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08/12/2006 - 00h15

Atacando a pobreza com o microcrédito

Der Spiegel
Erich Wiedemann
Muhammad Yunus está pronto para receber o Prêmio Nobel da Paz no domingo por seu trabalho com o microcrédito, e os minúsculos empréstimos bancários estão no centro das atenções. Pelo exemplo de Moçambique, funciona.

Se Moçambique tivesse que escolher um empresário modelo, então o júri quase certamente selecionaria Francisco Guambe. Ele é o protótipo perfeito de um empresário bem sucedido: enérgico e elegante, com costas fortes e estômago grande o suficiente para dois. Guambe tem o olhar de um homem realizado.

As brasas nos fornos das padarias de Guambe nunca se apagam, uma ou duas sempre estão brilhando. Ele emprega 500 funcionários em suas quatro lojas, e às vezes junta-se a eles: tira a jaqueta, enrola as mangas e trabalha a massa com suas mãos enormes.

Moçambique precisa de homens realizados como Guambe. Até 1991, ele trabalhava em uma fábrica de salsicha de porco, em Berlim Ocidental. Quando a fábrica fechou, Guambe voltou para a África, mas suas perspectivas eram fracas. Moçambique é um país muito pobre, que sofreu com todas as catástrofes que atingiram o continente: 500 anos de colonialismo, 30 anos de guerra civil, Aids, desastres naturais e mais de 10 anos de socialismo.

Guambe trouxe um pouco de dinheiro de Berlim, mas não foi suficiente para comprar seu primeiro forno. O banco Gapi, patrocinado pelo banco de desenvolvimento estatal alemão Kreditanstalt für Wiederaufbau (KFW), forneceu os fundos necessários. Foi exatamente o que ele precisava.

As padarias de Guambe cobram 3,5 meticals, ou R$ 0,30, por kg de pão, o mais barato em Maputo. A velocidade do balcão é tudo que importa. A vendedora nem tem uma máquina registradora, ela apenas varre as moedas e notas para baixo do balcão e reúne-as com uma vassoura várias vezes por dia.

A "Padaria Oriental" de Guambe foi um sucesso desde o início, o que permitiu que pagasse o empréstimo muito antes do prazo. Também ajudou o fato de as padarias não pagarem impostos em Moçambique. Agora Guambe não usa mais bancos como o Gapi -de fato ele não é mais elegível. Ele ficou rico, e o Gapi foi criado para dar empréstimos para as pessoas pobres. Ele financia principalmente pequenos projetos que não são de interesse para os grandes bancos.

O microcrédito, como é chamado no jargão da indústria, é um raio de esperança em um cenário de desenvolvimento lúgubre. Muhammad Yunus, banqueiro bangladeshi, vai receber o Prêmio Nobel da Paz no domingo (10/12) por seu trabalho na área. Apesar de não ter sido de fato o inventor do conceito, foi quem o popularizou.

Banqueiros descalços mostraram que a lógica do mercado de capital funciona tão bem com os pobres quanto com os ricos. Para os que ainda consideram que o desenvolvimento se faz dando esmolas aos pobres, esta é uma notícia provocativa. Na maior parte de organizações de desenvolvimento, a abordagem do Coração Sagrado ainda é a norma. É claro, a maior parte concorda com o conceito de ajudar as pessoas a se virarem sozinhas, mas na prática poucos de fato o fazem.

Também é necessário ter infra-estrutura para criar a sustentabilidade. Por exemplo, o Gapi construiu uma série de filiais para que as pessoas não tenham que esconder seu dinheiro em caixas enterradas. Os bancos dos pobres também não verificam o crédito nem perguntam aos clientes se têm capital próprio. Tudo o que a pessoa que quiser pegar um empréstimo precisa é de uma boa idéia e de um endereço permanente. Mas não há uma segunda chance para aqueles que desperdiçam o dinheiro, como o fazendeiro que pegou fundos para pagar por um trator e construiu um bar, o "palácio de bebida", para ele e seus amigos.

O Gapi cobra entre 5 a 6% de juros por mês, uma necessidade por causa de altos custos de operação e inflação. Os bancos privados cobram muito mais com os empréstimos de "seis por cinco": alguém que pega US$ 5 (em torno de R$ 11) de manhã tem que pagar de volta seis dólares na mesma noite. Além disso, a taxa de processamento de 20% é tirada do total assim que o empréstimo é concedido.

Regina Muianga também conseguiu fugir da sedução da rua de "seis por cinco". Com seu pequeno empréstimo aproximou-se do ideal de pequena empresária que o programa de microcrédito deve assistir. Graças ao empréstimo, ela foi capaz de montar uma pequena granja no subúrbio de Maputo, com a qual ela ganha US$ 200 (em torno de R$ 430) por mês. Apesar de não ser muito, permite que ela alimente sua família de nove pessoas.

Até Chicuele Boaventura, agente de microcrédito, compra na granja de Muianga. "Suas sopas de galinha são boas, e ela paga em dia", diz ele. Boaventura também conhece bem outros lojistas da área. Quando dão microempréstimos, os bancos asseguram que todos os pequenos proprietários na região fiquem sabendo. Afinal, muitos deles também são clientes - e se um deles estiver pensando em dar um calote, um pouco de pressão dos vizinhos pode ser suficiente para levá-lo de volta ao caminho certo. Todos os clientes sabem que cada calote tem o potencial de tornar os empréstimos mais caros para todos.

É um conceito simples, de fato. Em vez de basear a ajuda no princípio da necessidade, como faz a teoria de desenvolvimento tradicional, os empréstimos de microcrédito exigem um sentido de responsabilidade. As obras de assistência, freqüentemente, enviam ajuda aos que não têm nada, sem expectativa de pagamento. Mas os empréstimos minúsculos estimulam a criatividade. A estratégia parece funcionar. Muitos bancos que concedem pequenos empréstimos começaram a lucrar - e investidores privados podem comprar ações. O acionista tenta lucrar enquanto também apóia uma boa causa.

Interessantemente, a maior parte dos clientes são mulheres. "Elas sabem administrar melhor o dinheiro e são mais confiáveis do que os homens", diz Boaventura. Os homens favorecem a divisão tradicional de trabalho africana, sob a qual têm toda a autoridade e as mulheres devem fazer o trabalho.

Margarida Lemos é uma agricultora enérgica e de mente afiada. Ela é uma figura modelo que não permite que a tradição a detenha. Ela construiu seu negócio em Moamba, a noroeste de Maputo, quase inteiramente sozinha, com muito pouca ajuda de qualquer homem. Graças ao microempréstimo, Lemos agora tem 86 hectares nos quais produz principalmente tomate, abacaxi e feijão. Para alcançar preços mais altos ela planta fora da estação. A maior parte dos agricultores sai de férias durante a época mais quente do ano, de outubro a março, enquanto ela opera em capacidade máxima.

Para aprender como administrar a combinação de frutas e legumes, Lemos disse que simplesmente leu alguns manuais de agricultura. Ela também alega que, se quisesse, poderia aprender a consertar um trator. Então ficaria completamente autônoma no campo. Mas ela não quer. "Tem que haver alguma coisa que apenas os homens podem fazer", diz a sábia mulher.

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