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13/09/2005 - 00h00

Trocando a caipirinha pelo chucrute

Der Spiegel
Daniela Gerson

Em Hamburgo
Antigamente eram os alemães que migravam para o Novo Mundo em bandos. Agora, o Novo Mundo, sob a forma de milhares de brasileiros, é que está se mudando para a Alemanha. Os brasileiros são um dos grupos de estrangeiros que mais cresce no país, e já estão começando a deixar sua marca.

Ana Paula chegou em Berlim na primavera passada com seu kit de manicure, luvas de fazer limpeza e vontade de trabalhar. Ela estava preparada para fazer qualquer coisa para sustentar sua filha, que ficou no Rio de Janeiro. Exceto tornar-se uma prostituta.

Ela pensou que seria fácil. Uma amiga de infância que emigrara anos atrás convenceu-a a ir para a Alemanha com a promessa de conseguir riquezas inatingíveis no Brasil. Pronta para encarar a aventura, Ana Paula vendeu seu apartamento num bairro de classe média do Rio, deixou a filha de dez anos morando com sua mãe, e disse adeus ao namorado.

A primeira coisa que fez em Berlim foi procurar trabalho. "Eu precisava pagar a escola da minha filha", diz Ana Paula, de 34 anos, com lágrimas nos olhos. Ela telefonou para a mãe logo ao chegar à Alemanha. "Quando você vai nos mandar dinheiro?", foi a pergunta que ouviu.

Sentindo o desespero de Ana Paula, a amiga propôs uma solução: a prostituição pode ser uma forma rápida de conseguir dinheiro, e ela sabia de um prostíbulo que estava contratando. "Ela pensou que essa era a única maneira pela qual eu conseguiria dinheiro rapidamente. Ela achava que estava me ajudando", diz Ana Paula, que recusou a oferta.

12 horas por dia a 300 euros por mês

Em vez disso, com a ajuda de amigos em Hamburgo, Ana Paula lançou-se em uma carreira na emergente economia informal alemã, e rapidamente encontrou ofertas de trabalho como faxineira, babá e garçonete em restaurantes --sempre por baixo dos panos.

O trabalho --que toma 12 horas por dia e paga menos de 300 euros por mês mais alojamento-- não é nada de que ela goste e está longe de ser o que ela imaginava da Europa. Agora, ela quer retornar ao Brasil, mas perdeu seu vôo de volta e teme regressar ao Rio de Janeiro mais pobre do que partiu.

De certa forma, há um lado bom na história. Mesmo sem saber falar alemão, ela acha razoavelmente fácil viver em Berlim. Já que os brasileiros, antes de mais nada, são abundantes na capital alemã.

Embora ainda seja relativamente pequena --o consultado brasileiro fala em 40 mil pessoas--, a comunidade brasileira é uma das que mais cresce na Alemanha. Trata-se de um grupo de imigrantes bastante diverso financeira e socialmente --que tem desde acadêmicos a cozinheiros, e de babás a engenheiros.

Aqueles que trabalham ilegalmente como Ana Paula são minoria --não mais de mil, de acordo com Bianca Donatangelo, editora da publicação bilingüe Brazine (www.brazine.de). Com a instabilidade econômica brasileira e a violência e corrupção que não dão sinal de trégua, o grupo de expatriados na Alemanha está exercendo cada vez mais atração do outro lado do Atlântico.

E os brasileiros já começaram a deixar sua marca na Alemanha. Com eles, uma nova estrutura é acrescentada ao sistema social alemão, trazendo novos desafios para um país que tradicionalmente não se considerava uma nação de imigrantes. Mas há também uma extremo desequilíbrio de gênero entre os brasileiros que migram para a Alemanha: mais de três quartos são mulheres, de acordo com estatísticas do governo alemão.

