O prefeito Claude Dilain senta-se na beirada da cadeira no salão de casamentos de sua comunidade. Tem as mãos cruzadas sobre a mesa à sua frente, e seu rosto é um reflexo torturado das dúvidas e temores que ele carrega.
Nos últimos dez anos, Dilain, 57 anos, é prefeito de Clichy-sous-Bois, um subúrbio no nordeste de Paris com 28.100 habitantes, na maioria imigrantes. Dilain o chama de "barril de pólvora". Ele lembra ligeiramente o escritor francês Michel Houellebecq, mas hoje está ainda mais pálido que o autor. A tensão das últimas noites sem dúvida faz parte disso. Mas também há uma crescente suspeita --de que o Estado do bem-estar moderno talvez seja totalmente incapaz de enfrentar alguns dos problemas mais prementes de sua comunidade.
 | |
| Bombeiro apaga fogo em carro atingido por manifestantes em Estrasburgo, no extremo leste |
Dilain é um socialista e vice-presidente da Convenção Francesa de Autoridades Municipais. Ele tem sido um prefeito atuante: criou uma escola de futebol gratuita para os jovens locais, indicou líderes juvenis como mediadores e garantiu que a coleta de lixo da comunidade funcionasse adequadamente.
Clichy-sous-Bois é uma mistura de escolas, creches, escritórios da previdência, parques e uma faculdade que parece saída de um concurso de arquitetura. A biblioteca comunitária atualmente promove um concurso de redação com o tema "Eu venho de longe, eu gosto do meu país".
Sob qualquer avaliação, Dilain fez tudo certo. Mas hoje ele está tomado pela terrível sensação de que fazer as coisas certo talvez não seja suficiente.
Educação sem empregosOs noticiários da televisão mostram Clichy essencialmente como uma Ramallah-sous-Bois, um lugar onde os jovens de tênis e abrigos com capuz experimentam a revolução. Eles mostram a polícia antimotins armada com balas de borracha e gás lacrimogêneo patrulhando as ruas cheias de carros e latas de lixo incendiados.
Um porta-voz do sindicato da polícia pede que o governo mobilize os militares. E tudo isso contra o pano de fundo de muros de concreto cobertos de pinturas em cores fortes, trabalho de crianças locais num programa patrocinado pela prefeitura.
Clichy-sous-Bois serve como evidência de que a via francesa da integração suave falhou miseravelmente. De que adianta a educação quando não há empregos? A posição pertinaz do ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, só piorou as coisas. E quando Sarkozy, que ambiciona tornar-se presidente da França, chamou as gangues de jovens de "escória" e "gentinha", que deve ser enfrentada com severidade, só adicionou lenha à fogueira.
A capital francesa tem uma intifada se desenrolando à sua porta. Durante 12 noites consecutivas, recipientes de lixo e veículos foram queimados no departamento de Seine-Saint-Denis. Noite após noite, bandos de adolescentes percorrem os bairros atirando coquetéis Molotov em lojas de tapetes e escolas de enfermagem, transformando veículos em fogueiras --250 numa noite, 315 na outra, 500 na seguinte.
Em 27 de outubro, dois adolescentes locais morreram em circunstâncias que ainda não foram esclarecidas. Diz-se que eles fugiam da polícia --embora as autoridades tenham negado-- e acabaram em um beco sem saída, no final do qual existia uma subestação de eletricidade.
A placa de advertência que o prefeito Dilain mandou colocar na entrada do prédio --com personagens de quadrinhos para os jovens da área-- não deteve Banou, 15 anos, do Mali, e seu amigo Ziad, um tunisiano de 17 anos. Eles morreram eletrocutados. Um terceiro rapaz sobreviveu, mas com ferimentos graves.
O rumor de que a polícia havia levado os dois à morte rapidamente se espalhou. Desde então tem havido distúrbios nas ruas todas as noites, e o governo francês está em crise.
As autoridades têm dificuldades para enfrentar essas guerrilhas urbanas. O número de detenções --230 até a última sexta-feira, com um número inferior de condenações-- foi pequeno comparado com o âmbito da violência e destruição. No domingo à noite, porém, 190 pessoas foram detidas pela polícia francesa depois que esta foi alvejada por manifestantes em Grigny, ao sul de Paris.
