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08/12/2006 - 00h05

Entrevista com Muhammad Yunus: "A situação das mulheres é melhor com dinheiro"

Der Spiegel
Manfred Ertel e Padma Rao
O ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Muhammad Yunus, 66, fala sobre o fracasso dos projetos tradicionais de auxílio para o desenvolvimento e discute o seu bem-sucedido programa de micro-créditos na batalha contra a pobreza.

AFP 
Yunus acha que comunidade global tem que se concentrar mais na guerra contra a pobreza

Der Spiegel: Professor Yunus, o objetivo da Organização das Nações Unidas (ONU) de reduzir a pobreza global pela metade até 2015 continua distante como sempre. Nesse ínterim, o número de pessoas que passam fome subiu neste ano de 840 para 854 milhões. O que está ocorrendo de errado com o auxílio para o desenvolvimento?

Yunus:
Vejo basicamente como um realização positiva da ONU o fato de a instituição ter feito com que a comunidade global chegasse a um consenso quanto a essa meta na Reunião de Cúpula do Milênio em 2000. Isso porque, apenas alguns anos antes daquele evento, nós começamos a perceber que todas as tentativas feitas até então para combater a pobreza haviam fracassado.

Der Spiegel: Mas isso não colaborou em nada para aliviar a fome e a pobreza no mundo.

Yunus:
Isso porque, infelizmente, pouco após a declaração da ONU, o terrorismo, a guerra no Iraque e a guerra global contra o terrorismo fizeram com que toda a conjuntura se tornasse caótica. As políticas do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, prejudicaram todo o processo. Em vez de se concentrar na guerra contra a pobreza, a comunidade global foca agora a sua atenção em um outro tipo de causa de morticínio - algo que é intangível, mas que mesmo assim é combatido com todos os meios militares que temos à mão. E todas as declarações pomposas dos líderes mundiais a respeito do combate à pobreza, declarações que foram muito bem recebidas pela Assembléia Geral da ONU, mostraram ser apenas um apanhado de palavras vazias.

Der Spiegel: E isso apesar dos mais de US$ 106 bilhões em auxílio para desenvolvimento que foram desembolsados apenas no ano passado. Você escolheu um outro caminho. O que lhe deu a idéia de tornar o micro-crédito e os micro-empréstimos disponíveis para os mais pobres dentre os pobres?

Yunus:
Na universidade em Chittagong, no sul de Bangladesh, onde lecionei durante um determinado período, não havia conselheiros - nem de Dhaka nem do exterior - para nos dizer o que fazer. Na pequena vila vizinha à universidade, e junto com os nossos alunos, que moravam na vila, demos início a um projeto contra a pobreza em 1976. Muito rapidamente percebemos que as pessoas passaram a depender de fornecedores de crédito duvidosos e de agiotas. Calculamos a dívida coletiva desse pessoal e descobrimos que ela era de US$ 27. Fiquei chocado. Quando falamos de auxílio para o desenvolvimento, falamos em bilhões de dólares. Mas ninguém menciona jamais como US$ 27 podem jogar uma vila inteira nas garras de agiotas e manter os seus habitantes em um estado de dependência crônica. E foi aí que eu achei que poderia resolver esse problema.

Der Spiegel: Como?

Yumus:
Na verdade não se tratou de um grande desafio sob o ponto de vista acadêmico. Eu dei a eles os US$ 27 - não houve nenhuma necessidade de análise de custo e benefício ou de balanço patrimonial. A população ficou livre de um fardo, e naquele momento pensei comigo mesmo que, sendo tão fácil assim acabar com um caso de dependência, por que é que um maior esforço não implicaria em maiores resultados? Hoje em dia, vemos como simples crianças de aldeia são capazes de colocar um processo um andamento, de forma que isso lhes renda o Prêmio Nobel 30 anos depois.

Der Spiegel: E como foi que os bancos reagiram?