Migrando por amor

Aos 21 anos e recém-casada, a baiana Ligia Paffenholz de Farias quase entrou em choque quando chegou à cidade natal de seu marido, em 1967. A cidade provinciana de Aurich, no norte da Alemanha, onde ela era a única brasileira, era uma realidade distante de sua ensolarada terra natal.

"Era um lugar maravilhoso: limpo, bonito", diz Ligia, hoje uma atraente mulher de 59 anos, sem muitas rugas, com quatro piercings e o corpo esbelto de alguém muito mais nova.

"Mas foi difícil. Os brasileiros são muito abertos e emotivos. Nós temos a sensibilidade à flor da pele, como se costuma dizer. Já os alemães são mais analíticos, responsáveis, mais fechados e mais sérios... Depois de um ano eu não agüentava mais. Eu chorava de saudades do Brasil --e então voltei."

Seu marido, um engenheiro alemão que ela havia conhecido no Brasil, encontrou trabalho em Minas Gerais. Durante anos, os dois viveram em vários lugares do mundo: primeiro no Brasil, depois na Nigéria e no Iraque. Quando ela voltou à Alemanha, em 1983, fixando-se na cidade de Hilden com seus três filhos pequenos, percebeu que mais brasileiros estavam chegando. "Hoje é normal ser brasileiro", disse categoricamente no mês passado, durante o show de um de seus filhos, que toca samba e bossa nova na Alemanha.

Ainda que Ligia, que é artista, afirme que nunca será totalmente aceita como integrante da sociedade alemã, a situação melhorou durante as últimas quatro décadas. Ela não é mais menosprezada por causa de seu sotaque e não se sente mais discriminada por causa da cor de sua pele.

"Hoje, eu não tenho nenhum problema na Alemanha", disse ela, acidentalmente deixando palavras em alemão escorregar por entre seu português. "A Alemanha está bem melhor. O temperamento será sempre o mesmo, mas o país ficou bem melhor".

Mudança nos padrões de migração

A onda de imigrantes brasileiros na Alemanha começou a intensificar-se de fato há cerca de 15 anos. E marcou a reversão de um movimento de migração que já dura mais de 200 anos. Desde o início do século 19 até a 2ª Guerra Mundial, cerca de 260 mil alemães mudaram-se para o Brasil em busca de uma melhor fortuna no Novo Mundo. Em 1929, aproximadamente um milhão de pessoas falava alemão no Brasil.

Mas, no começo dos anos 90, com uma poderosa combinação de crise econômica, corrupção excessiva e tarifas aéreas mais baratas, os brasileiros começaram a descobrir a Alemanha. Enquanto o consulado brasileiro e o censo alemão jogam com números mais conservadores, dando conta de 27.076 brasileiros na Alemanha em 2004, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil afirma que a comunidade já chegou a 60 mil imigrantes. Se esses números estiverem corretos, a população de brasileiros na Alemanha pode ser considerada uma das maiores na Europa.

Além dos benefícios econômicos que a Europa tem a oferecer, a Alemanha tem seus próprios atrativos. O intercâmbio acadêmico entre os dois países é bastante comum e várias companhias alemãs têm negócios estreitos com o Brasil.

A atitude liberal com relação aos gays atraiu muitos homossexuais brasileiros, que hoje formam uma grande comunidade no país. Artistas, por sua vez, ainda consideram mais prestigioso trabalhar na Alemanha do que no Brasil.

Os sinais desse fluxo de migração são evidentes. Mercearias começaram a vender produtos típicos do Brasil, como farinha de mandioca e guaraná. A caipirinha é agora a bebida nacional alemã e o país se tornou o principal importador de cachaça. O samba já é um fenômeno e a capoeira também está crescendo. Missas em português podem ser encontradas na maioria das grandes cidades.

Mas mesmo com o crescimento da comunidade brasileira, o número de mulheres imigrantes continua sendo maior. A principal razão dessa desigualdade talvez seja o romance entre homens homens alemães e mulheres brasileiras. Em 2003, os casamentos entre alemães e brasileiras registrados na Alemanha chegaram a 755 --número dez vezes maior do que o de casamentos entre alemãs e brasileiros.