Perigo para a RepúblicaO presidente francês, Jacques Chirac, e o primeiro-ministro, Dominique de Villepin, permaneceram em silêncio sobre o assunto durante cinco dias, dando a impressão de que observavam passivamente enquanto a violência ameaçava vaporizar as ambições políticas de Sarkozy. Mas então eles admitiram que os eventos dramáticos em Clichy-sous-Bois poderiam realmente colocar em grave perigo toda a República.
O presidente Chirac foi instado a falar diretamente ao público francês em um pronunciamento pela televisão, o que finalmente fez no domingo à noite. "A lei e a ordem devem ter a última palavra", insistiu o primeiro-ministro Villepin. O dinâmico Sarkozy finalmente deu sinal de vida e cancelou todas as viagens ao exterior, assim como Villepin. Os três parecem ter percebido que a integração à francesa --que transformou os recém-chegados em cidadãos desde a Revolução Francesa-- falhou.
Os manifestantes são filhos de imigrantes da África do norte e subsaariana. As escolas estão em férias na França, dando a esses jovens ainda mais tempo livre, e também é o final do período de jejum do Ramadã, época em que os nervos já ficam fragilizados.
Sua rebelião é dirigida contra qualquer coisa que lembre mesmo remotamente a autoridade do Estado, até o carteiro. Eles estão além da razão e ninguém, nem seus pais, professores e muito menos as autoridades conseguem alcançá-los.
As divisões na sociedade francesa hoje percorrem linhas étnicas e religiosas, e também refletem profundas diferenças culturais. O ideal da República Francesa --a nação como uma comunidade de dispostos, de cidadãos que desfrutam direitos iguais, independentemente de suas origens étnicas ou crenças religiosas-- está dando lugar a uma coexistência volátil entre comunidades que querem manter suas identidades e viver de acordo com suas próprias regras.
A posição oficial francesa sempre foi condenar o multiculturalismo --e agora o Estado deve enfrentar as conseqüências.
Entre "nós" e "eles"A separação rígida de Igreja e Estado, um pilar sacrossanto do governo francês, se tornou uma ilusão. Jihad pode não ser o que está inspirando os manifestantes, mas o Islã é inegavelmente um componente inseparável de sua identidade própria. O Islã fortalece seu senso de solidariedade, lhes dá a aparência de legitimidade e traça uma linha clara entre eles e os outros, os "franceses".
De repente, "os irmãos mais velhos" --devotos barbados das mesquitas que vestem os longos mantos tradicionais-- se posicionavam entre as autoridades e os manifestantes na Clichy-sous-Bois, pedindo ordem em nome de Alá. Enquanto milhares de vozes gritavam "Allahu Akbar" das janelas dos prédios de apartamentos, calafrios percorriam as espinhas dos espectadores de televisão em suas aparentemente seguras salas de estar.
Por mais bem-vindos que estes autonomeados mantenedores da paz possam ser, autoridades preocupadas acham que detectaram algo semelhante a um grupo muçulmano de manutenção da lei --talvez até o nascimento de uma milícia islâmica. "A lógica por trás desta perturbação", disse um policial, "é a secessão".
Se ele estiver certo, seria um cenário de pesadelo de bairros e comunidades inteiras se separando do Estado e essencialmente declarando sua independência, criando zonas com leis próprias, áreas às quais as autoridades não teriam mais acesso a menos que desejassem ser vistas como intrusas hostis.
Nos últimos 25 anos, a França contou com programas especiais, planos e secretarias suburbanos para seus bairros problemáticos. Na verdade, os franceses ficaram quase acostumados à visão de contâineres de lixo queimando nos subúrbios pobres de cidades como Paris, Lyon, Estrasburgo e Marselha.
Mas agora há uma escalada dos problemas, com as autoridades registrando 70 mil casos de vandalismo, incêndio criminoso e violência de gangues apenas neste ano. Não menos que 28 mil veículos --a maioria pertencente aos pobres-- foram incendiados.
Os coquetéis Molotov, os atiradores de pedras e o fanatismo, tudo lembra os protestos de estudantes de 1968. Mas desta vez os manifestantes não são os de vanguarda, seus líderes não são intelectuais de esquerda como Jean-Paul Sartre ou Daniel Cohn-Bendit.
Geração JihadO que está abalando a ordem pública nas cidades da Europa atualmente é o desespero em ebulição que explodiu em violência sem direção. Os alvos dos manifestantes podem facilmente ser tanto o governo em Paris quanto outros membros da classe baixa, como foi recentemente o caso em Birmingham. É claro, os ataques terroristas em Madri e Londres ainda estão frescos na mente das pessoas.
