O presidente do México, Felipe Calderón, 44, falou ao
Spiegel sobre a construção de uma cerca entre seu país e os EUA, 17 anos após a demolição do Muro de Berlim, sobre o combate à corrupção e os cartéis da droga que se infiltraram nas instituições mexicanas e sobre o papel do presidente populista da Venezuela, Hugo Chávez, na América Latina.
Der Spiegel - Senhor presidente, o senhor assumiu o cargo há sete semanas, num período de tumulto, protegido por seus guarda-costas e dentro de um Parlamento protegido por barricadas. Seu rival, Andrés Manuel López Obrador, proclamou-se presidente alternativo do país. O México tem hoje dois chefes de Estado?
Felipe Calderón - Não. Em uma eleição democrática só pode haver um vencedor. Eu sou o presidente.
DS - O resultado da eleição em julho foi muito apertado. O senhor venceu com apenas 0,58%. Seus adversários queixam-se de fraude eleitoral. Por que o senhor não aprovou uma recontagem?
Calderón - Observadores nacionais e internacionais monitoraram estritamente a eleição. O número de urnas verificado foi o máximo permitido por nossa lei eleitoral. Felizmente, hoje uma enorme maioria de mexicanos nos apóia.
DS - O resultado da eleição mostrou que o México está profundamente dividido entre ricos e pobres, entre o norte industrializado e o sul rural. Como o senhor pretende fechar essa brecha?
Calderón - O Estado deve intervir com políticas públicas que nivelem as diferenças. Precisamos de um sistema educacional melhor. Precisamos desenvolver o sistema de saúde. Queremos melhorar o suprimento de água potável e construir novas estradas nas regiões rurais mais distantes. Assim criaremos pré-condições para o investimento, que reduz a desigualdade.
DS - Quase a metade dos 105 milhões de mexicanos vive na pobreza, e 11 milhões não têm emprego estável. Como o senhor pretende criar empregos para eles?
Calderón - Isso só será possível se atrairmos investidores para o México. Especialistas acreditam que o México pode se alçar à posição de quarta economia mundial até 2050. Mas antes de atingirmos isso precisamos baixar nossos custos de produção. A energia é cara demais e a carga fiscal é enorme. Mas principalmente precisamos criar garantias legais e conter a criminalidade. É por isso que planejo aumentar em 25% os gastos públicos para o combate ao crime.
DS - O Banco Mundial afirma que um grupo de 20 famílias controla o México.
Calderón - Sim, temos uma alta concentração de poder econômico no México. No futuro queremos garantir que pessoas ou grupos de empresas não gozem de privilégios ilícitos. Precisamos de uma política que respeite a concorrência do livre mercado e limite os monopólios.
DS - Recentemente, governos de esquerda assumiram o poder em muitos países latino-americanos, e a esquerda mexicana também está mais forte que nunca. O neoliberalismo fracassou?
Calderón - Não sou um neoliberal. O mercado livre é uma condição para o crescimento econômico, mas por si só não basta. O Estado tem de criar condições iguais para todos. Alguns países latino-americanos estão indo longe demais. Na Venezuela, por exemplo, o governo agora quer nacionalizar companhias importantes. O presidente quer eternizar seu poder. Esse tipo de coisa contradiz os princípios da democracia e da economia de mercado.
DS - Hugo Chávez prega um "socialismo do século 21" e tempera seus discursos com comentários antiamericanos. Os conservadores como o senhor estão isolados na América Latina hoje?
Calderón - Respeito as simpatias e antipatias dos outros países. Hoje o antiamericanismo cresce no mundo todo. Alguns políticos latino-americanos estão usando isso em seu benefício. O México, por outro lado, pode ter um papel importante na estabilidade regional. A América Latina está numa encruzilhada: precisamos escolher entre o passado e o futuro. O passado significaria um retorno a sistemas controlados pelo Estado e uma política econômica irresponsável --a volta ao autoritarismo. Mas nosso futuro está no reforço da democracia, no regime da lei e na competitividade econômica-- e numa política voltada para a igualdade de oportunidades.
DS - Quando o senhor visitou a Nicarágua, para a posse de Daniel Ortega, o senhor disse: o coração do México bate dentro da América Latina. Isso significa que Washington não tem mais prioridade porque sua atenção está mais voltada para o sul?
Calderón - Sim, queremos reorientar nossa política externa. Ao mesmo tempo, somos o único país latino-americano que geograficamente faz parte da América do Norte. Devemos aproveitar a vantagem dessa localização na interface entre América do Norte e do Sul, entre o Pacífico e o Atlântico. É a melhor maneira de reduzir nossa dependência dos EUA.