Yumus:
O banco recusou, afirmando ser impossível emprestar dinheiro aos mais pobres dentre os pobres. Eu lhes perguntei onde estava o problema quanto a isso. Vinte e sete dólares? Vocês estão com medo de nunca mais tornarem a ver a cor do dinheiro? Os bancos responderam que não emprestar dinheiro aos pobres era uma questão de princípios. Dessa forma, eu me ofereci como fiador para os micro-créditos e assinei os papéis. A seguir aplicamos a mesma experiência em duas vilas, e depois em cinco. Quando percebemos que a coisa funcionava, pensei: esqueçam os bancos. Vamos abrir o nosso próprio banco. E assim nasceu a idéia do Banco Grameen: micro-créditos para os pobres.

Der Spiegel: Os seus micro-empréstimos proporcionam aquele tipo de reinvenção radical que os críticos dos programas de desenvolvimento tradicionais vinham pedindo havia tanto tempo?

Yumus:
Todo conceito pode ser melhorado. Portanto, por que nós não simplesmente revemos a nossa experiência dos últimos anos e pensamos seriamente sobre as nossas idéias promissoras? Poderíamos cogitar em propriedade privada para pessoas pobres. Por exemplo, o mega-porto que Bangladesh está pretendendo construir no sul de Chittagong e com o qual deseja revolucionar a economia do país não precisa automaticamente pertencer ao Estado ou à população. Os doadores internacionais poderiam financiar a autoridade portuária, que seria propriedade das mulheres pobres do país.

Der Spiegel: Essa idéia soa ambiciosa.

Yunus:
Por que? Poderíamos esperar para dar início à construção quando o dinheiro chegasse, quando tudo fizesse sentido sob a ótica empresarial e os investidores tivessem certeza que recuperariam seu dinheiro. Isso não seria apenas um investimento econômico, mas um investimento no campo das idéias, o verdadeiro espírito de qualquer política. Ninguém nunca mais teria que se preocupar com a pobreza em Bangladesh.

Der Spiegel: A sua própria experiência com a história dos micro-créditos deve ter-lhe ensinado que é melhor experimentar primeiro qualquer idéia revolucionária em pequena escala.

Yunus:
Existe uma abundância de oportunidades até mesmo para se fazer isso. Todos nós sabemos o que acontece quando, digamos, um doador alemão constrói uma ponte em Bangladesh e a entrega ao Estado: ninguém se importa com os consertos e a manutenção da obra. Então, por que é que essa ponte não poderia ser entregue a uma empresa privada que pertença ao povo? Quem poderia cobrar pedágio dos usuários e até mesmo construir uma nova ponte com a obtenção de lucros? Mas agora, por favor, não me venha dizer que as mulheres pobres são incapazes de administrar um porto economicamente. Essas mulheres podem gerenciar um banco de forma lucrativa. Tudo do que elas necessitam é de um pouco de ajuda quanto ao gerenciamento.

Der Spiegel: Os banqueiros europeus duvidam disso e, sobretudo, da história de sucesso econômico do Banco Grameen. Como você explica esse ceticismo?

Yunus:
Eles não querem ler nada, entender nada e preferem acreditar que somos impostores. Mas todos os nossos balanços patrimoniais estão bem documentados de forma pública, por exemplo, no nosso website, e tudo isso é verificado e certificado por auditores internacionais. Desde que foi fundado, o Banco Grameen ofereceu empréstimos no valor de US$ 5,8 bilhões e o índice de recuperação desse capital é de 98,9%. Não precisamos de subsídios desde 1995, e com a exceção de 1983, 1991 e 1992, registramos lucros todos os anos.

Der Spiegel: Por que é que 97% das pessoas que contraem empréstimos com vocês são mulheres?

Yunus:
Demorou meses e anos para conversarmos com as mulheres, para convencê-las de que elas eram tão capazes quanto os homens, ou até mais capazes, de administrar o dinheiro. Após seis anos, atingimos uma proporção homem-mulher de 50-50. Depois disse percebemos que as famílias e os lares das mulheres que pegaram os empréstimos foram os que de longe tiveram os maiores benefícios. Assim sendo, modificamos a nossa política. Desde então, passamos a nos focar inteiramente nas mulheres.