Foi uma mera coincidência a rainha Elizabeth e o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, terem se encontrado na terça-feira passada com parentes das 52 vítimas dos atentados ao metrô e ônibus em Londres, para lamentar oficialmente a morte deles em 7 de julho. Também foi apenas coincidência ter sido marcado na quarta-feira passada o aniversário do assassinato do cineasta holandês Theo Van Gogh por um extremista islâmico. Mas estas são coincidências altamente simbólicas para passarem desapercebidas, como ficou evidenciado em um recente artigo na revista "Time" que descreve uma "Geração Jihad" se formando na Velha Europa.
Os eventos em Birmingham e nos subúrbios de Paris não estão relacionados ao terrorismo. Os tumultos não se referem a jihad, Irã ou Palestina. Mas provocaram uma crescente preocupação de que esta violência urbana pode facilmente se tornar um solo fértil para organizações terroristas como a Al Qaeda e outros grupos extremistas.
Segundo números oficiais, a França é lar de pouco mais de 5 milhões de muçulmanos, a maior concentração per capita de muçulmanos entre os países da União Européia. Mas o número oficial é considerado não confiável; a religião não é registrada pelo censo francês.
Os muçulmanos da França se sentem marginalizados, assim como milhões de outros imigrantes de antigas colônias por toda a Europa, muitos dos quais desempregados. Eles vivem em guetos suburbanos, incapazes de viver em bairros melhores.
Agora, com os guetos se transformando em campos de batalha, a noção de que os imigrantes se integrarão voluntariamente está sendo questionada. É claro, parte do problema está no próprio número de imigrantes --e no fato de tenderem a viver todos no mesmo lugar.
A metropolitana Birmingham, a segunda maior cidade da Grã-Bretanha, tem uma população de quase 1 milhão, e cerca de um terço dela é composta de descendentes de africanos ou asiáticos. Os estatísticos acreditam que a maioria tradicional branca de Birmingham poderá se tornar minoria na próxima década, e o mesmo vale para Amsterdã, atualmente lar de cerca de 150 nacionalidades diferentes.
Ajoelhando-se para Meca na DisneylândiaAlguns americanos estão chamando esta nova Europa de "Eurábia", uma referência à crescente influência do Islã e da cultura árabe na Velha Europa, apesar de suas raízes políticas e culturais no cristianismo. De fato, um entre 10 cidadãos holandeses nasceu no exterior. A Disneylândia perto de Paris até mesmo oferece salas de oração para os muçulmanos franceses. Na Grã-Bretanha, a maioria dos imigrantes das antigas colônias foram parar na pobreza dos guetos.
Como membros desta "nova classe baixa desesperada e perigosa", como a chamam os assistentes sociais em Leeds, podem se tornar cidadãos responsáveis? Quem os impede de atacarem uns aos outros, como foi o caso há duas semanas em Birmingham?
Não é preciso muito para estourar a violência. A recente inquietação em Lozells, um dos bairros mais pobres de Birmingham, resultou em dois mortos, 20 feridos e um grande número de janelas quebradas e veículos incendiados. A violência irrompeu quando jovens asiáticos, a maioria com pais oriundos do Paquistão e da Índia, entraram em choque com os filhos de imigrantes do Caribe.
Em Birmingham, a violência foi detonada pelo rumor de que Ajaib Hussein, o dono de uma loja de cosméticos bem-sucedida, pegou uma garota jamaicana de 14 anos roubando e então, acompanhado por até 25 conhecidos e funcionários, estuprou a garota. Não há evidência de que o incidente tenha ocorrido, nem de que a suposta vítima exista. Mas a simples suspeita --assim como em Clichy-sous-Bois-- foi suficiente para dar início à pior violência em Birmingham em mais de 20 anos, evidência da enorme tensão em subúrbios com composição social semelhante.
Em Lozells, lar de cerca de 30 mil pessoas, mais da metade dos moradores é de origem asiática e 20% são caribenhos. A taxa de 22% de desemprego no distrito é quase três vezes mais alta do que em toda a região de Birmingham. "As pessoas aqui tem que lutar por cada migalha que cai das mesas dos ricos", disse o bispo negro Joe Aldred.
A violência é alimentada por gangues de rua como os "Panteras Muçulmanos de Birmingham" e pelos "Burger Bar Boys", grupos formados originalmente para proteger os moradores de ataques racistas. Eles acabaram se transformando em sindicatos do crime, e Lozells se tornou uma metáfora para as políticas fracassadas de imigração e integração da Grã-Bretanha, uma comunidade que o governo só pode controlar por meio do policiamento.