DS - Cerca de meio milhão de mexicanos migram para os EUA a cada ano para tentar a sorte. Agora o governo Bush quer construir uma barreira de 1.100 km na fronteira.
Calderón - É difícil acreditar que estejam construindo um muro hoje no Arizona e no Texas, apenas 17 anos depois que o mundo comemorou a queda do Muro de Berlim. Há motivos sociais e econômicos para a migração para os EUA.
É uma conseqüência natural da globalização. Além disso, as economias norte-americana e mexicana se complementam de uma forma ideal: os EUA têm o capital, nós temos a força de trabalho.
DS - Os imigrantes hoje transferem cerca de US$ 24 bilhões por ano dos EUA para o México. É a segunda fonte de divisas do país, depois do petróleo. O êxodo ainda pode ser contido?
Calderón - Se os americanos investissem mais aqui, os trabalhadores mexicanos ficariam no país. Eu disse ao presidente americano que é mais sensato construir um único quilômetro de estrada em um estado mexicano pouco desenvolvido do que 10 quilômetros desse muro.
DS - Em certas partes do México, especialmente junto à fronteira com os EUA, os cartéis da droga se infiltraram nas instituições, na polícia e no judiciário. Nove mil pessoas morreram em conseqüência da guerra entre os bandos de traficantes durante os seis anos da presidência de seu antecessor, Vicente Fox. A violência continua: a situação é comparável à da Colômbia.
Calderón - Às vezes as coisas são até piores aqui do que na Colômbia. Mas enquanto a demanda por drogas continuar tão enorme nos EUA, seremos incapazes de conter o tráfico.
DS - Como o seu governo pode recuperar o controle do país?
Calderón - Eu iniciei uma grande ofensiva contra a máfia das drogas. Já podemos relatar nossos primeiros sucessos. Em meu estado natal de Michoacán, por exemplo, o crime violento caiu 80% em dezembro.
DS - O senhor mobilizou os militares e fez prisões espetaculares. Mas isso é algo mais que uma exibição?
Calderón - O importante é que estamos novamente controlando firmemente as coisas. Agora estamos atacando em Tijuana, na fronteira, e logo atacaremos em todos os lugares que foram infiltrados pela máfia. É uma operação conjunta que envolve as forças de segurança de todos os estados.
Estamos enfrentando uma longa batalha que custará muito dinheiro, assim como vidas, mas no final temos de prevalecer.
DS - Mas o senhor não pode confiar nem em sua própria polícia. Ela muitas vezes trabalha com os bandidos.
Calderón - Hoje realizamos testes de drogas habitualmente em nossos policiais. Fazemos testes psicológicos, obtemos opiniões grafológicas - e examinamos a situação material deles (para ver se estão recebendo dinheiro dos cartéis).
DS - O senhor depende cada vez mais dos militares. Mas os soldados também não podem ser subornados?
Calderón - Não posso garantir, é claro, mas os controlamos rigidamente.
DS - A inquietação está agitando o sul, muito pobre. Seu antecessor mobilizou a polícia militar contra professores em greve em Oaxaca. E os zapatistas, que armaram uma insurreição em 1994, continuam ativos. Com o senhor pretende solucionar todos esses conflitos?
Calderón - Somente pelos meios previstos no regime da lei. Ninguém pode violar a lei e ficar impune. Isso vale tanto para os que governam quanto para a população. Quando um professor exige seus direitos, temos de cumprir as obrigações de um contrato de trabalho. Quando manifestantes destroem carros, danificam prédios públicos ou assaltam propriedades, devem ser punidos. Mas agora a situação em Oaxaca está sob controle. Já retirei as tropas de lá.
DS - Na quinta-feira o senhor vai pela primeira vez à Europa como presidente, e sua primeira escala será Berlim. O que espera da visita?
Calderón - Agora que a Alemanha está na presidência da União Européia, é uma oportunidade especialmente boa para reforçar nossas relações comerciais.
Os alemães e outros europeus devem investir mais, especialmente em turismo.
DS - As empresas alemãs já estão bem representadas no México. Elas contribuem com 5% do PIB. Em que medida o senhor compartilha um terreno político com a chanceler Angela Merkel?
Calderón - Eu a conheço há vários anos. Quando eu era líder do Partido de Ação Nacional (PAN), ela estava assumindo a liderança da União Democrata Cristã (UDC).
DS - Dois conservadores na mesma faixa de onda?
Calderón - Na política, o espectro ideológico está ficando cada vez mais estreito. Os eleitores hoje se encontram principalmente no centro político.
Em todo caso, eu me considero um político de centro.