos islâmicos presumidos - e há rumores da existência de um vídeo no qual o assassino de Theo, Mohammed Bouyeri, anuncia o ataque. Nele, este militante extremista também explica que não lhe importaria se porventura ele viesse a morrer ao executar o seu ato, porque ele iria diretamente ao paraíso.

Der Spiegel - Mas, as autoridades holandesas já não haviam reagido, depois dos atentados de 11 de setembro?

Hirsi Ali
- Sim, elas tomaram medidas. Convocaram todos os líderes muçulmanos para uma reunião, deram-lhes dinheiro e pediram-lhes para manter os seus jovens sob controle. Aquilo tudo foi risível. Eles tentaram então obrigar os muitos grupos islâmicos diferentes radicados no país a conviverem debaixo de um mesmo teto. Esta iniciativa resultou na formação de dois grupos, um integrado por muçulmanos liberais e outro por muçulmanos ortodoxos. O que o governo holandês esperava dos seus porta-vozes era que eles fizessem cumprir todos os acordos internamente. Isso é simplesmente uma expectativa muito ingênua.

Der Spiegel - Por quê? Afinal, o Islã é uma religião fortemente autoritária, que possui líderes fortes.

Hirsi Ali
- Você sabe como os jovens muçulmanos que são atraídos pelo islamismo radical chamam esses "líderes" que negociam com o governo? De prostitutos de caridade. Eles os consideram como sendo colaboradores, traidores, idiotas.

Der Spiegel - A senhorita que ver esses jovens serem iniciados sistematicamente aos valores ocidentais. Mas eles vivem em comunidades fechadas. Então, como fazer para chegar até eles?

Hirsi Ali
- Para começar, pode-se bater à sua porta! Nós precisamos penetrar nos seus mundos.

Der Spiegel - Quem fizer isso ter grandes chances de ver muitas portas baterem na sua cara.

Hirsi Ali
- Eu não estou dizendo que isso seria fácil. Para escrever o seu livro intitulado "Parentes Invisíveis", a jornalista Margalith Kleijwegt realizou uma pesquisa no bairro marroquino de Amsterdã, onde o assassino de Van Gogh, Bouyeri, morava. No decorrer das suas tentativas, Margalith fracassou nas seis primeiras. Na sétima, abriram-lhe a porta e então ela recebeu inúmeras informações sobre esta comunidade.

Por exemplo, ela descobriu que nenhum dos parentes do assassino nesta comunidade estava a par do crime, e que nenhum dos seus parentes sequer sabia quem era Van Gogh ou tinha ouvido falar do filme. Eles assistem apenas à televisão árabe, a qual alimenta seus pensamentos com teorias da conspiração sobre o Ocidente. Quando eles estão em férias, eles sempre as passam nas suas casas no Marrocos. Eles não sabem nem falar, nem escrever holandês, e não lêem jornais.

A lição que Margalith Kleijwegt transmite no seu livro é que esses pais não estão equipados para proporcionar aos seus filhos a formação que toda pessoa que vive numa sociedade ocidental moderna precisa ter. Eles também têm muitos filhos e esses mundos paralelos estão crescendo. Nós vemos esses mundos como meros espectadores, sem sequer saber o que acontece dentro deles.

Der Spiegel - Quem deveria fazer esses contatos? Os assistentes sociais?

Hirsi Ali
- Com certeza não. Em geral, esses assistentes são por demais politicamente corretos e, na maioria dos casos, eles são muito novos e não têm nenhuma experiência. Não. Existem outras maneiras de entrar lá. Uma delas é a ferramenta política que consiste em impedir um crescimento maior desses guetos. Nós precisamos aplicar uma política de integração que determine às pessoas onde elas podem viver e onde elas não podem, de modo a garantir que haja uma mistura de culturas e de nacionalidades.

Der Spiegel - Tudo isso deixa prever uma tremenda confusão - inclusive por parte dos holandeses também.

Hirsi Ali
- E daí? O que está em jogo é a defesa dos nossos valores, e isso merece certamente ser objeto de discussões.

Der Spiegel - A senhorita não está preocupada com as tensões que iriam crescer dentro dessas comunidades em função destas imposições?

Hirsi Ali
- A outra alternativa gera tensões ainda maiores. Se você permitir que os guetos cresçam, haverá confrontos entre skinheads (militantes de extrema direita) e extremistas muçulmanos, por exemplo. Os outros meios de acesso deveriam ser controlados por meios políticos, tais como a proibição de toda escola que fundamenta seu ensino na difusão de uma religião. As escolas precisam ser fomentos de civilização, lugares que ensinam os valores do Ocidente, os valores da democracia. Nós precisamos tratar essas crianças como se elas fossem nossas - isto é, nós não podemos entregar a sua educação para os defensores de dogmas estrangeiros que as doutrinam com valores antiliberais.

Der Spiegel - Proceder desta forma não equivale a ignorar as culturas dos imigrantes?

Hirsi Ali
- Respeitar cegamente suas culturas também pode ser uma abordagem equivocada. Posso citar um exemplo: muitas crianças dos guetos árabes da Holanda estudam no quadro do currículo escolar os ensinamentos de Ibn Abu-Taymiya, um dos fundadores da ideologia do Islã puro, que prega a guerra santa como estilo de vida. Em vez de estudarem os filósofos europeus, essas crianças aprendem que elas devem seguir preceitos e ensinamentos do século 11!

Der Spiegel - A integração e a cultura européia não podem ser impostas às pessoas.

Hirsi Ali
- Mesmo assim, nós podemos fazer muitas coisas no sentido de diminuir ao menos em parte a gravidade deste problema. É justamente neste ponto que a sociedade pode intervir. Os artistas, os jardins de infância, as igrejas, todos os principais atores sociais deveriam penetrar nesses guetos.

O que está acontecendo é realmente um absurdo: nós temos organizações não-governamentais (ONGs) das mais diversas naturezas que enviam pessoas regularmente para a África com objetivo de convencer as populações a usar camisinhas. Mas elas não se atrevem a enfrentar os problemas que nós temos aqui mesmo, no nosso próprio quintal. Ora, a caridade começa na sua própria casa.

Der Spiegel - Talvez isso esteja acontecendo em parte porque um dos aspectos mais importantes da democracia está no fato de permitir que toda pessoa tenha as convicções que ela bem entender.

Hirsi Ali
- A democracia também inclui a noção de intolerância legítima. O intolerável não pode ser tolerado. Nós precisamos declarar guerra contra a propaganda islâmica. Por que deveríamos ignorar que as mulheres, nas sociedades islâmicas, vêm sendo oprimidas, submetidas a maus-tratos, escravizadas? Por que deveríamos ignorar que pessoas que desempenham papéis importantes nestas sociedades pregam o ódio e fizeram o juramento de nos destruir?

Der Spiegel - Senhorita Hirsi Ali, muito obrigado por conversar conosco.

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