A violência recente em São Paulo pode ser apenas a ponta do iceberg: em muitas partes do Brasil, assim como por toda a América Latina, os governos capitularam aos gângsteres e a ascensão do crime organizado poderá encerrar a inclinação para a esquerda na América Latina.
Caçambas de lixo bloqueavam a rua que levava à favela de Vigário Geral, uma das mais perigosas do Rio de Janeiro. Um visitante se aproximou da barricada e dois jovens emergiram das sombras de um prédio próximo. Eles estavam carregando metralhadoras e revólveres estavam enfiados em suas calças. "Você quer ir à igreja, né?" o mais velho perguntou educadamente ao estranho. "Nós vamos levar você lá... somos registrados."
Um garoto afastou as caçambas. Os jovens colocaram seus rifles Kalashnikov no banco de trás do táxi e orientaram o motorista pelas ruas labirínticas. O pastor Marco Freitas recebeu seu convidado diante da igreja da Assembléia de Deus, uma seita protestante. O pastor conhecia os dois jovens: "Eles me respeitam; eles freqüentemente vêm ao culto. É apenas durante as ações policiais que as coisas ficam perigosas".
Mas ações policiais raramente ocorrem. "Nós geralmente somos avisados com antecedência", disseram os jovens. Eles escoltaram o visitante de volta ao acesso à estrada e se despediram. É ali que o território deles termina e começa o da lei e ordem do Brasil -o Brasil do "asfalto", como a máfia das drogas o chama.
A favela de Vigário Geral faz parte do reino das sombras das gangues do narcotráfico e seus soldados altamente armados. O território não está marcado em nenhum mapa. Gângsteres paramilitares controlam a maior parte das cerca de 700 favelas do Rio. Os chefões do tráfico decidem se a companhia elétrica instalará uma nova linha de força ou não; eles decidem quando a pré-escola fecha e quem pode visitar o pastor. Eles formaram um governo paralelo -como os dos presídios de São Paulo, das favelas de Caracas e Medellín, das ruas de Acapulco e da Cidade do México.
O crime organizado está em ascensão por toda a América Latina. A organização mafiosa mais importante no Rio se chama Comando Vermelho; sua principal fonte de renda é o tráfico de drogas nas favelas. São Paulo é controlada pelo PCC (Primeiro Comando da Capital). Suas áreas de perícia incluem assaltos a banco e roubo de carga; ele também controla o tráfico de drogas nos presídios.
Gangues de seqüestradores espalham medo e terror em Caracas e na Cidade do México. Os cartéis da cocaína controlam a área ao redor da fronteira norte do México. El Salvador, Guatemala e Honduras são território dos "Maras", gangues de rua de adolescentes que vivem principalmente da extorsão. Os paramilitares e guerrilheiros da Colômbia levantam dinheiro com o tráfico de drogas e seqüestros.
Regredindo na históriaUm continente inteiro está regredindo no tempo. A disseminação da violência e do crime mostra que grandes partes da América Latina estão longe de se juntarem aos países industrializados de ponta do hemisfério Ocidental. Ao expandirem constantemente seu poder, as gangues demonstram a fraqueza dos governos da região; onde há um vácuo de poder, as gangues assumem. "O crime organizado só pode sobreviver enquanto permanecer impune", disse Alba Zaluar, uma pesquisadora brasileira especializada no estudo da violência, "de forma que ele cria seus próprios territórios para assegurar que não será punido lá".
As democracias freqüentemente decrépitas da América Latina são presa fácil. A Justiça mal funciona na maioria dos países; os policiais são freqüentemente corruptos e cooperam com os narcotraficantes. Muitos políticos podem ser facilmente comprados e cargos parlamentares são vistos como oportunidade de enriquecimento pessoal.
Os eventos da semana passada demonstram quão poderosas se tornaram as gangues de São Paulo -os esquadrões de gângsteres lançaram a maior cidade da América Latina em um estado de terror por dias. Eles realizaram 293 ataques, assassinaram 41 policiais e agentes de segurança, incendiaram 83 ônibus e dispararam tiros contra uma estação do metrô e um posto do corpo de bombeiros. A polícia assustada reagiu com violência incomum, matando 107 suspeitos em sete dias. Muitos dos moradores da cidade ficaram com medo de sair de suas casas. Escolas e lojas ficaram fechadas por medo da violência. A metrópole agitada se transformou em uma cidade fantasma.
O PCC foi responsável pelo terror. Seu chefe, o assaltante de banco preso Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como "Marcola", queria resistir à sua transferência para um presídio de alta segurança. Ele coordenou o ataque contra o governo pelo seu telefone celular, pedindo por rebeliões em 73 presídios controlados pelo PCC.
O governo capitulou após várias noites de terror. Uma delegação do governo visitou o chefe do PCC em sua prisão, a 600 quilômetros da capital. A delegação prometeu fornecer aos presos do PCC 60 televisores para que possam assistir à Copa do Mundo de futebol. Ela autorizou que os chefes recebessem "visitas íntimas" de namoradas e esposas e decidiu que não era mais necessário vestirem uniformes de presos. A violência cedeu poucas horas depois, tanto fora quanto dentro dos presídios. Marcola ordenou que seus homens recuassem.