Algumas delas conheceram seus maridos no exterior, outras, em visitas turísticas à Alemanha. Adriana Nunes, uma jornalista que vive em Colônia e é autora do livro "Brasileiros na Alemanha", acredita que a explicação é bastante simples: embora pareça uma concepção ultrapassada, as mulheres são mais freqüentemente capazes de deixar tudo para trás para viverem com seus maridos no exterior.

Casando com um visto de residência

É claro, observa Adriana, nem todas as mulheres brasileiras vão à Alemanha por causa de um homem. Há muitas que vão sozinhas como estudantes ou babás para tentar trabalhar.

Para estas, como Ana Paula, que não têm visto de trabalho, a solução mais fácil é casar-se com um alemão. "Você tem de casar para conseguir os documentos", diz ela. "Tem muita gente aqui que se casa somente para conseguir o visto, para continuar no país". E encontrar um marido alemão é fácil, acredita. "Basta ir a um bar brasileiro. Eles estão sempre cheios de alemães procurando por mulheres brasileiras". Por enquanto, entretanto, ela espera não ter de apelar para esse recurso.

Kátia Silva, uma advogada brasileira especializada em divórcios, freqüentemente aconselha mulheres que se encontram numa situação diferente. Infelizmente, o que parece ser um par perfeito em uma praia de Pernambuco ou num bar de Berlim, nem sempre sobrevive a um longo e frígido inverno alemão. Em Colônia, a escrivaninha de Kátia tem pilhas de papéis de divórcio, e no ano passado, seu escritório realizou quase 200 processos, quase metade de brasileiras.

"De prostitutas a médicas, elas vêm sempre com os mesmos problemas", diz Silva. Primeiro, sofrem para entender a mentalidade alemã, depois, o sistema legal. "Elas trocam uma vida no Brasil por uma vida na Europa", continua. "Normalmente vêm de cidades muito pequenas, são negras, e têm sérios problemas para se adaptar".

Cada vez mais, a Alemanha é vista por muitos brasileiros como um potencial de fartura econômica --uma pausa temporária no caminho para uma vida melhor no Brasil. Mas não é um caminho fácil. Mesmo para aqueles com visto de trabalho, experimentar uma situação como a de Ana Paula não é incomum. Trabalhos na cozinha, na construção ou no cuidado do número cada vez maior de idosos do país, são normalmente as ofertas disponíveis para os brasileiros.

"Nossa vida na Alemanha se resume a trabalho. Não temos tempo para nos divertir", diz Luciene Barros, 29, uma imigrante de Natal. Depois que seu marido se formou na faculdade de Economia e não conseguiu trabalho no Brasil, o casal decidiu seguir os passos da irmã de Luciene, e mudou-se para Berlim.

"Nós economizamos no Brasil para viver aqui desse jeito", suspira Luciene, que trabalha como faxineira em duas casas por dia, enquanto seu marido passa a semana trabalhando como pedreiro no sul. Mesmo assim, ela insiste no objetivo de economizar dinheiro suficiente para voltar ao Brasil nos próximos dois anos.

Ana Paula também sempre pensa em voltar ao Brasil. Ela encontrou trabalho facilmente, e consegue mandar 100 euros por mês para sua mãe, mas vive com a preocupação de ser descoberta pelas autoridades alemãs. Depois de apenas quatro meses na Alemanha, ela filosofa sobre o país.

"Entre o Brasil e a Europa, é claro que prefiro Berlim", diz. "O Rio tem violência, já aqui você pode andar nas ruas". Mas, no dia-a-dia, ela só pensa em sua volta, mesmo que não seja o vitorioso retorno com o qual ela tinha sonhado. A Alemanha é limpa e segura, mas não é sua casa.

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