Daniel Ortega, o líder do movimento sandinista da Nicarágua, quer ser novamente o presidente do país. Para promover sua causa, o ex-combatente da selva está fazendo campanha em trajes civis como um democrata reformado.
O candidato era levado em um utilitário esporte Mercedes cinza-prateado, precedido por um enxame de guarda-costas usando óculos escuros e empunhando walkie-talkies. Eles abriram caminho impiedosamente até o centro de conferência em Manágua, a capital da Nicarágua, uma estrutura de aço e vidro ostentosa, incongruente. "Bem-vindo, comandante!" disseram os porteiros. Eles ficaram em posição de sentido enquanto Daniel Ortega, 60 anos, entrava no prédio e mesmo os policiais presentes saudaram o ex-presidente. Para eles, o antigo revolucionário ainda é "El Jefe", o Chefe.
O comportamento vigoroso e presunçoso de sua comitiva contrastava com o do líder sandinista. Ortega desistiu do título de Comandante, parecia mais civil do que militar vestindo jeans e camisa branca e já está sendo ridicularizado por seus detratores como "Daniel Paz y Amor". Seu grande sorriso aparentemente visava transmitir cordialidade, mas parecia mais inexpressivo e afetado. Ele buscava apertar toda mão que era esticada a ele, enquanto a canção "Give Peace a Chance" de John Lennon tocava nos alto-falantes.
A esposa de Ortega, Rosario Murillo, uma poetisa, escolheu este apelo musical a uma fraternidade mundial que agora é tocado em toda aparição pública do veterano revolucionário. Ela está encarregada da estratégia de campanha, que ela espera que ajudará seu marido a conquistar a vitória na eleição presidencial de domingo. Também foi Murillo que escolheu o rosa-choque como cor de fundo de seus cartazes de campanha e ordenou que pétalas cor de malva fossem espalhadas em toda aparição de campanha. Como resultado, o líder sandinista, criticado no passado por seu estilo excessivamente macho, passa uma imagem mais branda.
Murillo está tentando mudar a imagem de seu marido líder revolucionário autoritário. Ortega já dirigiu o país antes, após a queda da ditadura Somoza em 1979. Como líder do regime sandinista, Ortega foi forçado a desafiar o então presidente Ronald Reagan dos Estados Unidos e os guerrilheiros "contras" apoiados pelos americanos. Desde a derrota na eleição de 1990 por uma grande margem de votos para a democrata cristã Violeta Chamorro, Ortega fez mais três tentativas sem-sucesso de chegar à presidência.
Mas suas chances são boas desta vez. Ele precisa apenas de uma maioria relativa de 35% para conseguir a presidência sem um segundo turno. Seu principal adversário, Herty Lewites, o popular ex-prefeito de Manágua, morreu de ataque cardíaco em julho. De lá para cá, todas as pesquisas de opinião mostram Ortega à frente.
A oposição está dividida, com dois candidatos concorrendo pelo Partido Liberal Constitucional. O banqueiro Eduardo Montealegre, um tecnocrata formado em Harvard, é o candidato preferido pelos Estados Unidos. Seu rival, José Rizo, é visto como representante do ex-presidente Arnaldo Alemán, o homem forte dos liberais. Alemán, que conseguiu movimentar US$ 100 milhões no exterior durante sua presidência, foi sentenciado a 20 anos de prisão e está atualmente sob prisão domiciliar.
Mas Alemán está longe de estar sem poder. Muitos adversários políticos acusam Ortega de ter chegado a um acordo com os liberais para preenchimento de muitos cargos políticos chaves com membros dos dois principais partidos do país. De fato, o candidato comprou o apoio de antigos oponentes com ofertas secretas. No início de setembro, o ex-líder dos rebeldes contras, Jaime Morales, deu seu apoio a Ortega, que por sua vez nomeou Morales como seu candidato à vice-presidência. Durante a revolução no país, os sandinistas tomaram a casa de Morales e Ortega a transformou em sua residência privada.
"Nós cometemos muitos erros"Atualmente o líder sandinista está pedindo por "reconciliação". Mas muitos nicaragüenses mais velhos lembram das dificuldades que sofreram sob os sandinistas -as longas filas em frente às lojas, o recrutamento forçado e a corrupção ubíqua.
"Nós cometemos muitos erros", reconheceu Ortega no centro de conferência em Manágua. "Mas isto faz parte do passado." Ortega estava falando para uma audiência de 200 mulheres do mercado. O comandante Daniel Ortega falava suavemente enquanto sua esposa Rosario servia como moderadora. O cabelo dela estava tingido de vermelho intenso e ela usava jóias prateadas.
O candidato não dá entrevistas e se recusou a participar de um debate transmitido pela televisão. Ortega teme que possam lhe perguntar sobre seu passado e seu suposto pacto com Alemán. Um assunto que é totalmente tabu é o relacionamento de Ortega com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.
O relacionamento em si é excelente. Há apenas poucas semanas, o venezuelano enviou aos sandinistas um navio-tanque cheio de óleo diesel. Chávez sonha com um eixo Havana-Caracas-Manágua, uma visão que tem apelo junto aos sandinistas, que gostariam de ver a Nicarágua se tornar novamente um baluarte de antiamericanismo. "Nós esperamos ver Castro e Chávez em sua posse", disse um líder sindical a Ortega. Mas é um assunto que o candidato prefere evitar. Durante as eleições presidenciais no Peru, México e Equador, candidatos esquerdistas populistas foram prejudicados por seus relacionamentos com Chávez. Os eleitores moderados são afugentados pela perspectiva de uma aliança com o radical venezuelano.
Respeitado mas não celebradoOrtega é uma figura controversa até mesmo dentro de seu próprio partido. Eliane Sonariba, de Manágua, disse de forma discreta que certamente "pensaria em um candidato diferente" e que está fazendo campanha por Ortega apenas "por motivos de disciplina partidária e um senso de obrigação".
Muitos dentro da base sandinista sentem o mesmo. O ex-presidente é respeitado mas não exatamente celebrado. Proeminentes ex-companheiros revolucionários, como o poeta Ernesto Cardenal e o respeitado autor Sergio Ramírez, já tiveram desentendimentos com Ortega e suspeitam de sua repentina transformação em um democrata. "Ortega está interpretando um papel", disse Ramírez, um co-fundador da Frente Sandinista de Libertação Nacional. Ele alertou contra uma fraude eleitoral em caso de resultados apertados. "O homem é capaz de tudo."
Mas a eleição será monitorada. Observadores da União Européia estarão presentes, especialistas da Organização dos Estados Americanos (OEA) já chegaram e o Centro Carter do ex-presidente americano Jimmy Carter planeja monitorar a votação.
Uma volta dos sandinistas seria um pesadelo para Washington. Na verdade, o embaixador americano Paul Trivelli já anunciou que os Estados Unidos planejam cortar a ajuda estrangeira em caso de vitória de Ortega.
Mas tais ameaças podem provar ser contraproducentes. As tentativas dos americanos de envolvimento ferem o orgulho nacional dos nicaragüenses e os oponentes de Ortega detestam serem vistos como vassalos de Washington. O ex-companheiro-de-armas de Ortega, Ramírez, disse: "O embaixador americano é seu mais eficaz colaborador de campanha".