Material de que são feitos os mitosTais vitórias são o material de que são feitos os mitos. As gangues continuam recrutando assassinos menores de idade -"Bin Ladens" é como os
chamam- entre os centenas de milhares de adolescentes desempregados das favelas da periferia de São Paulo. Hinos são cantados para Marcola e o PCC. O slogan que os governantes secretos de São Paulo escolheram para si mesmos foi tirado de "Os Três Mosqueteiros" de Alexandre Dumas -"Um por todos, todos por um".
Esta romantização do crime espalhou seu encanto por toda a América Latina. Para a maioria dos adolescentes, o ídolo clássico latino-americano não é mais o guerrilheiro de esquerda, mas o membro de gangue. Músicos mexicanos glorificam os chefões do narcotráfico em canções populares, ou "narco-corridas". Pablo Escobar, o rei da cocaína, morto a tiros enquanto tentava fugir em 1993, é celebrado como herói nacional em muitas das favelas de Medellín, Colômbia.
Os presídios estão entre os ninhos mais importantes de atividade mafiosa. As penitenciárias latino-americanas com excesso de lotação são verdadeiras "escolas do crime", segundo Zaluar. Os gângsteres decidem quem vive e quem morre. Os traidores e informantes são decapitados.
A estrutura organizacional rígida das gangues é baseada na das guerrilhas de esquerda. Membros das Farc, o grupo guerrilheiro colombiano, atuam como conselheiros da máfia das drogas do Rio. Marcola, o líder do PCC, se orgulha de ter lido "A Arte da Guerra", um clássico escrito 500 anos antes de Cristo pelo general chinês Sun Tzu. Os presídios onde ele recruta seus seguidores são tratados por ele como "faculdades" e o próprio PCC é o "Partido do Crime".
No Brasil, o avanço do crime organizado está causando problemas para a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para a eleição de outubro, o presidente esperava se posicionar como líder de um país em processo de industrialização, progredindo economicamente e politicamente estável. Agora os velhos problemas do Brasil -corrupção e
violência- o estão alcançando. As condições caóticas em São Paulo estão fazendo os investidores estrangeiros pensarem duas vezes antes de investir no Brasil -e Lula, que sempre quis ser um mediador, agora deve se apresentar como alguém capaz de enfrentar duramente o crime.
Um fim para a inclinação da América Latina à esquerda?A disseminação do crime organizado pode muito bem colocar um fim à inclinação do continente à esquerda vista nos últimos anos. Na Colômbia, um centro internacional de narcotráfico, os eleitores deverão reeleger o presidente de direita Alvaro Uribe no próximo fim de semana -um defensor da lei e ordem. No México, onde a luta contra o crime organizado está dominando a campanha eleitoral, o candidato conservador Felipe Caldéron tomou o lugar do populista de esquerda Andrés Manuel López Obrador como o candidato presidencial mais popular nas eleições que serão realizadas em julho.
Mesmo o caudilho da Venezuela, Hugo Chávez, o político vitrine da esquerda latino-americana, acabará tropeçando "na desordem em seu próprio país", prevê o economista americano Norman Gall, que morou e lecionou na América Latina por anos. Caracas agora é considerada a cidade mais violenta do continente. Não apenas a Venezuela possui o índice mais alto de homicídios do mundo, segundo um recente estudo da ONU, mas o índice triplicou entre 1998 e 2005.
Um crime particularmente brutal causou uma onda de manifestações
antigoverno: três crianças com 12, 13 e 17 anos foram seqüestradas juntamente com seu chofer no final de fevereiro; seus cadáveres foram encontrados depois de 40 dias. Elas foram mortas com tiros na parte posterior da cabeça, estilo execução.
Os manifestantes acusaram Chávez de negligenciar o combate ao crime e à corrupção. "Muitas pessoas votaram em Chávez porque esperavam que ele agiria contra a violência", disse o especialista em segurança Marcos Tarre. "Mas o governo não desenvolveu uma política clara nesta área."
Enquanto Chávez fornece petróleo barato aos governos aliados de todo o mundo, o terror manda nas ruas de Caracas. Em Perare, a maior favela do país, muitas pessoas se recusam a sair de suas casas à noite por temor das violentas gangues de ruas de jovens, conhecidas como "pandillas". Os policiais são considerados corruptos; muitos estão envolvidos em seqüestros e assassinatos.
Um ex-policial que trabalhou como matador foi responsável pela morte do fotógrafo de jornal Jorge Aguirre, assassinado no início de abril. Aguirre, que trabalhava para o jornal "El Mundo", estava preso em um congestionamento de trânsito, a caminho de um protesto contra o crime organizado, quando um motoqueiro vestido de preto parou ao lado de seu carro. O assassino desceu da moto e disparou vários tiros fatais contra o fotógrafo.
Enquanto morria, Aguirre conseguiu tirar várias fotos com a câmera digital em seu colo. As imagens tremidas não serviram apenas como um documento da violência diária que atormenta a América Latina -elas também ajudaram a identificar seu assassino.