Der Spiegel: Isso significa que as mulheres detêm a chave para o combate à pobreza e à fome?

Yunus:
Nós certamente percebemos que, quando contam com a oportunidade, as mulheres administram o dinheiro de forma mais eficiente. Elas contam com uma visão de longo prazo, e gerenciam o dinheiro mais cuidadosamente. Os homens são mais insensíveis com relação ao dinheiro. A primeira tendência deles é gastar tudo se embebedando em um bar, ou com prostitutas e jogatina. Já as mulheres são imbuídas de um tremendo senso de auto-sacrifício, e tentam tirar o maior proveito possível do dinheiro. Fazem isso para os seus filhos, mas também para os seus maridos.

Der Spiegel: Não seria um corolário lógico que as políticas de desenvolvimento devessem se concentrar nos direitos das mulheres e na igualdade entre os sexos de forma muito mais extensa do que vem ocorrendo?

Yunus:
Não estou postulando nenhuma demanda política, por exemplo, pela igualdade entre os sexos. Já temos um índice 50-50. A nossa filosofia funciona muito melhor. Atualmente, todas as crianças do Banco Grameen estão na escola, e muitas foram além, terminando o segundo grau e a universidade, estudando para tornarem-se médicos e engenheiros. E tudo isso por causa das suas mães. As mães sempre se concentram em gerar benefícios para os filhos.

Der Spiegel: Os especialistas em desenvolvimento e as organizações não governamentais têm exigido um cancelamento da dívida dos países pobres. Você apóia essa demanda?

Yunus:
Não. E ao rejeitar tal idéia, eu falo em nome dos pobres. Queremos ajudar os mais pobres dentre os pobres, aqueles que são incapazes de nos pagar em moeda forte. Portanto, necessitamos de fundos comunitários ou de micro-créditos, que dão ao tomador de empréstimos a possibilidade e, conseqüentemente, a dignidade de ser capaz de pagar de volta a dívida que contraiu na sua própria moeda, da forma e no momento que puder. Mas é preciso que se dê a esses indivíduos a sensação de que se trata do dinheiro deles, para as suas necessidades. Se apenas perdoarmos as dívidas em uma espécie de indulto generalizado, o dinheiro que não foi pago poderá ser usado para outras coisas - armas, artigos de luxo -, para tudo, menos para ajudar os pobres.

Der Spigel: O comitê do Prêmio Nobel considera a pobreza uma ameaça bem maior à paz mundial do que o fundamentalismo terrorista. Isso está correto?

Yunus:
Sim. As crianças que estudam nas madrassas, ou escolas islâmicas, vêm de famílias extremamente pobres. Os pais mandam os filhos para lá para que estes sejam alimentados, cuidados e educados e guiados espiritualmente - tudo isso de graça. Ao doarem um ou dos filhos para a fé, vários pais pobres chegam a ter uma sensação de que há um lugar reservado para eles no céu. É dessa forma que o fanatismo religioso é cultivado em meio aos pobres. Esse problema não pode ser resolvido por meios militares, mas somente através da justiça e da igualdade globais.

Der Spiegel: Os seus compatriotas alimentam grandes expectativas em relação ao seu Prêmio Nobel, e vêem em você um farol de esperança nas eleições vindouras. Eles estão certos em proceder dessa forma?

Yunus:
Durante vários anos ficamos em primeiro lugar na lista das nações mais corruptas do mundo. Haverá eleições no início de 2007, e teremos uma oportunidade de ouro de reverter essa estatística. É por esse motivo que estou movendo uma campanha contra a corrupção. A minha meta é garantir que haja candidatos honestos, um governo íntegro e uma política limpa. Eu gostaria de assegurar que os ladrões não tivessem mais chances no meu país.

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