O medo pode ser um negócio lucrativo. Isto, pelo menos, é o que as empresas americanas que vendem dispositivos de segurança estão descobrindo enquanto o governo americano continua gastando bilhões de dólares em uma variedade de diferentes programas de segurança interna. O único problema? A maioria deles é inútil.
Simulações de terrorismo estão em voga nos Estados Unidos. Enquanto isso, o governo continua despejando vastas quantidades de dinheiro na segurança.
Clark Kent Ervin, 46 anos, é uma destas pessoas da quais o presidente americano gosta de depender. O ferrenho republicano é um velho amigo do Texas e que já trabalhou para George W. Bush na mansão do governador.
Por recomendação de Bush júnior, ele conseguiu um cargo no governo de Bush pai. Ervin é um homem afável que geralmente sorri facilmente. A exceção? Quando você menciona seu último empregador --o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, criado há dois anos e meio.
Os problemas no gigante burocrático --com seus 180 mil funcionários-- são inúmeros, disse Ervin, formado em Harvard. "Eu nunca vi algo assim", disse ele.
E como Ervin, nomeado por seu amigo Bush para a posição de mais alto auditor interno da frente de segurança interna, ficou repentinamente desempregado?
Seus relatórios sobre o caos, corrupção e desperdício no departamento foram tantos e tão abrangentes que ele se tornou um risco para o presidente. Desde que Ervin foi forçado a deixar o departamento, o espírito de corrida do ouro na indústria de segurança americana, cujos excessos estavam no centro das queixas de Ervin, prossegue impune.
O negócio do medo nos Estados Unidos da América tem crescido desde 11 de setembro de 2001, e o preço para o cordão protetor de dispositivos de alta tecnologia que visa manter o país a salvo de novos ataques terroristas é enorme.
Dispositivos que visam detectar material nuclear em contêineres de carga custarão ao governo americano US$ 300 milhões. O orçamento para a Iniciativa de Proteção Americana, um plano que pede o monitoramento das fronteiras do país com sensores ou robôs, tem o alto preço de US$ 2,5 bilhões.
US$ 10 bilhões adicionais são destinados a um novo sistema de computadores projetado para monitorar visitantes, ao mesmo tempo em que a instalação de sistemas antimísseis em todas as 6.800 aeronaves da aviação comercial americana custará aproximadamente o mesmo valor.
O orçamento total para Segurança Interna em 2005 chega a assustadores US$ 50 bilhões --quase o equivalente ao produto interno bruto da Nova Zelândia.
"O mercado está crescendo a uma taxa incrível", diz com entusiasmo a Associação da Indústria de Segurança em seu "almoço de contato" com membros do Congresso e funcionários do governo.
Por todo o país, convenções estão sendo realizadas onde produtos como centros de comando de emergência móveis e handhelds Blackberry que fornecem acesso direto aos computadores do FBI são oferecidos. Outro item popular é o "Fido", um dispositivo do tamanho de um celular usado para detectar material explosivo.
A demanda está em alta, especialmente agora que o preço de um cão farejador de bomba decente disparou nos Estados Unidos para US$ 10 mil.
Um homem despeja sangue falso em vítimas durante o TOPOFF3, um exercício de US$ 16 milhões produzido pelo Departamento de Segurança Interna para simular um ataque químico ou biológico.
"Nós chamaremos estes de os bons velhos tempos daqui 10 anos", disse um entusiasmado Ray Oleson, cuja empresa de tecnologia da informação registrou um aumento de vendas de 50% no primeiro trimestre deste ano. A revista americana "US News & World Report" chama o boom dos negócios de "a versão de Washington de um mercado turco".
Ervin, o auditor demitido, está desconfiado do atual clima de consumismo e preferiria gastar os recursos de forma mais lenta e judiciosa. Afinal, grande parte do que a indústria está mascateando como produtos projetados "para proteger o futuro da América" (um slogan de marketing da indústria) provou ser insuficientemente desenvolvido e propenso a falhas.
Até hoje, os detectores nucleares nos portos são incapazes de distinguir entre bombas e cama de palha para gatos e bananas, levando funcionários alfandegários frustrados a simplesmente desligá-los. Os novos detectores de explosivos de US$ 1,2 bilhão para a Administração de Segurança dos Transportes (TSA), uma divisão da Segurança Interna, são igualmente não confiáveis.
Outra crítica à forma como o dinheiro é gasto pela Segurança Interna é de que ele não é devidamente distribuído. O mercado de segurança está prosperando em lugares como as Ilhas Virgens, Samoa Americana e Wyoming -lugares que dificilmente vêm à mente como alvos terroristas potenciais.
Mas segundo as exigências estipuladas pelo Congresso, o orçamento do Departamento de Segurança Interna deve ser igualmente distribuído entre todos os Estados e territórios americanos.
No ano passado, Wyoming gastou US$ 37,74 per capita em segurança interna enquanto o Estado de Nova York teve que se virar com US$ 5,41 per capita. O resultado? Todo policial em Wyoming agora tem seu próprio traje protetor contra armas químicas e biológicas.
Para assegurar que toda esta lucrativa hemorragia de dinheiro dos contribuintes americanos não acabe tão cedo, a indústria de segurança interna tem seguido o exemplo da indústria de defesa e contratado especialistas que são apelidados apropriadamente de "fazedores de chuva" --pessoas do meio político dispostas a vender sua influência a quem der o lance mais alto.
Tom Ridge, o ex-secretário de Segurança Interna, agora está fazendo lobby em nome da segurança de contêineres, enquanto muitos de seus ex-assessores abriram escritórios na rua K, o local de preferência dos lobistas em Washington.
De fato, nos três anos desde que surgiu, a Administração de Segurança dos Transportes já trocou quatro vezes de diretor. Cada um dos diretores predecessores do atual foram simplesmente incapazes de resistir às tentações da indústria.
Richard Clarke, o ex-chefe de contraterrorismo da Casa Branca, alertou que "nunca teremos uma equipe competente se continuar assim". Segundo um estudo do governo, até o momento apenas quatro dos 33 programas de proteção doméstica do Departamento de Segurança Interna são considerados eficazes, levando o novo secretário de Segurança Interna, Michael Chertoff, a prometer ao Congresso que avaliará de forma mais atenta a forma como o departamento gasta seus bilhões.
Mas apesar das promessas de Chertoff, as perspectivas da indústria permanecem tão boas como sempre. De fato, o secretário disse recentemente em um encontro de 400 executivos do setor que o governo ainda depende da ajuda deles. "Nós precisamos de vocês para tornar a América um lugar mais seguro", disse ele -obtendo enorme aplauso.