Guetos como estes apareceram em Chicago e Miami, disseram especialistas, e a fúria daqueles que vivem lá é dirigida aos vizinhos com cor de pele diferente e televisores maiores --e não aos "infiéis do Ocidente".
"Buracos negros"O establishment branco da Grã-Bretanha, alertou Trevor Phillips, chefe da Comissão para Igualdade Racial, está "caminhando como sonâmbulo" na direção de um futuro no qual as cidades estarão cheias de "buracos negros".
Recentes pesquisas revelaram que 95% de todos os britânicos brancos têm apenas amigos brancos, que 37% dos moradores não brancos também preferem amizades entre seu próprio grupo e que esta tendência está aumentando, especialmente entre os jovens. Em locais como Lozells, apenas uma entre 15 crianças tem sucesso em subir a escada social.
Tais bairros são férteis áreas de recrutamento para os fundamentalistas, porque "a maioria dos muçulmanos na Grã-Bretanha está frustrada mas não pode falar a respeito", disse Sayid Sharif, 37 anos, um imigrante e engenheiro civil do norte de Londres. "Eles nunca expressariam publicamente aprovação aos ataques em Londres, mas acreditam secretamente que a Grã-Bretanha teve o que merecia."
A Grã-Bretanha lamentou oficialmente as vítimas dos atentados de 7 de julho apenas na semana passada --psicólogos recomendaram que isto não fosse feito antes. Poucos dias depois do outro lado do canal, a Holanda marcou o primeiro aniversário do assassinato do cineasta Theo Van Gogh. Ele foi morto por um extremista marroquino desempregado.
Os holandeses também enfrentam a ruína de sua própria política de integração, há muito considerada exemplar. De fato, para a especialista americana em terrorismo, Jessica Stern, a Holanda é "um laboratório especialmente adequado para o estudo do desenvolvimento do medo".
Stern ficou espantada em como o assassinato de um único indivíduo foi capaz de afetar todo um país. "Como uma nação repentinamente se torna tão consumida pela dúvida? E como pode ser que não apenas os muçulmanos, mas também os holandeses natos, se vejam em tamanha crise de identidade?"
É esta integração? 60% dos 1 milhão de muçulmanos da Holanda vêem a si mesmos primeiro como marroquinos ou turcos, geralmente têm orgulho de suas normas e valores e buscam refúgio em suas próprias comunidades.
Isto cria mundos paralelos tão díspares que os filhos de imigrantes falam dos 'holandeses' como inimigos. Seus irmãos freqüentam escolas corânicas e mais e mais mulheres muçulmanas vestem lenços de cabeça em público. A interação entre muçulmanos e holandeses está se tornando cada vez mais abrasiva, especialmente em locais públicos como as ruas de comércio de Amsterdã.
Chega de cháJornalistas, advogados e políticos de todo tipo têm recebido ameaças anônimas. Mesmo o prefeito de Amsterdã, Job Cohen, que foi nomeado pela revista "Time" como um dos "heróis europeus" de 2005 por sua posição conciliatória, agora precisa de guarda-costas. E as autoridades holandesas estão instalando mais e mais câmeras de vigilância nos bairros urbanos mais voláteis do país.
"Nós fomos brandos demais. Os dias de beber chá acabaram", disse a ministra da Imigração holandesa, Rita Verdonk, que adotou uma postura linha-dura em relação aos encrenqueiros. Seus agentes têm cada vez mais deportado pessoas que tiveram seu pedido de asilo rejeitado, incluindo aqueles que antes eram tolerados e cujos filhos até mesmo freqüentavam escolas holandesas.
Segundo uma estatística compilada pela Fundação Anne Frank, ocorreram 106 atos de vingança recíprocos desde o assassinato de Van Gogh, incluindo uma bomba incendiária contra a Escola Primária Bedir muçulmana, na tranqüila cidade de Uden, por uma gangue jovem que deixou uma mensagem clara para os muçulmanos do país: "Poder Branco".
A zona de combate está expandindo, espelhando um cenário que o autor Michel Houellebecq descreveu em seu mais recente best seller. E parece que os imigrantes da Europa estão mudando a vida no continente de forma drástica, com Birmingham e os subúrbios de Paris fornecendo uma amostra do que pode estar por vir para a Europa.